sexta-feira, 17 de novembro de 2017

"Ah! Os Relógios" - Poema de Mário Quintana


David Burliuk, The time, 1910



Ah! Os Relógios


Amigos, não consultem os relógios 
quando um dia eu me for de vossas vidas 
em seus fúteis problemas tão perdidas 
que até parecem mais uns necrológios... 

Porque o tempo é uma invenção da morte: 
não o conhece a vida - a verdadeira - 
em que basta um momento de poesia 
para nos dar a eternidade inteira. 

Inteira, sim, porque essa vida eterna 
somente por si mesma é dividida: 
não cabe, a cada qual, uma porção. 

E os anjos entreolham-se espantados 
quando alguém - ao voltar a si da vida - 
acaso lhes indaga que horas são... 


Mário Quintana, in 'A Cor do Invisível' 


domingo, 12 de novembro de 2017

"Colhe o dia, porque és ele" - Poema de Ricardo Reis


Emil Nolde (1867-1956), Summer Afternoon, 1903



Colhe o dia, porque és ele


Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem; outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Porque tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.


28-8-1933

Odes de Ricardo Reis
Heterónimo de Fernando Pessoa



Emil Nolde, Sommerwolken (Summer clouds), 1913, óleo sobre lienzo, 73 x 88 cm, 
Museo Thyssen-Bornemisza, Madrid


"Para vermos o azul, olhamos para o céu. A Terra é azul para quem a olha do céu. Azul será uma cor em si, ou uma questão de distância? Ou uma questão de grande nostalgia? O inalcançável é sempre azul." 



sábado, 11 de novembro de 2017

"A Dança e a Alma" - Poema de Carlos Drummond de Andrade


Hans Thoma, Eight dancing women with bird bodies, 1886 



A Dança e a Alma


A dança? Não é movimento,
súbito gesto musical.
É concentração, num momento,
da humana graça natural.

No solo não, no éter pairamos,
nele amaríamos ficar.
A dança – não vento nos ramos:
seiva, força, perene estar.

Um estar entre céu e chão,
novo domínio conquistado,
onde busque nossa paixão
libertar-se por todo lado…

Onde a alma possa descrever
suas mais divinas parábolas
sem fugir à forma do ser,
por sobre o mistério das fábulas. 




quarta-feira, 1 de novembro de 2017

"Esta dor que me faz bem" - Poema de Fernanda de Castro


William J. Whittemore (American, 1860-1955), Portrait of a Woman in Pearls.



Esta dor que me faz bem


As coisas falam comigo 
uma linguagem secreta 
que é minha, de mais ninguém. 
Quem sente este cheiro antigo, 
o cheiro da mala preta, 
que era tua, minha mãe? 

Este cheiro de além-vida 
e de indizível tristeza, 
do tempo morto, esquecido... 
Tão desbotada e puída 
aquela fita escocesa 
que enfeitava o teu vestido. 

Fala comigo e conversa, 
na linguagem que eu entendo, 
a tua velha gaveta, 
a vida nela dispersa 
chega à cama onde me estendo 
num perfume de violeta. 

Vejo as tuas jóias falsas 
que usavas todos os dias, 
do princípio ao fim do ano, 
e ainda oiço as tuas valsas, 
minha mãe, e as melodias 
que cantavas ao piano. 

Vejo brancos, decotados, 
os teus sapatos de baile, 
um broche em forma de lira, 
saia aos folhos engomados 
e sobre o vestido um xaile, 
um xaile de Caxemira. 

Quantas voltas deu na vida 
este álbum de retratos, 
de veludo cor de tília? 
Gente outrora conhecida, 
quem lhe deu tantos maus tratos? 
Serão todos da família? 

Ai, vou fechar na gaveta 
a lembrança dolorosa 
dos teus laços de cetim, 
dos teus ramos de violeta, 
do leque de seda rosa 
com varetas de marfim. 

As coisas falam comigo 
numa linguagem secreta, 
que é minha, de mais ninguém. 
Quero esquecer, não consigo. 
Vou guardar na mala preta 
esta dor que me faz bem. 


 in "E Eu, Saudosa, Saudosa"


"Romance" - Poema de Afonso Lopes Vieira


Giacomo Balla, Voo das Andorinhas, 1913, Têmpera sobre papel



Romance


Por noite velha, truz truz,
Bateram à minha porta.
— De onde vens, ó minha alma?
— Venho morta, quase morta.

Já eu mal a conhecia,
De tão mudada que vinha;
Trazia todas quebradas
Suas asas de andorinha.

Mandei-lhe fazer a ceia,
Do melhor manjar que havia.
— De onde vens, ó minha alma,
Que já mal te conhecia?

Mas a minha alma, calada,
Olhava e eu não respondia;
E nos seus formosos olhos
Quantas tristezas havia!

Mandei-lhe fazer a cama
Da melhor roupa que tinha
«Por cima damasco roxo
Por baixo cambraia fina».

— Dorme, dorme ó minha alma,
Dorme e, para te embalar,
A boca me está cantando
Com vontade de chorar.
 Ilhas de Bruma (1917)



Umberto Boccioni, Estados de espírito (estudo): aqueles que ficam, 1911. Óleo sobre tela,
 Museu de Arte Moderna de Nova York.



Umberto Boccioni, Estados de Alma III - Aqueles que permanecem, 1911, MoMA, Nova York



"A vida é o pouco que nos sobra da morte."

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

"Arrojos" - Poema de Cesário Verde


Émile Eisman Semenowsky (1857-1911), Portrait of a Spanish Woman



Arrojos


Se a minha amada um longo olhar me desse 
Dos seus olhos que ferem como espadas, 
Eu domaria o mar que se enfurece 
E escalaria as nuvens rendilhadas. 

Se ela deixasse, extático e suspenso 
Tomar-lhe as mãos «mignonnes» e aquecê-las, 
Eu com um sopro enorme, um sopro imenso 
Apagaria o lume das estrelas. 

Se aquela que amo mais que a luz do dia, 
Me aniquilasse os males taciturnos, 
O brilho dos meus olhos venceria 
O clarão dos relâmpagos noturnos. 

Se ela quisesse amar, no azul do espaço, 
Casando as suas penas com as minhas, 
Eu desfaria o Sol como desfaço 
As bolas de sabão das criancinhas. 

Se a Laura dos meus loucos desvarios 
Fosse menos soberba e menos fria, 
Eu pararia o curso aos grandes rios 
E a terra sob os pés abalaria. 

Se aquela por quem já não tenho risos 
Me concedesse apenas dois abraços, 
Eu subiria aos róseos paraísos 
E a Lua afogaria nos meus braços. 

Se ela ouvisse os meus cantos moribundos 
E os lamentos das cítaras estranhas, 
Eu ergueria os vales mais profundos 
E abateria as sólidas montanhas. 

E se aquela visão da fantasia 
Me estreitasse ao peito alvo como arminho, 
Eu nunca, nunca mais me sentaria 
As mesas espelhentas do Martinho. 


in 'O Livro de Cesário Verde'


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