segunda-feira, 24 de julho de 2017

"Parto-me desses olhos graciosos" - Soneto de Bernardo de Brito


Gabriel von Max, Blonde young girl wiyth a veil



Parto-me desses olhos graciosos


Bem pode, Sílvia minha, qualquer serra 
tirar a estes meus olhos sua glória, 
qualquer monte terá de mim vitória, 
qualquer pequeno espaço, enfim, de terra. 

Mas contra um pensamento fazem guerra, 
que traz em si pintada vossa história, 
e quanto mais contrastes, mais memória 
conserva um coração que vos encerra. 

Parto-me desses olhos graciosos, 
mas por eles vos juro, que mudança 
se não veja nos meus eternamente, 

Que a mágoa de os ver ficar chorosos 
estímulo será para a lembrança 
de quem se vê de vós viver ausente. 


Bernardo de Brito, in 'Sílvia de Lisardo' 


domingo, 23 de julho de 2017

"Do Medo" - Poema de Luís Filipe Castro Mendes


Jan Asselijn, O Cisne Ameaçado, 1640-1650, Rijksmuseum



Do Medo


Não pode o poema 
circunscrever o medo, 
dar-lhe o rosto glorioso 
de uma fábula 
ou crer intensamente na sua aura. 
Nós permanecemos, quando 
escurece à nossa volta o frio 
do esquecimento 
e dura o vento e uma nuvem leve 
a separar-se das brumas 
nos começa a noite. 

Não pode o poema 
quase nada. A alguns inspira 
uma discreta repugnância. 
Outras vezes inclinamo-nos, reverentes, ante os epitáfios 
ou demoramo-nos a escutar as grandes chuvas 
sobre a terra. 
Quem reconhece a poesia, esse frio 
intermitente, essa 
persistência através da corrupção? 
Quase sempre a angústia 
instaura a luz por dentro das palavras 
e lhes rouba os sentidos. 
Quase sempre é o medo 
que nos conduz à poesia. 


Voltando ao medo: as asas 
prendem mais do que libertam; 
os pássaros percorrem necessariamente 
os mesmos caminhos no espaço, 
sem possibilidades de variação 
que não estejam certas com esse mesmo voo 
que sempre descrevem. 
Voltando ao medo: o poema 

desenha uma elipse em redor da tua voz 
e cerca-se de angústia 
e ervas bravias — nada mais 
pode fazer. 


Luís Filipe Castro Mendes, in "A Ilha dos Mortos"



quinta-feira, 20 de julho de 2017

"O sentido" - Poema de António Ramos Rosa


Moritz Müller, Kniende Frau mit Kindern, vom Brand beleuchtet, 1835 



O sentido


O sentido não está em parte alguma.
É como um lábio truncado
ou como a música de um planeta distante.
Raramente é um palácio ou uma planície,
o diamante de um voo ou o coração da chuva.
Por vezes é o zumbido de uma abelha, uma presença pequena
e o dia é fogo sobre a corola do mar.
Ele bebe a violência e a obscuridade
e nas suas margens está o olvido e o caos.
Os seus caprichos contêm toda a distância do silêncio
e todo o fulgor do desejo. Com desesperada música
estala por vezes sob a máscara do tempo.
Com as cinzas de água cria as lâmpadas de sombra
e de um lado é um deserto e do outro uma cascata.
Pode-se percorrê-lo algumas vezes como o espectro solar
ou senti-lo como um grito em farrapos ou uma porta condenada.
Muitas vezes os seus nomes não são nomes
ou são feridas, paredes surdas, finas lâminas,
minúsculas raízes, cães de sombra, ossos de lua.
Todavia, é sempre o amante desejado
que o poeta procura nos obscuros redemoinhos.





segunda-feira, 17 de julho de 2017

"Os Amigos" - Poema de Al Berto


Charles Frederic UlrichThe Glass Blowers, 1883




Os Amigos 


No regresso encontrei aqueles 
que haviam estendido o sedento corpo 
sobre infindáveis areias 

tinham os gestos lentos das feras amansadas 
e o mar iluminava-lhes as máscaras 
esculpidas pelo dedo errante da noite 

prendiam sóis nos cabelos entrançados 
lentamente 
moldavam o rosto lívido como um osso 
mas estavam vivos quando lhes toquei 
depois 
a solidão transformou-os de novo em dor 
e nenhum quis pernoitar na respiração 
do lume 

ofereci-lhes mel e ensinei-os a escutar 
a flor que murcha no estremecer da luz 
levei-os comigo 
até onde o perfume insensato de um poema 
os transmudou em remota e resignada ausência. 


in 'Sete Poemas do Regresso de Lázaro'



Charles Frederic Ulrich, The Glass Engraver, 1883


"A alma é um cenário. Por vezes, ela é como uma manhã brilhante e fresca, inundada de alegria. Por vezes ela é como um pôr do sol... triste e nostálgico."



domingo, 16 de julho de 2017

"Forma de inocência" - Poema de António Gedeão


André Derain, Portrait of a Man with a Newspaper, 1911-1914, 
Hermitage Museum



Forma de inocência


Hei de morrer inocente
exatamente
como nasci.
Sem nunca ter descoberto
o que há de falso ou de certo
no que vi.

Entre mim e a evidência
paira uma névoa cinzenta.
Uma forma de inocência,
que apoquenta.

Mais que apoquenta:
enregela
como um gume
vertical.
E uma espécie de ciúme
de não poder ver igual.





quinta-feira, 13 de julho de 2017

"No silêncio dos olhos" - Poema de José Saramago


Vincent van Gogh, Memória do Jardim em Etten (Senhoras de Arles), 1888



No silêncio dos olhos


Em que língua se diz, em que nação, 
em que outra humanidade se aprendeu 
a palavra que ordene a confusão 
que neste remoinho se teceu?

Que murmúrio de vento, que dourados 
cantos de ave pousada em altos ramos 
dirão, em som, as coisas que, calados, 
no silêncio dos olhos confessamos?


José Saramago, Os poemas Possíveis 



Vincent van Gogh, Ponte de Langlois em Arles, 1888



"Evitar o perigo não é, a longo prazo, mais seguro do que se expor a ele. A vida é uma aventura ousada ou não é nada."



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