quarta-feira, 16 de agosto de 2017

"Vida Sempre" - Poema de Casimiro de Brito


Vincent van Gogh, Velho Triste (No Portão da Eternidade), 1890



Vida Sempre


Entre a vida e a morte há apenas 
o simples fenómeno 
de uma subtil transformação. A morte 
não é morte da vida. 
A morte não é inação, inutilidade. 
A morte é apenas a face obscura, 
mínima, em gestação 
de uma viagem que não cessa de ser. Aventura 
prolongada 
desde o porão do tempo. Projetando-se 
nas naves inconcebíveis do futuro. 

A morte não é morte da vida: apenas 
novas formas de vida. Nova 
utilidade. Outro papel a desempenhar 
no palco velocíssimo do mundo. Novo ser-se (comércio 
do pó) e não se pertencer. 
Nova claridade, respiração, naufrágio 
na máquina incomparável do universo. 


Casimiro de Brito, in "Solidão Imperfeita"



terça-feira, 15 de agosto de 2017

"Tempo" - Poema de Maria Teresa Horta



Joseph Wopfner (Áustria, 1843-1927), Heuernte



Tempo


Num atropelo 
foram passando os anos

Simulando vagares de eternidade 
a burilar os sonhos 
que sonhamos e a acrescentar 
saudades à saudade

Num sobressalto 
fomos tomando o gosto

Às infiéis constelações 
das nossas rimas 
no rasto de anjos e paixões 
feitas de fulgores e neblinas

Num alvoroço 
foi-se ganhando o tempo

Tecendo o poeta verso a verso 
o corpo da poesia acalentada 
no excesso e no gosto do colher 
sedento a seduzir cada palavra

Num tumulto 
fomos iludindo o nada

Na partilha astuciosa do prazer 
numa grande vontade adivinhada 
escrever com a língua portuguesa 
dizendo do país poema e asa




segunda-feira, 14 de agosto de 2017

"Quando o meu amor vem ter comigo" - Poema de Edward Estlin Cummings


Charles Courtney Curran (1861-1942), Lady with a Bouquet (Snowballs), 1890



Quando o meu amor vem ter comigo


Quando o meu amor vem ter comigo é 
um pouco como música, um 
pouco mais como uma cor curvando-se (por exemplo 
laranja) 

contra o silêncio, ou a escuridão...

a vinda do meu amor emite 
um maravilhoso odor no meu pensamento, 

devias ver quando a encontro 
como a minha menor pulsação se torna menos. 
E então toda a beleza dela é um torno 

cujos quietos lábios me assassinam subitamente, 

mas do meu cadáver a ferramenta o sorriso dela faz algo 
subitamente luminoso e preciso 

— e então somos Eu e Ela... 

o que é isso que o realejo toca 


E. E. Cummings, in "livrodepoemas" 
Tradução de Cecília Rego Pinheiro


sábado, 12 de agosto de 2017

Martha Graham - A Dança Moderna





"A dança é a linguagem escondida da alma."




Martha Graham (11 de maio de 1894, Condado de Allegheny, Pensilvânia – 1 de abril de 1991, Nova Iorque) foi uma dançarina e coreógrafa estadunidense que revolucionou a história da Dança Moderna.
O impacto que a dança de Martha Graham causou nos palcos é frequentemente comparado à influência que Picasso teve para a pintura em seu tempo, ou Stravinsky na música, ou Frank Lloyd Wright na arquitetura. As suas contribuições transformaram essa forma de arte, revitalizando e difundindo a dança ao redor do mundo.
Na sua busca por uma forma de expressar-se mais honesta e livremente, ela fundou a Martha Graham Dance Company, uma das mais conceituadas e antigas companhias de dança nos Estados Unidos.
Como professora, Graham treinou e inspirou gerações de grandes bailarinos e coreógrafos. Entre seus discípulos estão Alvin Ailey, Twyla Tharp, Paul Taylor, Merce Cunningham e incontáveis outros atores e dançarinos.
Ela colaborou com alguns dos mais conceituados artistas de seu tempo, como o compositor Aaron Copland e o escultor Isamu Noguchi. Ela inventou uma nova linguagem de movimento, usada para revelar a paixão, a raiva e o êxtase comuns à experiência humana. Ela dançou e coreografou por mais de 70 anos, e durante esse tempo foi a primeira dançarina a se apresentar na Casa Branca, viajar para o estrangeiro como embaixadora cultural, e receber o maior prémio civil do EUA: a Medalha Presidencial da Liberdade.
Em sua vida, ela recebeu homenagens que vão desde a Chave da Cidade de Paris até a Ordem da Coroa Preciosa do Império Japonês. Ela disse: "Passei toda a minha vida com a dança e sendo uma bailarina. É a vida que permite usá-la de uma forma muito intensa. Às vezes não é agradável. Às vezes é terrível. Mas, apesar disso, é inevitável." (Daqui)





"A Dança é, na minha opinião, muito mais do que um exercício, um divertimento, um ornamento, um passatempo social; na verdade, é uma coisa até séria e, sob certo aspeto, mesmo, uma coisa sagrada. Cada era que compreendeu a importância do corpo humano, ou que, pelo menos, teve a noção sensorial de sua estrutura, de seus requisitos, de suas limitações e da combinação de genialidade que lhe são inerentes, cultivou, venerou a Dança." 



A Tribute to Martha Graham


"Prova Documental" - Poema de Francisco Carvalho


James Tissot, Gentleman in a railway carriage, 1872



Prova Documental


Já assumi a solidão dos outros 
já provei do enigma insolúvel 
já calcei as botas do morto 
já tive segredo e foi de água abaixo. 

Já fugi ao encontro marcado 
já fui banido, já disse adeus 
já fui soldado, já fui rapsodo 
já tive inocência e foi de água abaixo. 

Já fui esperto, já fui afoito 
já puxei faca, já toquei pífaro 
já fui vaiado depois da briga 
já tive saudade e foi de água abaixo. 

Já fui árcade, já fui arcaico 
já fui pateta, já fui patético 
já perdi no jogo e na vida 
já tive amor e foi de água abaixo. 

Já tive pressa, já sentei praça 
já tive ouro, já tive prata 
já tive lenda, já tive fazenda 
já tive paz e foi de água abaixo. 

Já tive herdade, já fui deserdado 
já tive episódio, já tive epitáfio 
já levei o andor de Nosso Senhor 
já tive esperança e foi de água abaixo. 

Já tive mando, já corri mundo 
já fui a Roma e não quis ver o Papa 
já fui pra cama com Ana Bolena 
já tive infância e foi de água abaixo. 

Já fui Arlequim, já fui Pierrot 
já tive herança, já tive prosápia 
já tive estrela, já fui primogénito 
já tive cabelo e foi de água abaixo. 

Já fui feliz, já tive almofariz 
já fui a Belém, já comi vatapá 
já andei a cavalo no arco-íris 
já tive paisagem e foi de água abaixo. 

Já pesquei hipocampo de anzol 
já fui de trem ver o quebrar da barra 
já tive odalisca, já tive andaluza 
já tive memória e foi de água abaixo. 


Francisco Carvalho, in 'As Verdes Léguas'


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

"Nunca, por mais que viaje, por mais que conheça" - Poema de Álvaro de Campos


Émile Bernard (1868-1941), Boats at Pont-Aven, 1890, Private collection



Nunca, por mais que viaje, por mais que conheça 


Nunca, por mais que viaje, por mais que conheça
O sair de um lugar, o chegar a um lugar, conhecido ou desconhecido,
Perco, ao partir, ao chegar, e na linha móbil que os une,
A sensação de arrepio, o medo do novo, a náusea —
Aquela náusea que é o sentimento que sabe que o corpo tem a alma, 
Trinta dias de viagem, três dias de viagem, três horas de viagem — 
Sempre a opressão se infiltra no fundo do meu coração.


Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa



Émile Bernard, Breton Landscape, 1890-1891, Private collection 


"Descobri como é bom chegar quando se tem paciência. E para se chegar, onde quer que seja, aprendi que não é preciso dominar a força, mas a razão. É preciso, antes de mais nada, querer.

Amyr Klink in "Cem dias entre céu e mar‎" - Página 6, Publicado por Companhia das Letras, 1985 



Émile Bernard, The Harbor at Saint-Briac, 1887


"Hoje entendo bem meu pai. Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livro ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar do calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece, para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como imaginamos e não simplesmente como ele é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver... Il faut aller voir - é preciso ir ver! É preciso questionar o que se aprendeu. É preciso ir tocá-lo". (Daqui)

Amyr Klink, in "Mar sem fim: 360̊ ao redor da Antártica‎", Publicado por Companhia das Letras, 2000 



Émile BernardThe Cliffs of Pouldu, 1887, Private collection 


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...