segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

"Retomo ao Ponto de Partida" - Poema de Vergílio Ferreira


Pintura de Gerrit Dou (1613-1675)



Retomo ao Ponto de Partida 


Retomo, pois, ao ponto de partida
como um presente, o ponto de chegada.
Entre um começo e outro não há nada
Excepto o nada da vida vivida.

Desgaste, corrosão do que de novo
em velho se mudou antes de o ser,...


Vergílio Ferreira, 
in 'Conta-Corrente'


Gerrit Dou, Painter in his Studio, 1647



Eu...


Eu não sou eu nem sou o outro, 
Sou qualquer coisa de intermédio: 
Pilar da ponte de tédio 
Que vai de mim para o Outro.


Mário de Sá-Carneiro, in 'Indícios de Oiro' 



Pintura de Gerrit Dou


"Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar, para atravessar o rio da vida. Ninguém, exceto tu, só tu. Existem, por certo, atalhos sem números, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio; mas isso te custaria a tua própria pessoa; tu te hipotecarias e te perderias. Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar. Onde leva? Não perguntes, segue-o!"


(Friedrich Nietzsche, Filósofo alemão do século XIX, nascido em Röcken, Alemanha)



Gerrit Dou, Still Life with Young Boy blowing Soap Bubbles, c. 1635-36



"O menino que sofre e se indigne diante dos maus tratos infligidos aos animais, será bom e generoso com os homens."

(Benjamin Franklin)



Gerrit Dou, Sleeping Dog, 1650. Oil on panel


"Ao estudar as características e a índole dos animais, e contrastando-as com os traços e disposições do homem encontrei um resultado humilhante para mim."




Samuel Langhorne Clemens (Florida, Missouri, 30 de novembro de 1835 — Redding, Connecticut, 21 de abril de 1910), mais conhecido pelo pseudónimo Mark Twain, foi um escritor e humorista norte-americano. É mais conhecido pelos romances The Adventures of Tom Sawyer (1876) e sua sequência Adventures of Huckleberry Finn (1885), este último frequentemente chamado de "O Maior Romance Americano".
Twain cresceu em Hannibal, Missouri, que mais tarde serviria de inspiração e cenário para Huckleberry Finn e Tom Sawyer. Após laborar como tipógrafo em diversas cidades, ajudou Orion, seu irmão mais velho, na administração de um jornal. Na ocasião, exerceu diferentes funções, como impressor, tipógrafo e colunista. Tornou-se em seguida piloto de barcos a vapor no Rio Mississippi, antes de se dirigir ao oeste para juntar-se a Orion em diligências a serviço do governo. A jornada com o irmão terminou quando Twain decidiu trabalhar como mineiro na extração de prata. Frustrado em mais esse intento, experimentou posteriormente carreira no jornalismo. Enquanto repórter, escreveu o conto humorístico The Celebrated Jumping Frog of Calaveras County, que alcançou imensa popularidade e atraiu para seu autor atenção nacional. Seus diários de viagem, lançados depois, também foram um sucesso. Twain encontrara sua aptidão.
Ele obteve grande êxito como escritor e palestrante. Seu raciocínio perspicaz e suas sátiras incisivas renderam-lhe a admiração de seus pares e o enaltecimento dos críticos, e Twain manteve boas relações com presidentes, artistas, industriais e a realeza europeia. Ele foi laureado como o "maior humorista americano de sua época", sendo definido por William Faulkner como o "pai da literatura americana".


The Beauty of life - from Goro Fujita

"Palavra Mágica" - Poema de Carlos Drummond de Andrade


William Blake, Oberon, Titania and Puck with Fairies Dancing, 1786



Palavra Mágica


Certa palavra dorme na sombra 
de um livro raro. 
Como desencantá-la? 
É a senha da vida 
a senha do mundo. 
Vou procurá-la. 

Vou procurá-la a vida inteira 
no mundo todo. 
Se tarda o encontro, se não a encontro, 
não desanimo, 
procuro sempre. 

Procuro sempre, e minha procura 
ficará sendo 
minha palavra. 


 in 'Discurso da Primavera'



 O "Ancião dos Diasé descrito no Capítulo 7 do Livro de Daniel



"A ave constrói o ninho; a aranha constrói a teia; o Homem, a Amizade".


(William Blake)



William Blake in a portrait by Thomas Phillips (1807)


William Blake (Londres, 28 de novembro de 1757 — Londres, 12 de agosto de 1827) foi um poetatipógrafo e pintor inglês, sendo sua pintura definida como pintura fantástica. Blake viveu num período significativo da história, marcado pelo iluminismo e pela Revolução Industrial na Inglaterra. A literatura estava no auge do que se pode chamar de clássico "augustano", uma espécie de paraíso para os conformados às convenções sociais, mas não para Blake que, nesse sentido era romântico, "enxergava o que muitos se negavam a ver: a pobreza, a injustiça social, a negatividade do poder da Igreja Anglicana e do estado. (Daqui)



Enya - Only Time



 Silêncio


E de súbito desaba o silêncio. 
É um silêncio sem ti, 
sem álamos, 
Daquelas mãos de sangue um pequenito sem luas. 
Só nas minhas mãos 
oiço a música das tuas.



domingo, 29 de janeiro de 2012

"Vozes de animais"... Poema de Pedro Dinis




Vozes de animais


Palram pega e papagaio,
E cacareja a galinha;
Os ternos pombos arrulham,
Geme a rola inocentinha.

Muge a vaca, berra o touro,
Grasna a rã, ruge o leão
O gato mia, uiva o lobo,
Também uiva e ladra o cão.

Relincha o nobre cavalo,
Os elefantes dão urros
A tímida ovelha bala,
Zurrar é próprio dos burros.

Regouga a sagaz raposa
(bichinho muito matreiro);
Nos ramos cantam as aves,
Mas pia o mocho agoureiro.

Sabem as aves ligeiras
O canto seu variar;
Fazem gorjeios às vezes,
Às vezes põem-se a chilrar.

O pardal, daninho aos campos,
Não aprendeu a cantar:
Como os ratos e as doninhas
Apenas sabe chiar.

O negro corvo crocita,
Zune o mosquito enfadonho;
A serpente no deserto
Solta assobio medonho.

Chia a lebre, grasna o pato,
Ouvem-se os porcos grunhir;
Libando o suco das flores,
Costuma a abelha zumbir.

Bramem os tigres, as onças,
Pia, pia, o pintainho;
Cucurita e canta o galo,
Late e gane o cachorrinho.

A vitelinha dá berros;
O cordeirinho, balidos;
O macaquinho dá guinchos,
A criancinha vagidos.

A fala foi dada ao homem,
Rei dos outros animais:
Nos versos lidos acima
Se encontram, em pobre rima,
As vozes dos principais.


Pedro Dinis, 
Tesouro Poético da Infância, 
 Publicações D. Quixote



Planeta Terra - compositor Jo Blankenburg.



"Quando percebo, não penso o mundo, ele organiza-se diante de mim." 

(Maurice Merleau-Ponty, in Sentido e Não-Sentido)

Maurice Merleau-Ponty  (Rochefort-sur-Mer, 14 de março de 1908 — Paris, 4 de maio de 1961) foi um filósofo fenomenólogo francês.)










"Hoje em dia não pensamos muito no amor de um homem por um animal; rimos de pessoas que são apegadas a gatos. Mas se pararmos de amar os animais, não estaremos na iminência de pararmos de amar os humanos, também?" 


(Alexander Solzhenitsyn) 


Alexander Soljenítsin ( Kislovodsk, 11 de Dezembro de 1918 —Moscovo, 3 de Agosto de 2008) foi romancistadramaturgo e historiador russo cujas obras consciencializaram o mundo quanto aos gulags, sistema de campos de trabalhos forçados existente na antiga União Soviética. Recebeu o Nobel de Literatura de 1970.






"A verdadeira filosofia é reaprender a ver o mundo."

(Alexander Solzhenitsyn) 

"Navio de sal" - Poema de Vitorino Nemésio


Joseph Wopfner (Áustria, 1843-1927), Bodenseefischer 



Navio de sal


Quando eu era pequeno, vinha o navio de sal,
Era um acontecimento!
E meu tio António Machado ia sempre ao areal
Com o seu óculo de alcance desencanudado a barlavento.
Era um iate cheio de cordas e de velas,
Chamado Santo Amaro, o Veloz ou o Diligente,
E, como trazia o sal, que é o sabor das panelas,
Era esperado tal qual como se fosse um ausente.
Na barra do horizonte era um ponto sozinho,
Mas crescia no vento a sua vela crua,
E o sol, ao morrer, tingia-lhe de vinho
A proa que vestia a pau a vaga nua.
Ali vinha, do Alto, sem sextante nem erro,
Enchendo devagar as previstas derrotas,
E plantava no fundo a sua raiz de ferro
Fazendo abrir no céu como flores as gaivotas.
As raparigas sãs da ribeira do mar,
Que traziam na pele um aroma silvestre,
Punham os olhos muito compridos, a cismar,
Nas cordas que secavam as roupas íntimas do Mestre.
Os pescadores mediam com a linha das pestanas
O tamanho do Audaz, a sua popa alceira:
Nunca tinha arribado àquelas praias insulanas
Tanto pano de verga, tanto oleado, tanta madeira!
Por isso a Vila, abrindo nas rochas duras
A branca humanidade das suas nocturnas casas,
Se encostava ao bater daquelas velas escuras
Como o corpo de um pássaro se deixa levar pelas asas.
(...) 
Ah, se ele fosse salgar os caldos já tragados,
Tornar incorruptível a mocidade já verde,
Interessar o óculo do velho tio e os vidros suados
Da janela que ao longe este horizonte perde!
Se fosse encher de branco as paragens insossas,
Manter o gosto a vida aos dias moribundos,
Conservar as faces às moças
E o movimento aos mares profundos,
Então sim! levaria a porto e salvamento
A sua carga.
Na dúvida, Capitão, espera o vento,
Iça as velas e larga!


Vitorino Nemésio, in O Bicho Harmonioso (1938)



Vitorino Nemésio


Vitorino Nemésio nasceu em Praia da Vitória, Ilha Terceira, Açores, a 19 de Dezembro de 1901. A infância e a adolescência foram vividas na cidade de Angra do Heroísmo. Após os estudos liceais, matriculou-se na Faculdade de Direito de Coimbra, mas acabou por se licenciar em Filologia Românica. A partir de 1940 foi professor catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa. Colaborou com a revista «Presença» e, após ter leccionado nas Universidades de Montpellier e de Bruxelas, fundou, em 1937, a importante «Revista de Portugal». Escreveu inúmeras crónicas para os jornais e participou em programas emitidos pela rádio e pela televisão. Destacam-se as conversas que manteve com os telespectadores, nos anos setenta, intituladas «Se bem me lembro». Paralelamente a esta actividade, foi erguendo uma vasta obra que, no domínio da poesia, é considerada uma das mais importantes da literatura portuguesa. Na ficção, o romance «Mau Tempo No Canal» é a sua obra-prima e «encarna a alma popular das Ilhas» (Óscar Lopes). Morreu em Lisboa, em 1978.


Joseph Wopfner (1843–1927)



"Só existem dois dias no ano que nada pode ser feito. Um chama-se ontem e o outro chama-se amanhã, portanto hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver". 

(Dalai Lama)



U2 - Love Is Blindness

Poema matemático...


Paul Klee



Poema matemático

Um Quociente apaixonou-se
Um dia
Doidamente
Por uma Incógnita.

Olhou-a com seu olhar inumerável
E viu-a, do Ápice à Base...
Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo ortogonal, seios esferóides.

Fez da sua
Uma vida
Paralela à dela.
Até que se encontraram
No Infinito.

"Quem és tu?" indagou ele
Com ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode chamar-me Hipotenusa."

E de falarem descobriram que eram
O que, em aritmética, corresponde
A alma irmãs
Primos-entre-si.

E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz.
Numa sexta potenciação
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão
Rectas, curvas, círculos e linhas sinusoidais.

Escandalizaram os ortodoxos
das fórmulas euclidianas
E os exegetas do Universo Finito.

Romperam convenções newtonianas
e pitagóricas.
E, enfim, resolveram casar-se.
Constituir um lar.
Mais que um lar.
Uma Perpendicular.

Convidaram para padrinhos
O Poliedro e a Bissectriz.
E fizeram planos, equações e
diagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade
Integral
E diferencial.

E casaram-se e tiveram
uma secante e três cones
Muito engraçadinhos.
E foram felizes
Até àquele dia
Em que tudo, afinal,
se torna monotonia.

Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum...
Frequentador de Círculos Concêntricos.
Viciosos.

Ofereceu-lhe, a ela,
Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum.

Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava mais Um Todo.
Uma Unidade.
Era o Triângulo,
chamado amoroso.
E desse problema ela era a fracção
Mais ordinária.

Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade.
E tudo que era espúrio passou a ser
Moralidade
Como aliás, em qualquer
Sociedade.

(Poema cuja autoria não foi possível identificar)


Paul Klee


Artista suíço, Paul Klee nasceu em 1879, na Suíça. Filho de um professor de música, começou desde cedo a tocar violino. Em 1900 inscrevia-se na Academia de Belas-Artes de Munique, começando por utilizar a pena e a tinta e a gravura. Os temas continham algo de sinistro e satírico, na tradição do fantástico presentes em artistas como Francisco Goya, William Blake ou Odilon Redon. Na sua primeira exposição individual em 1910 apresentava gravuras. O contacto com o grupo de artistas alemães Blaue Reiter e sobretudo uma viagem à Tunísia em 1914 assumiram uma importância fundamental na evolução da sua estética. Começou a pintar aguarelas de paisagens e motivos de arquitetura, construindo as composições a partir de formas simples que criam um ambiente ingénuo e bem-humorado. Em O Zoo (1918) desenvolveu a técnica iniciada na Tunísia. As imagens possuem um aspeto deliberadamente infantil, o que empresta a toda a construção uma característica poética não isenta de humorismo. Em 1920 foi convidado por Gropius a integrar o corpo docente da escola Bauhaus e a partir daqui o seu trabalho vai refletir a ideologia da escola, mas num ambiente muito pessoal. Em Juniper (1930) apresenta uma visão humorística da estética construtivista que então singrava na Bauhaus. Procurou ainda teorizar as suas conceções de Arte em Maneiras de Estudar a Natureza (1923), Esboços de Pedagogia (1925) e Experiências Exatas no Realismo da Arte (1928), sem contudo propor um todo sistemático e coerente. Com a ascensão do regime nazi, regressou a Berna em 1933. Começou a pintar com linhas pretas, grossas, construindo composições simples e ousadas: Sinais Negros (1938), Jogo de Crianças (1939). O humor dos trabalhos anteriores era contudo menos evidente e o clima era por vezes mesmo ameaçador, como em Morte e Fogo e Máscara (1940). Veio a falecer na cidade de Berna em 1940. Apesar de ter partilhado as teorias de Kandinsky, Paul Klee desenvolveu um universo pictural muito próprio, partindo de formas abstratas e fantásticas e criando uma arte subjetiva espontaneamente poética.

Paul Klee. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2012. [Consult. 2012-01-29].



Ne-Yo - One In A Million


sábado, 28 de janeiro de 2012

"Mistério" - Poema de Florbela Espanca


Pintura de Jeff Rowland



Mistério 


Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.

Dos teus pálidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa boca não aprende,
Murmúrios por caminhos desolados.

Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o lúgubre arrepio
Das sensações estranhas, dolorosas…

Talvez um dia entenda o teu mistério…
Quando, inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome às rosas!


Florbela Espanca



Nelly Furtado - In God's Hands



"A confiança é um ato de fé. E esta dispensa raciocínio."


(Carlos Drummond de Andrade)


"Improviso do Amor Perfeito" - Poema de Cecília Meireles


Thomas Wilmer Dewing, Portrait in a Brown Dress, ca. 1908



Improviso do Amor Perfeito 


Naquela nuvem, naquela
Mando-te meu pensamento:
Que Deus se ocupe do vento.

Os sonhos foram sonhados,
E o padecimento aceito.
E onde estás, Amor-Perfeito?

Imensos jardins da insónia,
De um olhar de despedida
Deram flor por toda a vida.

Ai de mim que sobrevivo
Sem o coração no peito,
E onde estás, Amor-Perfeito?

Longe, longe, atrás do oceano
Que nos meus olhos se alteia,
Entre pálpebras de areia...

Longe, longe... Deus te guarde
Sobre o seu lado direito,
Como eu te guardava do outro,
Noite e dia, Amor-Perfeito. 





Christina Aguilera - Hurt


quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

"Este é o Prólogo" - Poema de Federico Garcia Lorca





Este é o Prólogo


Deixaria neste livro 
toda a minha alma
este livro que viu 
as paisagens comigo 
e viveu horas santas. 

Que pena dos livros 
que nos enchem as mãos 
de rosas e de estrelas 
e lentamente passam! 

Que tristeza tão funda 
é olhar os retábulos 
de dores e de penas 
que um coração levanta! 

Ver passar os espectros 
de vida que se apagam, 
ver o homem desnudo 
em Pégaso sem asas, 

ver a vida e a morte, 
a síntese do mundo, 
que em espaços profundos 
se olham e se abraçam. 

Um livro de poesias 
é o outono morto: 
os versos são as folhas 
negras em terras brancas, 

e a voz que os lê 
é o sopro do vento 
que lhes incute nos peitos 
- entranháveis distâncias. 

O poeta é uma árvore 
com frutos de tristeza 
e com folhas murchas 
de chorar o que ama. 

O poeta é o médium 
da Natureza 
que explica sua grandeza 
por meio de palavras. 

O poeta compreende 
todo o incompreensível 
e as coisas que se odeiam, 
ele, amigas as chamas. 

Sabe que as veredas 
são todas impossíveis, 
e por isso de noite 
vai por elas com calma. 

Nos livros de versos, 
entre rosas de sangue, 
vão passando as tristes 
e eternas caravanas 

que fizeram ao poeta 
quando chora nas tardes, 
rodeado e cingido 
por seus próprios fantasmas. 

Poesia é amargura, 
mel celeste que emana 
de um favo invisível 
que as almas fabricam. 

Poesia é o impossível 
feito possível. Harpa 
que tem em vez de cordas 
corações e chamas. 

Poesia é a vida 
que cruzamos com ânsia, 
esperando o que leva 
sem rumo a nossa barca. 

Livros doces de versos 
sãos os astros que passam 
pelo silêncio mudo 
para o reino do Nada, 
escrevendo no céu 
suas estrofes de prata. 

Oh! que penas tão fundas 
e nunca remediadas, 
as vozes dolorosas 
que os poetas cantam! 

Deixaria neste livro 
toda a minha alma... 


(tradução: William Agel de Melo)






"Todas as coisas têm o seu mistério, e a poesia é o mistério de todas as coisas." 


(Federico Garcia Lorca)


"Libertação" - poema de José Régio


Pintura de Vicki Shuck



Libertação


Menino doido, olhei em roda, e vi-me
Fechado e só na grande sala escura.
(Abrir a porta, além de ser um crime,
Era impossível para a minha altura...) 

Como passar o tempo?... E diverti-me
Desta maneira trágica e segura:
Pegando em mim, rasguei-me, abri, parti-me,
Desfiz trapos, arames, serradura... 

Ah, meu menino histérico e precoce!
Tu, sim! Que tens mãos trágicas de posse,
E tens a inquietação da Descoberta! 

O menino, por fim, tombou cansado;
O seu boneco aí jaz esfarelado...
E eu acho, nem sei como, a porta aberta! 



José Régio,
Poemas de Deus e do Diabo



Vicki Shuck, "Morning's First Hug"



Há um instante… 


Há um instante em que a memória é estreita
para conter o mar, o sal, os navios,
a penumbra branca das gaivotas.

Um instante de nudez perfeita.






Andrea Bocelli - Con te Partirò


Andrea Bocelli (Lajatico, 22 de setembro de 1958) é um tenor, compositor e produtor musical italiano. Ganhador de cinco BRIT Awards e três Grammys. Bocelli é um tenor, e gravou quatro óperas completas (La bohème, Il trovatore, Werther e Tosca), além de vários álbuns clássicos e populares.
Filho de Alessandro e Edi Bocelli, Andrea cresceu na fazenda da família, a cerca de 40 km da cidade de Pisa. Desde que nasceu, o pequeno Bocelli possuia evidentes problemas de perda de visão e após vários estudos clínicos Andrea foi diagnosticado com glaucoma. Quando Bocelli tinha doze anos, enquanto jogava futebol, foi atingido na cabeça, e perdeu definitivamente a visão. Aos seis anos de idade, iniciou suas aulas de piano e depois as de flauta, saxofone, trompete, harpa, violão e bateria. Na infância, Andrea tocava órgão na igreja que se situava próxima à casa, onde ia todos os domingos com a avó. Aos doze anos de idade venceu o prémio Margherita d'Oro, em Viareggio, com a canção "O Sole Mio", constituindo a primeira vitória numa competição musical. 
Após a conclusão do seu ensino médio, em 1980, Bocelli foi para a Universidade de Pisa, onde mais tarde foi graduado em Direito. Depois de trabalhar por um ano como advogado, Andrea teve aulas de canto do maestro Luciano Bettarini, dedicando-se à música em tempo integral. 
Bocelli nunca parou o treinamento vocal, atendendo "master classes" com o renomado tenor Franco Corelli, em Turin
Em 1992, o astro do rock italiano Zucchero Fornaciari testou Andrea enquanto procurava por tenores para fazer um dueto com ele na canção "Miserere"; quando ouviu a gravação, o tenor Luciano Pavarotti implorou a Zucchero para usar Andrea em vez dele mesmo. Enfim, a música foi gravada com Pavarotti, mas Andrea Bocelli acompanhou Zucchero na gira europeia. 
Em 1994, Andrea apresentou-se no Festival de San Remo (Festival da canção italiana), ganhando o evento com a canção "Il mare calmo della sera", o que levou ao primeiro disco de ouro. No mesmo ano, estreou na ópera Macbeth, de Giuseppe Verdi, com o papel de Macduff, cantou no concerto beneficente de Pavarotti em Modena e apresentou-se para o Papa João Paulo II no Natal. Em 1995, sua canção "Con te partirò" ficou em quarto lugar no Festival de San Remo
Bocelli tem dois filhos: Amos (nascido em 1995) e Matteo (nascido em 1997). Foi casado, mas está separado da única mulher, Enrica. O ídolo de infância era Eusébio da Silva Ferreira, jogador de futebol português. Quando Andrea Bocelli se tornou famoso, foi Eusébio que o quis conhecer e as posições trocaram-se.
Em 1996, cantou com a soprano inglesa Sarah Brightman uma versão em dueto de "Con te partirò", intitulada "Time to Say Goodbye" ("Hora de Dizer Adeus"), que bateu recordes de vendas e ficou no topo das dez canções mais tocadas no mundo por quase seis meses. Nos anos seguintes, Andrea apresentou-se em Paris, Bologna, Torre del Lago e Vaticano. Lançou mais álbuns até a sua entrada no mercado americano, com um concerto no "John F. Kennedy Center for the Performing Arts" em Washington D.C. e uma recepção na Casa Branca. Naquele ano e em 1999, Andrea partiu em turnê (excursão) pela América do Norte e América do Sul e fez duetos com Céline Dion, além de apresentar-se na primeira ópera totalmente transmitida ao vivo pela Internet da "Detroit Opera House" ("Ópera de Detroit"), com Denyce Graves
Em 2002, Andrea repetiu a turnê (excursão) pela América, ganhando dois "World Music Awards". Desde então, Andrea continuou a carreira com aparições em concertos no mundo inteiro, cantando inclusive durante o All-Star Weekend da NBA de 2006 em Houston, Texas. Cantou "Because We Believe" ("Porque Nós Acreditamos"), do seu álbum Amore (lançado em 2006), na cerimónia de encerramento das Jogos Olímpicos de Inverno de 2006 em Turim, Itália
Em 2006, Bocelli trabalhou com os seis finalistas do programa de televisão American Idol, ajudando-os a cantar as canções escolhidas segundo o tema da semana: "classic love songs" (músicas românticas clássicas).
Bocelli cantou em muitos eventos de caridade e em várias outras ocasiões no mundo inteiro, como no local dos destroços do World Trade Center, em Outubro de 2001, eventos "Pavarotti & Friends" ("Pavarotti & Seus Amigos"), concertos para a fundação de pesquisa ARPA (da qual ele é presidente honorário) em Pisa, Itália, participou no projeto de CD feito por Sharon Osbourne para o fundo de ajuda para as vítimas do Tsunami de 2004 e apresentou-se num grande concerto transmitido pela televisão na Itália em Março de 2005, chamado "Music for Asia" ("Música para a Ásia"). Andrea também gravou com a cantora brasileira Sandy (da dupla Sandy & Junior) quando ela ainda era menina, a música "Vivo Por Ella" (versão em espanhol de "Vivo per Lei"), no ano de 1999. 
Não se limitando só a cantar, Andrea contribuiu para vários trabalhos escritos, incluindo pequeno texto sobre amizade em compilação feita por Doris S. Platt e o prefácio e um "capítulo-entrevista" para um livro italiano sobre guarda conjunta. Ele também escreveu uma autobiografia, La musica del silenzio (A música do silêncio), que foi publicada em 1999. A tradução inglesa do livro foi lançada no ano seguinte, com o nome Andrea Bocelli: The Autobiography (Andrea Bocelli: A Autobiografia).


segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

"Aniversário" - Poema de Álvaro de Campos


Thomas Pollock Anshutz,The Farmer and His Son at Harvesting, 1879.



Aniversário


No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino.
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa.
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


15-10-1929

Álvaro de Campos, in "Poemas" 
(Heterónimo de Fernando Pessoa) 


domingo, 22 de janeiro de 2012

"Barca Bela" - Poema de Almeida Garrett


Hans Dahl, Crossing the Ford



Barca Bela 


Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela,
Que é tão bela,
Ó pescador?

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Ó pescador!

Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Ó pescador!

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Ó pescador.

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela,
Foge dela,
Ó pescador!


in Folhas Caídas 
(Ed. Porto Editora)



Hans Dahl, Sunset at the Sognefjord, 1887


"...a pele é tudo quanto queremos que os outros vejam de nós, por baixo dela nem nós próprios conseguimos saber quem somos."



"A Bela Infanta" - Poema de Almeida Garrett



Franz Xaver Winterhalter
, ca.1865, Madame Barbe de Rimsky-Korsakov, 1864
óleo sobre tela, 117 × 90 cm, Musée d'Orsay, Paris .



A Bela Infanta


Estava a bela Infanta
No seu jardim assentada
Com o pente de oiro fino
Seus cabelos penteava.

Deitou os olhos ao mar
Viu uma nobre armada;
Capitão que nela vinha,
Muito bem que a governava.

- «Dize-me, ó capitão
Dessa tua nobre armada,
Se encontraste meu marido
Na terra que Deus pisava.
»

- «Anda tanto cavaleiro
Naquela terra sagrada...
Diz-me tu, ó senhora,
As senhas que ele levava


- «Levava cavalo branco,
Selim de prata doirada;
Na ponta da sua lança
A cruz de Cristo levava.
»

- «Pelos sinais que me deste
Lá o vi numa estacada
Morrer morte de valente:
Eu sua morte vingava.
»

- «Ai triste de mim viúva,
Ai triste de mim coitada!
De três filhinhas que tenho,
Sem nenhuma ser casada!...
»

- «Que darias tu, senhora,
A quem no trouxera aqui?
»

- «Dera-lhe oiro e prata fina,
Quanta riqueza há por aí.
»

- «Não quero oiro nem prata,
Não nos quero para mim:
Que darias mais, senhora,
A quem no trouxera aqui?
»

- «De três moinhos que tenho,
Todos três tos dera a ti;
Um mói o cravo e a canela,
Outro mói do gerzeli:
Rica farinha que fazem!
Tomara-os el-rei para si


- «Os teus moinhos não quero,
Não nos quero para mim:
Que darias mais, senhora,
A quem to trouxera aqui?
»

- «As telhas do meu telhado
Que são de oiro e marfim.
»

- «As telhas do teu telhado
Não nas quero para mim:
Que darias mais, senhora,
A quem no trouxera aqui?
»

- «De três filhas que tenho,
Todas três te dera a ti:
Uma para te calçar,
Outra para te vestir,
A mais formosa de todas
Para contigo dormir


- «As tuas filhas, infanta,
Não são damas para mim:
Dá-me outra coisa, senhora,
Se queres que o traga aqui


- «Não tenho mais que te dar,
Nem tu mais que me pedir.
»

- «Tudo, não, senhora minha,
Que inda não te deste a ti


- «Cavaleiro que tal pede,
Que tão vilão é de si,
Por meus vilões arrastado
O farei andar aí
Ao rabo do meu cavalo,
À volta do meu jardim.
Vassalos, os meus vassalos,
Acudi-me agora aqui!
»

- «Este anel de sete pedras
Que eu contigo reparti...
Que é dela a outra metade?
Pois a minha, vê-la aí!
»

- «Tantos anos que chorei,
Tantos sustos que tremi!...
Deus te perdoe, marido,
Que me ias matando aqui



Almeida Garrett, Romanceiro
  


Litografia de Almeida Garrett por Pedro Augusto Guglielm


João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett e mais tarde visconde de Almeida Garrett, (Porto, 4 de fevereiro de 1799 — Lisboa, 9 de dezembro de 1854) foi um escritor e dramaturgo romântico, orador, par do reino, ministro e secretário de estado honorário português.
Grande impulsionador do teatro em Portugal, uma das maiores figuras do romantismo português, foi ele quem propôs a edificação do Teatro Nacional de D. Maria II e a criação do Conservatório de Arte Dramática.
Passou a sua infância na Quinta do Sardão, em Oliveira do Douro (Vila Nova de Gaia), pertencente ao seu avô materno José Bento Leitão. Mais tarde viria a escrever a este propósito: "Nasci no Porto, mas criei-me em Gaia". No período de sua adolescência foi viver para os Açores, na Ilha Terceira, quando as tropas francesas de Napoleão Bonaparte invadiram Portugal e onde era instruído pelo tio, D. Alexandre, bispo de Angra.
De seguida, em 1816 foi para Coimbra, onde acabou por se matricular no curso de Direito. Em 1821 publicou O Retrato de Vénus, trabalho que fez com que lhe pusessem um processo por ser considerado materialista, ateu e imoral. É também neste ano que ele e sua família passam a usar o apelido de Almeida Garrett...



Pensamento



"Pouco importa o julgamento dos outros. Os seres são tão contraditórios que é impossível atender às suas demandas, satisfazê-los. Tenha em mente simplesmente ser autêntico e verdadeiro..."


(Dalai Lama)




Franz Xaver Winterhalter, A imperatriz Eugênia rodeada de suas damas de honra, 1855,
Château de Compiègne



Franz Xaver Winterhalter, ca.1865


Franz Xaver Winterhalter, (20 de abril de 1805 - 08 de julho de 1873) foi um pintor e litógrafo alemão, conhecido por seus retratos da realeza em meados do século XIX. 
Entre as suas obras mais conhecidas são  A Imperatriz Eugénia rodeada de suas damas de honra, 1855, (The Empress Eugénie Surrounded by her Ladies in Waiting,  1855) e os retratos que fez da Imperatriz Elisabeth da Áustria (1865).
Apesar de se encaixar na grande corrente neoclássica-romântica de meados do século XIX, sua obra não tem muitos paralelos entre os outros pintores do período, e, por vezes, ele é chamado de um neo-rococó.
Após sua morte, sua pintura caiu em desuso sendo considerado romântico, brilhante e superficial.  Pouco se sabia sobre ele pessoalmente e sua arte não era levada a sério. 
No entanto, recentemente, recebeu uma apreciação bastante favorável que o trouxe para a ribalta novamente, especialmente depois da realização de uma grande exposição de seu trabalho  na National Portrait Gallery de Londres e no Petit Palais de Paris, em 1987. Hoje suas pinturas figuram nos maiores museus da Europa e dos Estados Unidos.

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