sábado, 13 de janeiro de 2018

"Se há cães de sono" - Poema de António Ramos Rosa


Władysław Czachórski (Polish, 1850–1911), Resting Beauty



Se há cães de sono... 


Se há cães de sono que os meus pulsos rasgam
cães de dentes em lava,
se há algas nos teus olhos,
se escrevo no papel a baba dos teus beijos
nenhum vagar de sombra
nenhum campo natural do vivo olhar.

Se nos teus olhos vejo um vale,
se posso dizer casa, vento, nu,
nenhuma terra pousa sobre a terra,
sobre a mão que escreve
nem a sombra cai.
Que escrevo então, nudez sem corpo,
janela sobre um mar sem mar,
mão sem mão,
porque persigo um rastro sem faro, opaco e frio?
Que face ou região, círculo aberto,
página que no silêncio não ascende,
sopro que não sobe à boca, lua morta?
Se não te quero, imagem fútil,
luva de nada,
porque insisto no pálido círculo deste campo?

Se não há sol nem mãos que o arrebatem,
se árvores não vejo, nem destroços restam,
um tudo há de nascer, ou já nasce de nada,
de cães de raiva insones, cães insones?
Oh, dormir sem nada mais, dormir apenas,
dormir para acordar
como se houvera um acordar de vez.


 Respirar a sombra viva


sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

"Há momentos" - poema de António Mendes Cardoso





Há momentos


Há momentos na vida de um Homem
Em que sabe que acordou diferente
E que já não é o mesmo para ele,
Mesmo que o seja para toda a gente...

Há momentos na vida de um Homem
Onde só pode entrar uma Mulher
Aquela que lhe trouxer
A flor do sexo
Desenhada a vermelho no ventre
E nada lhe perguntar...

Há momentos na vida de um Homem
Onde só pode entrar uma mulher
Aquela que lhe trouxer,
Num abraço total,
A ilusão da vida inteira...
E, depois, partir
Com a esperança de vida que ele semeou...

Há momentos na vida de um Homem
Onde só pode entrar uma Mulher
Para todo o Mundo se resumir
À flor vermelha
Como um bocado de sol
Que desponta numa telha!


 em "Poemas de circunstâncias"
(1949-1960)


"Só sei cantar" - Poema de Thiago de Mello


Jacobus Hendrik Pierneef (South African, 1886–1957), Dar-es-Salaam, 1926



Só sei cantar


Sou simplesmente um cantor. 
Já disse que nada invento 
nem produzo formatos diferentes. 
Minha terra tem palmeiras 
onde canta o sabiá. 
Canto a luz da primavera, 
canto a chuva da floresta, 
canto a dor dos deserdados, 
e a alvorada da justiça. 
Canto o olhar da minha amada 
e as pernas dela também. 
Canto a plumagem celeste 
do tucano que me acorda 
e canto o peito encarnado 
do rouxinol que chegou 
dos altos do Rio Negro 
para ver de perto o vôo 
das pipiras azuladas. 
(Alguns, da arte só pela arte, 
me torcem a cara quando 
canto em nome do meu povo 
a aurora da liberdade.) 
Canto o que suja e o que lava, 
canto o que dói e o que abranda, 
canto a rosa e seu espinho 
e a cantiga de ciranda 
que se faz de fogo e neve, 
canto o amor, de novo canto, 
só para aprender a amar. 
Mas não canto o que bem quero 
pelo gosto de cantar 
que às vezes sabe a desgosto. 
Canto o que a vida me pede, 
imperiosa ou macia, 
porque sabe que cantar 
é um modo de repartir. 
Sou poeta, só sei cantar. 
em "De uma vez por todas", 1996


quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

"Poema conformista" - de Torquato Neto


Claude Monet, The Studio Boat, 1876



Poema conformista


Nunca escorreu pelo meu corpo a aurora,
nunca senti na minha boca o traspassar de noites,
nunca dormi ao lado das estrelas – que isto
são coisas absolutamente sem importância
que, de resto, outros sonhadores
já tiveram o cuidado de sonhar.
Eu em mim
incrivelmente existo e me basto.

O temer e o esperar passaram por completo.
E a vontade de ver o invisível
e tocar o intocável
e calcular o necessariamente incalculável
também passaram e não prossigo nisto.
Sou exatamente o que me basto para continuar
sendo.
E nisto me basto.

Quando não pude alcançar o lado oposto
e me perdi e não voltei atrás,
eu prossegui pelo caminho e não parei.
Quando na volta preferi vir só
eu me bastei com meus distensos músculos
e não cortei demais a minha carne
em pedaços inúteis.

Minha incerteza quando dói a afasto
e não me engano em pensar o que não posso
nem me abandono a construir filosofias que a
encharquem.
Se não componho as sinfonias que escuto
ninguém o sabe: eu não sou músico.
Quando não sei se devo ou se não devo prosseguir
em escrever poemas e asneiras,
eu nada faço e me recolho: o poeta que não sou
pode nascer ainda.

Como o dedo apagaria o sol
congelaria a aurora no meu corpo
e afastaria estrelas – mas não quero,
outros sonhadores já sonharam isso.
Como eu disse, sou exatamente o que me basto
para prosseguir,
e não quero mais.
 em "O Fato e A Coisa"


quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

"Rios" - Poema de Viviane Mosé


Charles Courtney Curran, Lotus Lilies, 1888



Rios


Rios, quando ainda são rios,
Conservam vegetação nas margens.
Córregos são águas geralmente claras
Que correm rasas entre as pedras.

Algumas vezes árvores chegam a cobrir um rio por inteiro:
Suas copas vão tecendo um véu verde sobre as águas
(em geral muito limpas) que correm.

As margens de um rio são plantas e terra molhada.
Terra e água em convivência pacífica.
Que não é lama, é terra e água,
Em sua diferença.

O leito se sabe leito daquele fluxo líquido inserido no chão. 
Eu poderia chorar de coisas assim:
Corre um rio de minha boca corre um rio de minhas mãos.
Dos meus olhos corre um rio.

Na verdade sofro de excessos, que me dão certo vocabulário
Como derramar, escorrer, atravessar.
Tenho a impressão de que tudo vaza em sobras.
Tenho dificuldade em caber. 

Pra caber mais derramo por nada derramo sem motivo.
Vou acalmar meu excesso pensei
Ministrando doses diárias de barcos ancorados ao sol,
Rodeados por pequenos pássaros em busca de restos de peixe.

Águas se lançando sobre as pedras e um vento que parece vivo,
Como se tivesse a intenção de às vezes fazer agrados
Em minha pele.

Meu rosto tem muita simpatia por ventos,
Reconhece certos humores próprios a vento.
Gosto de coisas que se movem.

Por isso aprecio rios e não sou tanto assim apegada a mares.
E árvores.
Se bem que tenho enorme ternura por bois
Fincados no pasto como palavras no papel.

Palavras são estacas fincadas ao chão.
Pedras onde piso nessa imensa correnteza que atravesso.


em "Toda palavra"


Charles Courtney Curran, Dans le Jardin du Luxembourg, 1889


"Ninguém ainda sabe se tudo apenas vive para morrer ou se morre para renascer."



terça-feira, 9 de janeiro de 2018

"Metanáutica" - Poema de Geir Nuffer Campos


David Botha (South African, 1921–1995), Wet street scene, Paarl, 1982



Metanáutica


Deixa-te ser viável como um bosque 
ou jardim ou pomar por onde possa 
ir passando a pessoa pela sombra 
ou pela flor ou pelo fruto ou pela 
singular vocação ambulatória: 
deixa-te ser viável como um rio 
ou lago ou mar por onde possa ir 
passando o navegante ou nadador 
pelo afã de chegar ou pelo puro 
sentir-se em ti flutuante ou imerso: 
deixa-te ser viável como um ar 
por onde possa ir passando a asa 
que como tal se procure ou encontre 
firme ou frágil... Mas bosque ou jardim ou 
pomar ou rio ou lago ou mar ou ar, 
deixa em ti lecionar-se o transeunte 
que viver são instâncias de passar. 


in 'Metanáutica'


David Botha, 'Cecilia Street after the Rain', 1978


"Os acasos só favorecem os espíritos preparados."



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