quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

"Minha Mãe" - Poema de Azevedo Cruz


Charles Courtney Curran, 'Breakfast for Three', 1909


Minha Mãe


Da luz do Além vejo terras distantes
Num quadro de expressão que nunca vira.
Orion, Sirius, Aldebaran, Alfa e Lira…
Na celeste harmonia de gigantes.

 A saudade cruel é a força que me inspira.
Todo ambiente em torno é belo como dantes
No reduto das rosas fascinantes
Sustentadas aos toques da safira.

 Busco uma casa amiga, o coração estala.
Encontro minha mãe! Corro a beijá-la
Abraçado no amor de que me inundo.

Meu Deus! Não quero o céu, mesmo em te amando.
Quero ficar com minha mãe rezando
Na verdadeira paz que achei no mundo!…




Charles Courtney Curran, Dolly's Portrait, 1909


"As mulheres são as flores da vida, assim como as crianças são os frutos dela." 



domingo, 18 de fevereiro de 2018

"A gata" - Poema de Eugénia Tabosa


Hans Andersen Brendekilde (1857-1942), Summer day in the village with a little girl and a kitten



A gata 

(A meu filho Carlos) 


A gata branca tinha um olho verde e outro azul
mas para mim ela era como uma aranha.
Que pena eu tinha de a não amar,
que pena eu tinha do seu ronronar em mim não ter eco.
E sempre que a gata vinha eu ia
e ela ficava mais triste mais só.
Sim, ela tivera casa, almofada e mesmo um nome
depois nasceu um menino e ela foi para o quintal.
Como ela soube então que as noites eram azuis,
o luar, o cheiro da terra molhada e tudo o mais.
Mas um dia a casa ficou vazia.
Aqueles de quem ela tinha sido e seus se diziam
fizeram malas e levaram tudo o que havia,
foram-se deixando a porta fechada.
Só ela ficou, toda branca um olho verde outro azul.
Passaram noites, dias longos e silêncios.
Depois cheguei eu, as flores e os risos,
a casa enchera-se outra vez, mas ela não entrou.
Rondava, olhando-me como intrusa.
Passou o verão, houve noites de chuvas
Noites azuis e de estrelas que nevavam.
E numa delas chegou um menino, o meu menino.
Então amei-o, amei-o daquele amor à vida
transbordante e doce, até às coisas pequenas.
E quando um dia a gata se foi deitar
em meu casaco numa cadeira esquecido,
olhei-a e não a pude enxotar.


Portugal (1931)



Haicais de crianças
H. A. Brendekilde, The New Doll


Boneca de trapo
no baú esquecida
quem te beijou?

(Eugénia Tabosa)


H. A. Brendekilde, Gathering Water From the Well


Na casa vazia
ficou o som do riso
das crianças

(Eugénia Tabosa)


H. A. Brendekilde, Fishing Village 


Vidraça molhada,
o menino
desenha a estrada

(Eugénia Tabosa)


H. A. Brendekilde, Summer in the Garden


Monte a cima
crianças sobem trenós
só para descer

(Eugénia Tabosa)


H. A. Brendekilde, Danish summer idyll with old folks talking at the white country house, 1894


Ursos, carrinhos...
agora outros cuidados
e carinhos

(Eugénia Tabosa)


H. A. Brendekilde, The Cottage Garden


Sentada na grama
a menina chora,
orvalho de flor

(Eugénia Tabosa)


H. A. Brendekilde, At the garden bank, 1913


Ao sol sentada
as mãos no ventre
acaricia o filho

(Eugénia Tabosa)


H. A. Brendekilde


Cabelos negros
e saias rodadas
elas dançam ao vento

(Eugénia Tabosa)


H. A. Brendekilde, You come out for playing


Pingos de gelo,
choro de anjo
ou doce de criança?

(Eugénia Tabosa)

sábado, 17 de fevereiro de 2018

"Aqui desta varanda" - Poema de Marly de Oliveira


Hans Heyerdahl (1857-1913), At the Window, 1881



A vida natural - XIX


Aqui desta varanda
espaçosa que dá
sobre um jardim e sobre o imenso largo,
contemplo sossegada
o cair, sobre as coisas,
lento, do dia, o céu por todo lado.
Contraponho o silêncio
desta vida perfeita,
à vida que se vive
na cidade, em tumulto.
A minha pálpebra sustenta o peso
da tarde, que me fecha
num sonho, vagarosa.

Sonhamos o que vemos?
ou somos nós o sonho
daquilo que não vemos no que vemos?
A matéria das coisas
me desmaterializa
ao ponto de me ser inatingível
o sentido de estar,
o sentido de ser
distinto delas. Ah,
quem me é? quem me sabe,
sob este céu de estrelas quentes e úmidas?
Não vivo, sou vivida
na noite, pelas coisas.


em "A vida natural". 
Rio de Janeiro: Literatura, 1967.


sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

"O Relógio" - Poema de João Cabral de Melo Neto


Francis Cadell, The Harbour, Cassis, 1924



O Relógio

1

Ao redor da vida do homem 
há certas caixas de vidro, 
dentro das quais, como em jaula, 
se ouve palpitar um bicho. 

Se são jaulas não é certo; 
mais perto estão das gaiolas 
ao menos, pelo tamanho 
e quebradiço de forma. 

Uma vezes, tais gaiolas 
vão penduradas nos muros; 
outras vezes, mais privadas, 
vão num bolso, num dos pulsos. 

Mas onde esteja: a gaiola 
será de pássaro ou pássara: 
é alada a palpitação, 
a saltação que ela guarda; 

e de pássaro cantor, 
não pássaro de plumagem: 
pois delas se emite um canto 
de uma tal continuidade 

que continua cantando 
se deixa de ouvi-lo a gente: 
como a gente às vezes canta 
para sentir-se existente.

2

 O que eles cantam, se pássaros, 
é diferente de todos: 
cantam numa linha baixa, 
com voz de pássaro rouco; 

desconhecem as variantes 
e o estilo numeroso 
dos pássaros que sabemos, 
estejam presos ou soltos; 

têm sempre o mesmo compasso 
horizontal e monótono, 
e nunca, em nenhum momento, 
variam de repertório: 

dir-se-ia que não importa 
a nenhum ser escutado. 
Assim, que não são artistas 
nem artesãos, mas operários 

para quem tudo o que cantam 
é simplesmente trabalho, 
trabalho rotina, em série, 
impessoal, não assinado, 

de operário que executa 
seu martelo regular 
proibido (ou sem querer) 
do mínimo variar.

3

A mão daquele martelo 
nunca muda de compasso. 
Mas tão igual sem fadiga, 
mal deve ser de operário; 

ela é por demais precisa 
para não ser mão de máquina, 
a máquina independente 
de operação operária. 

De máquina, mas movida 
por uma força qualquer 
que a move passando nela, 
regular, sem decrescer: 

quem sabe se algum monjolo 
ou antiga roda de água 
que vai rodando, passiva, 
graças a um fluido que a passa; 

que fluido é ninguém vê: 
da água não mostra os senões: 
além de igual, é contínuo, 
sem marés, sem estações. 

E porque tampouco cabe, 
por isso, pensar que é o vento, 
há de ser um outro fluido 
que a move: quem sabe, o tempo.

4

 Quando por algum motivo 
a roda de água se rompe, 
outra máquina se escuta: 
agora, de dentro do homem; 

outra máquina de dentro, 
imediata, a reveza, 
soando nas veias, no fundo 
de poça no corpo, imersa. 

Então se sente que o som 
da máquina, ora interior, 
nada possui de passivo, 
de roda de água: é motor; 

se descobre nele o afogo 
de quem, ao fazer, se esforça, 
e que ele, dentro, afinal, 
revela vontade própria, 

incapaz, agora, dentro, 
de ainda disfarçar que nasce 
daquela bomba motor 
(coração, noutra linguagem) 

que, sem nenhum coração, 
vive a esgotar, gota a gota, 
o que o homem, de reserva, 
possa ter na íntima poça.





Samuel Peploe, Cassis, 1913


"Viver sem filosofar é o que se chama ter os olhos fechados sem nunca os haver tentado abrir."




quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

"Música" - Poema de António Gancho


Gerard van Honthorst (1592-1656), The Concert, 1623



Música 


A música vinha duma mansidão de consciência 
era como que uma cadeira sentada sem 
um não falar de coisa alguma com a palavra por baixo 
nada fazia prever que o vento fosse de azul para cima 
e que a pose uma nostalgia de movimento deambulante 
era-se como se tudo por cima duma vontade de fazer uma asa 
nós não movimentamos o espaço mas a vida erige a cifra 
constrói por dentro um vocábulo sem se saber 
como o que será 
era um sinal que vinha duma atmosfera simplificante 
silêncio como um pássaro caído a falar do comprimento. 


in 'O Ar da Manhã' 



"Os problemas de um livro" - Poema de Laura Riding


Charles Courtney Curran, An Afternoon Respite, 1894, Private collection



Os problemas de um livro


O problema de um livro é, primeiro, não ser 
Pensamentos para ninguém 
E ficará tão inescrito 
Quanto permanecerá não lido 
E construir um autor palavra por palavra 
E ocupar sua cabeça 
Até que a cabeça feche pra balanço 
Para publicar a todos 
Seu esvaziamento. 

O segundo problema de um livro 
É ficar desperto e pronto 
À escuta como um dono de pousada 
Querendo, não querendo hóspedes, 
Indeciso entre a esperança de folga nenhuma 
E a esperança de folga. 
Vacilantes, as páginas cochilam 
E piscam para os dedos que passam 
Com sorriso proprietário, e fecham-se. 

O terceiro problema de um livro é 
Dar seu sermão e virar as costas 
Suscitando comoção nas margens 
Onde a língua cruza o olho, 
Sem declarar nenhuma experiência de pânico, 
Nenhuma cumplicidade neste tumulto. 
A provação de um livro é não dar pistas 
De ser provação, é ser neutro e leigo 
No sentido reto do impresso. 

O problema de um livro, principalmente, 
É ser só livro na superfície; 
Vestir capa como capa, 
Se enterrar em morte-livro 
Mas se sentir tudo menos livro, 
Respirar palavras vivas, mas com o hálito 
Das letras; endereçar vivacidade 
Nos olhos que lêem, ser respondido 
Com letras e livrescidade.


Charles Courtney Curran, Fair Critics, 1887, The Metropolitan Museum of Art


"Um pintor não tem outros inimigos sérios senão os seus piores quadros."



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