segunda-feira, 30 de junho de 2014

"Stabat Mater" - Poema de José Bento


 Maria Oakey Dewing, A Bed of Poppies, 1909



Stabat Mater


Estava a mãe de pé, já sem o filho
que fora a razão de ter aceite
um quotidiano rasteiro e o prodígio:
entre ambos, não ousava distingui-los.

Traspassara-se quando o viu deixar a casa
para se completar longe das mãos
que o receberam e fizeram crescer,
- nela sempre menino, e tão inerme
que de si nunca o desprenderia.

Soubera que ele fora domado, escarnecido,
mais bem pago para ser mais proveitoso,
soldado em guerras de outros
em que sempre foi um derrotado;
traído por mulheres de uma beleza
não somente fascínio e um ardil,
mas perdão para quem por elas se jogasse.
Mais que ninguém, ela sofrera-o sem dizê-lo.

Devolveram-lho por fim, já só em parte,
para uni-lo na cama onde nascera.

Tudo nela ruiu, os seus escombros
são o mais intenso túmulo,
sem ter onde vá sorver a força
para sumir-se no apagamento
de si mesma e de tudo,
até da manhã que a saudou a anunciar-lhe
o fruto que sua flor tinha alcançado.

E pede que nenhuma luz venha acordá-la.


José Bento
, in 'Alguns Motetos'



 
José Bento

Poeta e tradutor português, mas também professor do ensino técnico e autor de várias obras especializadas na área da contabilidade, comércio e fiscalidade, José Bento de Almeida e Silva nasceu a 17 de novembro de 1932, em Pardilhó, no concelho de Estarreja. Colaborou, desde muito jovem, com poesia e crítica literária em revistas como Sísifo, Árvore, Cassiopeia, Cadernos do Meio-Dia, Eros, entre outras. Entre 1963 e 1969 pertenceu à redação da revista O Tempo e o Modo.
Tradutor de mérito reconhecido da poesia espanhola clássica e contemporânea, traduziu, entre muitos outros autores, Miguel de Cervantes, Calderón de la Barca, Ortega y Gasset, Jorge Luis Borges, Luis Cernuda, Ángel Crespo, Pablo Neruda, Federico Garcia Lorca, Unamuno, Octavio Paz, Garcilaso de la Vega; os místicos S. João da Cruz e Santa Teresa de Ávila; sendo ainda autor de coletâneas de poesia espanhola como a Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea.
Até à publicação de Silabário, a sua poesia encontrava-se, com exceção de três títulos, dispersa por periódicos, o que não significa que o seu nome fosse desconhecido do meio literário português, pelo contrário, além de a sua colaboração figurar nas revistas que tiveram uma ação cultural relevante nos anos 50, é autor de textos de crítica poética, inseridos em prefácios ou artigos, que atestam um conhecimento aprofundado da poesia contemporânea portuguesa.
O sujeito poético que exprime um pessimismo existencial que o conduz a "proclamar o estado de absoluta privação do homem ou a irremediável mudança que o tempo nele opera, tornando-o irreconhecível a seus próprios olhos, ou ainda a sua inescapável condição caída, acaba por encontrar nas palavras (...) a única paz, a única existência" (p. 290). Ponderada, decantada, em diálogo subtil com textos e autores, da sua poesia pode-se, parodiando a introdução do autor às Poesias Completas de S. João da Cruz, dizer que raras vezes, como nos seus poemas, "a crítica sentirá as suas limitações e a fragilidade de alguns dos seus juízos críticos: esgotadas as minuciosas e indispensáveis pesquisas textuais, detetadas as fontes, explicitado o pensamento subjacente a estes poemas, o crítico fica frente a frente com eles na sua nudez total, o que acontece então não pode senão ser um ato de amor, pois tudo o mais sobra, é inútil." (p. 13)
Ao longo de toda a sua carreira literária, tem sido alvo de várias homenagens como aconteceu, por exemplo, em 1991, quando foi condecorado, pelo Rei Juan Carlos de Espanha, com a medalha de ouro de Belas-Artes; em 1992, quando foi distinguido com a Ordem do Infante D. Henrique pelo então presidente da República Mário Soares; ainda nesse ano, com os prémios Pen Clube Português e D. Dinis da Fundação Casa de Mateus, pelo trabalho Silabário; em 2005, com a atribuição do Grande Prémio de Tradução do Pen Clube Português; e, em 2006, com o 1.º Prémio Luso-Espanhol de Arte e Cultura.

  José Bento. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-06-30].


Galeria de Maria Oakey Dewing
Woman in Black: Portrait of Maria Oakey Dewing, 
by Thomas Wilmer Dewing, oil on panel, 1887. 


Maria Oakey Dewing (October 27, 1845 – December 13, 1927) was an American painter known for her depiction of flowers. Her work was inspired by John La Farge and her love of gardening. She also made figure drawings and was a founding member of the Art Students League of New York. Dewing won bronze medals for two of her works at world expositions. She was married to artist Thomas Wilmer Dewing.

Maria Oakey Dewing, Girl with Violets, 1877


Maria Oakey Dewing, Carnations, 1901


Maria Oakey Dewing, Garden in May, 1895


Maria Oakey Dewing, Iris at Dawn, 1899


domingo, 29 de junho de 2014

"A Ideia da Natureza"... de Auguste Comte



 
A Ideia da Natureza 
 

"A ideia da Natureza é a ideia de um poder e de uma arte divinos inexprimíveis, sem comparação ou medida com o poder e a indústria do homem, que imprime nas suas obras um caráter próprio de majestade e graça, que opera todavia sob o domínio de condições necessárias, que tende fatal e inexoravelmente a um fim que nos ultrapassa, de maneira contudo que essa cadeia de finalidade misteriosa, da qual não podemos demonstrar cientificamente nem a origem, nem o termo, aparece a nós como um fio condutor com a ajuda do qual a ordem é introduzida nos factos observados e que nos coloca no rastro dos factos a pesquisar. A ideia da natureza, esclarecida assim tanto quanto pode ser, não passa da concentração de todos os clarões que a observação e a razão nos fornecem sobre o conjunto dos fenómenos da vida, sobre o sistema dos seres vivos."
 

Auguste Comte, in 'Tratado do Encadeamento das Ideias Fundamentais nas Ciências e na História'
 
 
 
Monument à Auguste Comte, situé place de la Sorbonne à Paris et inauguré en 1902.
 Sculpture de Jean-Antoine Injalbert

(Au centre, le buste du philosophe; à gauche, Clotilde de Vaux en "madone à l'enfant"; à droite, le prolétaire en train de s'instruire. Dans la Religion de l'Humanité, imaginée par Auguste Comte entre 1845 et 1848, Clotilde de Vaux a été transformée en symbole, selon les modèles du Catholicisme romain. Les sacrements de la Religion de l'Humanité sont : la Présentation, l'Initiation, l'Admission, la Destination, la Maturité, la Retraite, l'Incorporation.)

 
Isidore Auguste Marie François Xavier Comte, filósofo francês, nasceu em 1798, em Montpellier, em França, e morreu em 1857, em  Paris. Foi o fundador da Sociologia e do Positivismo. Inventou a designação "Sociologia", declarando-a a ciência suprema (até aí chamava-se "Física Social"). Comte demonstrou que o pensamento humano e o desenvolvimento social se desenvolvem ao longo de três estádios: o teológico, o metafísico e o positivo, ou científico. Embora inicialmente tenha procurado proclamar a evolução da sociedade até uma nova idade de ouro da ciência, da indústria e da moralidade racional, as suas ideias radicais foram temperadas pelas perturbações sociais e políticas do seu tempo. No entanto, o seu pensamento continuou a exercer uma forte influência na Europa e nos Estados Unidos da América até ao início do século XX. 
 
 Auguste Comte. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-06-29].


Documentário - A Natureza em Portugal


sábado, 28 de junho de 2014

"Lusitânia Querida" - Poema de Marquesa de Alorna


Marinha, uma praia costeira típica da região do Algarve, Portugal



Lusitânia Querida

Lusitânia querida! Se não choro
Vendo assim lacerado o teu terreno,
Não é de ingrata filha o dó pequeno;
Rebeldes julgo os ais, se te deploro.

Admiro de teus danos o decoro.
Bebeu Sócrates firme seu veneno;
E em qualquer parte do perigo o aceno
Encontra e cresce o teu valor, que adoro.

Mais que a vitória vale um sofrer belo;
E assaz te vingas de opressões fatais,
Se arrasada te vês, sem percebê-lo.

Povos! a independência que abraçais
Aplaude, alegre, o estrago, e grita ao vê-lo:
"Ruína sim, mas servidão jamais!" 


Marquesa de Alorna,
 in 'Antologia Poética'



Retrado da Marquesa de Alorna, 1780 por Franz Joseph Pitschmann


Poetisa, tradutora e pedagoga portuguesa, nascida em 1750 e falecida em 1839, D. Leonor de Almeida Portugal Lorena e Lencastre, mais conhecida por Marquesa de Alorna, foi uma figura de rara erudição, autora de uma obra epistolar ainda por descobrir e grande divulgadora das novas ideias vindas da Europa. Neta da marquesa de Távora, foi encerrada, ainda menina, no convento de Chelas, pelo facto de o seu pai ter sido preso, acusado de participar no atentado ao rei D. José I. Aí passou a sua juventude (1758-1777), saindo apenas após a morte do Marquês de Pombal. No recinto eclesiástico, onde viveu desde os 8 anos, ocupava o tempo com música, poesia e com os amigos e pretendentes literatos que alimentavam a sua formação arcádica. Entre estes homens iluminados destaca-se o Padre Francisco Manuel do Nascimento, mais conhecido pelo seu pseudónimo Filinto Elísio, que lhe deu lições e a batizou com o nome arcádico de Alcipe, alimentando as suas precoces tendências filosóficas, tolerantistas, cientistas e progressistas. 


Carlos Pedro Maria José Augusto, Conde de Oyenhausen-Groewenbourg
casado com a Marquesa de Alorna


Em 1779, casou com um oficial alemão naturalizado português, o conde de Oeynhausen, e viajou por Viena - onde ele foi nosso ministro -, Berlim e Londres. Nessas estadias desenvolveu o gosto pela poesia sentimentalista ou descritiva, traduzindo ou imitando Delille, Wieland, Bürger Goethe, Young, o pseudo-Ossian Gray e Thomson. Falecido o irmão primogénito, herdou o título de Marquesa de Alorna, por que se tornou mais conhecida. Em Paris, D. Leonor frequentou o salão de Madame Necker e conheceu, em 1780, Madame de Staël, com quem depois, no seu exílio londrino, se relacionou mais intimamente. No entanto, o francesismo da marquesa de Alorna é mais de divulgação de autores pré-românticos ou já românticos, franceses ou conhecidos através da França, do que de funda consciência cultural. Enviuvou em 1793, ficando com seis filhos para educar. A fundação, por parte da marquesa, da Sociedade da Rosa, concebida para frustrar a ameaça napoleónica, levou à desconfiança de Pina Manique e ao consequente exílio em Londres numa quase miséria.


Autorretrato da Marquesa de Alorna


De regresso a Portugal, fez dos seus salões de S. Domingos de Benfica focos das novas ideias estéticas, pela frequência de literatos de diversas gerações, desde os últimos árcades até aos primeiros românticos como Alexandre Herculano. A sua extensa obra denuncia tendências diversas como o arcadismo, presente nas suas traduções de autores greco-latinos, que vão a par de outras traduções de autores modernos; a poesia cientista (Recreações Botânicas) e o sentimentalismo e melancolia expressos em algumas composições. Percorreu os mais variados subgéneros e estruturas formais (epístolas, odes, sonetos, éclogas, elegias, canções, apólogos, epigramas, cantigas), colorindo-os ora de laivos de filosofismo, ora de sentimentalismo pré-romântico. Denunciam esta última tendência a forma como concebe a poesia, desabafo de mágoas: A lira move mais lavada em pranto (Poesias, ed. Sá da Costa, 1941, p. 28); o fatalismo que impregna a sua visão das coisas: O Fado contra mim tudo provoca (p. 114); o gosto da solidão melancólica; a tendência para o devaneio; a obsessão do noturno e do fúnebre e a projeção do estado de alma no mundo circundante. Também no estilo, apesar da mitologia e dos epítetos clássicos, revela um coração nitidamente romântico pelas exclamações e adjetivação violenta.


Marquesa de Alorna. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-06-28].




Portugal



domingo, 22 de junho de 2014

"Quem não Dava a Vida por um Amor?"... de Miguel Esteves Cardoso


William Arthur Breakspeare (British, 1855 - 1914), The End of the Evening
Oil on canvas, Private collection



Quem não Dava a Vida por um Amor? 



"O essencial é amar os outros. Pelo amor a uma só pessoa pode amar-se toda a humanidade. Vive-se bem sem trabalhar, sem dormir, sem comer. Passa-se bem sem amigos, sem transportes, sem cafés. É horrível, mas uma pessoa vai andando. 
Apresentam-se e arranjam-se sempre alternativas. É fácil. 
Mas sem amor e sem amar, o homem deixa-se desproteger e a vida acaba por matar. 
Philip Larkin era um poeta pessimista. Disse que a única coisa que ia sobreviver a nós era o amor. O amor. Vive-se sem paixão, sem correspondência, sem resposta. Passa-se sem uma amante, sem uma casa, sem uma cama. É verdade, sim senhores. 
Sem um amor não vive ninguém. Pode ser um amor sem razão, sem morada, sem nome sequer. Mas tem de ser um amor. Não tem de ser lindo, impossível, inaugural. Apenas tem de ser verdadeiro. 
O amor é um abandono porque abdicamos, de quem vamos atrás. Saímos com ele. Atiramo-nos. Retraímo-nos. Mas não há nada a fazer: deixamo-lo ir. Mais tarde ou mais cedo, passamos para lá do dia a dia, para longe de onde estávamos. Para consolar, mandar vir, tentar perceber, voltar atrás. 
O amor é que fica quando o coração está cansado. Quando o pensamento está exausto e os sentidos se deixam adormecer, o amor acorda para se apanhar. O amor é uma coisa que vai contra nós. É uma armadilha. No meio do sono, acorda. No meio do trabalho, lembra-se de se espreguiçar. O amor é uma das nossas almas. É a nossa ligação aos outros. Não se pode exterminar. Quem não dava a vida por um amor? Quem não tem um amor inseguro e incerto, lindo de morrer: de quem queira, até ao fim da vida, cuidar e fugir, fugir e cuidar? 

Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'



William Arthur BreakspeareThe Reluctant Pianist



"Quem ouve música, sente a sua solidão de repente povoada."




William Arthur BreakspeareA Musical Interlude



"A música é celeste, de natureza divina e de tal beleza que encanta a alma e a eleva acima da sua condição." 




William Arthur Breakspeare, If Music be the Food of Love



"Quão pouco é preciso para ser feliz! O som de uma gaita. 
Sem música a vida seria um erro." 






Tchaikovsky

"Ser é Escolher-se" - de Jean Paul Sartre





Ser é Escolher-se 


"Para a realidade humana, ser é escolher-se: nada lhe vem de fora, nem tão pouco de dentro, que possa receber ou aceitar. Está inteiramente abandonada, sem auxílio de nenhuma espécie, à insustentável necessidade de se fazer ser até ao mais ínfimo pormenor. Assim, a liberdade não é um ser: é o ser do homem, quer dizer, o seu nada de ser. (...) O homem não pode ser ora livre, ora escravo; ele é inteiramente e sempre livre, ou não é."


Jean-Paul Sartre, in 'O Ser e o Nada'



Jean-Paul Sartre 


Escritor e filósofo francês, Jean-Paul Charles Aymard Sartre nasceu a 21 de junho de 1905, na cidade de Paris. Filho de um oficial da marinha que morreu quando Sartre era ainda criança, mudou-se com a mãe, sobrinha-neta do famoso médico e escritor Albert Schweitzer, para junto do avô.
A família partiu para La Rochelle em 1917, por ocasião do casamento da mãe em segundas núpcias. Após ter frequentado o Lycée Louis-le-Grand, licenciou-se pela Ècole Normale Supérieure em 1929, onde conheceu Simone de Beauvoir, que se viria a tornar na sua companheira. A partir de 1931 trabalhou como professor, tendo a possibilidade de viajar pelo Egito, Grécia, Itália e Alemanha, onde estudou a filosofia de Edmund Husserl Martin Heidegger.
Em 1938 publicou o seu primeiro romance, La Nausée (A Náusea), em que exprimia de forma pessimista a sua constatação do absurdo da vida, e o consequente ateísmo. No ano seguinte, e com a deflagração da Segunda Guerra Mundial foi engajado para o serviço militar em 1939, mas foi capturado pelos alemães ao fim de um ano e libertado em 1941. Juntou-se então à Resistência, e contribuiu para publicações periódicas como Les Lettres Françaises e Combat. Em 1943 publicou a sua primeira peça de teatro, Les Mouches (As Moscas), escrita em moldes da tragédia grega e recorrendo à temática da sua mitologia, e em que procura afirmar a doutrina do existencialismo, de que a responsabilidade dos atos do indivíduo recai sempre sobre si mesmo, e constitui o melhor exercício da liberdade.
Com o armistício fundou uma revista, a Les Temps Modernes, de teor literário e político. Decidiu então dedicar-se inteiramente à escrita e às atividades políticas marxistas. Em 1946 apareceu o seu estudo, L'Existencialisme Est Un Humanisme, uma espécie de manifesto da filosofia existencialista, e La Putain Respectueuse. Les Mains Sâles (As Mãos Sujas) foi publicado em 1948.
Visitou a União Soviética após a morte de Estaline, ocorrida em 1953, mas a azáfama política esgotou-o ao ponto de ter de ser internado durante dez dias num hospital. Defendeu a causa da liberdade do povo húngaro em 1956 e da do checo em 1968.
Foi galardoado com o Prémio Nobel de Literatura em 1964, mas recusou a honra como forma de protesto contra os valores da sociedade burguesa. Uma organização terrorista contra a independência da Argélia colocou duas bombas no seu apartamento, uma em 1962 e outra no ano seguinte.
Foi presidente do tribunal criado por Bertrand Russell para julgar a conduta militar norte-americana na Indochina em 1967. Apoiou vivamente os acontecimentos do 'maio de 68'. Em 1970 foi detido pela polícia por vender propaganda maoista, na época proibida em França.
Um surto de glaucoma foi prejudicando gradualmente a sua visão, a partir de 1975, até o ter cegado quase completamente no fim da sua vida, que ocorreu a 15 de abril de 1980 em Paris, devido a problemas pulmonares.

Jean-Paul Sartre. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-06-22].



Achrioptera fallax


Bicho-pau-azul (Achrioptera fallax) nativo de Madagáscar. Os machos chegam a medir 13 cm, têm uma cor profunda azul, com espinhos da cor laranja e são braquípteros (possuem asas vestigiais que não servem para voar), enquanto as fêmeas são maiores, medindo cerca de 18 cm e são acastanhadas. Alimentam-se de folhas de algumas árvores, como eucalipto e carvalho.



Achrioptera fallax



"Nasci para satisfazer a grande necessidade que eu tinha de mim mesmo."

(Jean-Paul Sartre)



"A Eterna Ausência" - Poema de António Salvado


William Henry Margetson (British artist, 1861-1940), The Seashore, 1900



A Eterna Ausência


Eu aguardei com lágrimas e o vento 
suavizando o meu instinto aberto 
no fumo do cigarro ou na alegria das aves 
o surgimento anónimo 
no grande cais da vida 
desse navio noturno 
que me trazia aquela com lábios evidentes 
e possuindo um perfil indubitável, 
mulher com dedos religiosos 
e braços espirituais... 

Aquela mulher-pirâmide 
com chamas pelo corpo 
e gritos silenciosos nas pupilas. 

Amante que não veio como a noite prometera 
numa suspensa nuvem acordar 
meu coração de carne e alguma cinza... 

Amante que ficou não sei aonde 
a castigar meus dias involúveis 
ou a afogar meu sexo na caveira 
deste carnal desespero!... 


António Salvado, 
in "A Flor e a Noite"


António Forte Salvado (Castelo Branco, 20 de Fevereiro de 1936) é um poeta e escritor português. Além de ser autor de uma extensa obra poética, é também autor de ensaios e antologias, tendo sido a sua obra reconhecida várias vezes com prémios nacionais e internacionais.



Galeria de William Henry Margetson
William Henry Margetson, A summer evening, c. 1910



William Henry Margetson, The virgin at the loom, 1895



William Henry Margetson, A Stitch in Time, 1915 



William Henry Margetson, At The Cottage Door



William Henry Margetson, A New Day, 1930 



William Henry Margetson, Girl by a Lock



William Henry Margetson, The Amulet



William Henry Margetson, Woman on Terrace



William Henry Margetson, Two Young Women Seated



"A amizade é o conforto indescritível de nos sentirmos seguros com uma pessoa, sem ser preciso pesar o que se pensa, nem medir o que se diz." 


(George Eliot)



George Eliot


George Eliot, pseudónimo de Mary Ann Evans (Nuneaton, Warwickshire, 22 de novembro de 1819ChelseaLondres, 22 de dezembro de 1880), foi uma novelista autodidata britânica.
Usava um nom de plume masculino para que seus trabalhos fossem levados a sério. À época, outras autoras publicavam trabalhos sob seus verdadeiros nomes, mas Eliot queria escapar de estereótipos que ditavam que mulheres só escreviam romances leves. Outro fator que pode ter levado Eliot a usar um pseudónimo masculino era o desejo de preservar sua vida íntima, sobretudo seu relacionamento com George Henry Lewes, um homem casado, com quem viveu por mais de vinte anos.
Seu primeiro trabalho literário, de 1844, foi a tradução da Vida de Jesus de David Strauss. O tema principal dos seus romances, como em Silas Marner, é a vida das pessoas simples, que retrata, com uma sensibilidade reconhecida por várias gerações de leitores, os conflitos do ser humano tais quais a angústia, o desespero e a busca da razão da vida.
Desenvolveu o método da análise psicológico característico da ficção moderna. Sua obra Middlemarch (1872) é considerada um dos maiores romances do século XIX. Segundo Virginia Woolf, em um artigo em tributo à escritora, este é "um dos poucos romances ingleses escritos para gente grande .


quinta-feira, 19 de junho de 2014

"Menina e Moça" - Poema de Machado de Assis


Gustave Jean Jacquet (pintor francês 1846-1909), Mademoiselle



Menina e Moça


Está naquela idade inquieta e duvidosa,
Que não é dia claro e é já o alvorecer;
Entreaberto botão, entrefechada rosa,
Um pouco de menina e um pouco de mulher.

Às vezes recatada, outras estouvadinha,
Casa no mesmo gesto a loucura e o pudor;
Tem coisas de criança e modos de mocinha,
Estuda o catecismo e lê versos de amor.

Outras vezes valsando, o  seio lhe palpita,
De cansaço talvez, talvez de comoção.
Quando a boca vermelha os lábios abre e agita,
Não sei se pede um beijo ou faz uma oração.

Outras vezes beijando a boneca enfeitada,
Olha furtivamente o primo que sorri;
E se corre parece, à brisa enamorada,
Abrir asas de um anjo e tranças de uma huri.

Quando a sala atravessa, é raro que não lance
Os olhos para o espelho; e raro que ao deitar
Não leia, um quarto de hora, as folhas de um romance
Em que a dama conjugue o eterno verbo amar.

Tem na alcova em que dorme, e descansa de dia,
A cama da boneca ao pé do toucador;
Quando sonha, repete, em santa companhia,
Os livros do colégio e o nome de um doutor.

Alegra-se em ouvindo os compassos da orquestra;
E quando entra num baile, é já dama do tom;
Compensa-lhe a modista os enfados da mestra;
Tem respeito a Geslin, mas adora a Dazon.

Dos cuidados da vida o mais tristonho e acerbo
Para ela é o estudo, excetuando talvez
A lição de sintaxe em que combina o verbo
To love, mas sorrindo ao professor de inglês.

Quantas vezes, porém, fitando o olhar no espaço,
Parece acompanhar uma etérea visão;
Quantas cruzando ao seio o delicado braço
Comprime as pulsações do inquieto coração!

Ah! se nesse momento alucinado, fores
Cair-lhes aos pés, confiar-lhe uma esperança vã,
Hás de vê-la zombar dos teus tristes amores,
Rir da tua aventura e contá-la à mamã.

É que esta criatura, adorável, divina,
Nem se pode explicar, nem se pode entender:
Procura-se a mulher e encontra-se a menina,
Quer-se ver a menina e encontra-se a mulher!


Machado de Assis
, in 'Falenas'



Pintura de Gustave Jean Jacquet



Chorar e Rir


"E enquanto uma chora, outra ri; é a lei do mundo, meu rico senhor; é a perfeição universal. Tudo chorando seria monótono, tudo rindo, cansativo; mas uma boa distribuição de lágrimas e polcas, soluços e sarabandas, acaba por trazer à alma do mundo a variedade necessária, e faz-se o equilíbrio da vida."


Machado de Assis, in "Quincas Borba"



Pintura de Gustave Jean Jacquet


"A vida é uma enorme lotaria; os prémios são poucos, os malogrados inúmeros, e com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças de outra."


segunda-feira, 16 de junho de 2014

"Como é Belo Seu Rosto Matutino"... de Alberto de Lacerda





Como é Belo Seu Rosto Matutino 



Como é belo seu rosto matutino 
Sua plácida sombra quando anda 

Lembra florestas e lembra o mar 
O mar o sol a pique sobre o mar 

Não tive amigo assim na minha infância 
Não é isso que busco quando o vejo 
Alheio como a brisa 
Não busco nada 
Sei apenas que passa quando passa 
Seu rosto matutino 
Um som de queda de água 
Uma promessa inumana 
Uma ilha uma ilha 
Que só vento habita 
E os pássaros azuis 


Alberto de Lacerda, in 'Exílio'






Nós 


Falei 

Cantei 
Cantei demais 

Arrisquei quebrar 
O arco-íris 

Mas até em estilhaço 
Continuaria 
O encantamento 



Alberto de Lacerda, in 'Átrio'



Alberto Lacerda


Alberto de Lacerda foi um poeta e jornalista moçambicano nascido a 20 de setembro de 1928, em Lourenço Marques (atual Maputo), e falecido a 26 de agosto de 2007, em Londres. Viveu em África até 1946 e veio para Portugal com 18 anos. Depois de viver em Lisboa durante cinco anos, partiu para Londres em 1951, dividindo a sua residência entre Inglaterra e os Estados Unidos. Foi em Londres que escreveu grande parte da sua obra e foi editor literário. A sua primeira obra, Itinerário, data de 1941 e foi publicada em Lourenço Marques, atualmente Maputo. 
Colaborou em várias publicações periódicas, como Cadernos de Poesia, Cadernos do Meio-Dia, Unicórnio ou Colóquio Letras. Secretário de redação da revista Távola Redonda (1950-54), nascida do convívio de Alberto Lacerda com um grupo de jovens poetas, entre os quais António Manuel Couto Viana, David Mourão-Ferreira, Luís de Macedo, e que, desde o final do ano de 1949, unidos pela comunhão de ideais estéticos, apostaram numa poesia orientada para a "revalorização do lirismo", exigindo ao poeta "autenticidade e um mínimo de consciência técnica, a criação em liberdade e, também, a diligência e capacidade de admirar, criticamente, os grandes poetas portugueses de gerações anteriores a 1950. Sem reservas ideológicas ou preconceitos de ordem estética" (VIANA, António Manuel Couto - "Breve Historial" in As Folhas Poesia Távola Redonda, Boletim Cultural da F. C. G., VI série, n.o 11, outubro de 1988), abandonou a publicação a partir do oitavo fascículo, manifestando a sua dissensão com a direção da revista. Em 1951, faz a sua estreia em volume, publicando Poemas, na segunda série dos Cadernos de Poesia, uma série de composições que viriam a integrar o conjunto mais amplo de 77 Poemas, editados já em Londres e em edição bilingue. 
Na sua poesia o valor simbólico dos quatro elementos - ar, água, fogo e terra - adquirem uma outra dimensão; no dizer do próprio autor "A água/ Meu primeiro elemento/ O Fogo/ Mais tarde/ A luz/ A luz é agora/ Meu elemento lento/ Para sempre". Para além disso, a sua poesia evoca regularmente os locais que Lacerda visitou e amou, como Veneza, Austin, Chelsea ou Rio de Janeiro.
A poesia de Alberto de Lacerda inscrita nos anos 50 releva, segundo Fernando J. B. Martinho, "uma poética da intensidade e da densidade colocada ao serviço de uma "experiência do sublime" que frequentemente tematiza a trágica ambivalência, humana e divina, da condição humana. Vindo a fundar em Londres, em 1973, uma revista internacional de poesia, Alberto de Lacerda foi, além de poeta, autor de notas preliminares à obra de outros poetas, tendo, por exemplo, prefaciado os Poemas Escolhidos de Rui Cinatti, em 1951. Com a publicação de Oferenda 1 e 2, encetou a edição da sua obra poética completa. 

Alberto de Lacerda. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-06-16].






If 


A minha intenção 
Se a tivesse 
Era interromper de vez em quando as vossas falas 
E fazer-vos voltar a cabeça silenciosos 
Na única direcção em que os versos existem 


Alberto de Lacerda, in 'Palácio'


domingo, 15 de junho de 2014

"Adeus" - Poema de Judith Teixeira


Adeus


Sim, vou partir.
E não levo saudade
de ninguém…
Nem em ti penso agora!…
Julgavas que a tristeza desta hora
fosse maior que a firme vontade
que eu pus em destruir
o luminoso fio de ternura
que me prendia ao teu olhar?…
Julgaste mal:
Eu sei amar,
mas meu amor,
o que eu não sei
é ser banal!

Mas por que vim eu escrever-te ainda?
Nem eu sei!
Talvez somente
o hábito cortês da despedida
– e o hábito faz lei!

Choro?!… Oh! sim, perdidamente!
Mas sabes tu, porque este pranto
assim amargo, e soluçado vem?
É que na hora da partida
eu nunca pude sem chorar,
dizer adeus a ninguém!


Judith Teixeira, Janeiro, 1926
in 'Antologia Poética'



Judith Teixeira 


Judite dos Reis Ramos Teixeira ou Judith Teixeira (Viseu, 25 de Janeiro de 1880 - Lisboa, 17 de Maio de 1959) foi uma escritora portuguesa. Publicou três livros de poesia e um livro de contos, entre outros escritos.
Começou a escrever na adolescência "versos ingénuos, que guardava", (segundo palavras suas) e apareceu no "Jornal da Tarde" com composições em prosa que assinava com pseudónimo. Do seu nome verdadeiro, só haveria notícia em 1922, quando escreveu a maior parte dos poemas que haveriam de ser incluídos nos seu livros "Decadência" e "Castelo de Sombras", publicando também poemas na revista "Contemporânea". O livro "Decadência" saiu em Fevereiro de 1923Aquilino Ribeiro considerou-a  uma "poetisa de valor".
Em Março do mesmo ano, o Governo Civil de Lisboa apreendeu este livro de Judith, assim como as "Canções" de António Botto e "Sodoma Divinizada" de Raul Leal, depois da polémica instalada após a publicação destes livros, apelidados de "imorais", que levaram uns quantos estudantes católicos sedentos de mão pesada, a queixar-se contra a "literatura dissolvente" que "corroía a moral e os costumes". 
  

Três edições implicadas no contexto da "Literatura de Sodoma": liderada por Pedro Teotónio Pereira, a Liga de Acção dos Estudantes de Lisboa [movimento católico criado em 1923] consegue que o Governo Civil interdite os livros Decadência (1922/3) de Judith Teixeira, [a 2ª edição de] Canções (1922) de António Botto e Sodoma Divinizada (1923) de Raul Leal. Em Março de 1923 foram apreendidos e queimados muitos exemplares destes livros.


Os livros foram queimados e Judith Teixeira apelidada de "desavergonhada"Fernando Pessoa tomou posição em defesa dos amigos António Botto  e  Raul Leal. (Raul Leal vivia em Paris, mas António Botto e Judith Teixeira foram perseguidos. Botto foi demitido da função pública e acabou por fugir para o Brasil; doente, morreu na miséria em 1959.) 
Em Junho do mesmo ano (1923), Judith publicou "Castelo de Sombras", constituído por 24 poemas datados de sexta feira de paixão de 1921 a Abril de 1923. E em Dezembro do mesmo ano, resolveu editar novamente "Decadência"
Durante o ano de 1925, Judith escreveu a maior parte dos poemas que iria publicar no livro "Nua", em 1926. Entretanto, editou e dirigiu a revista "Europa". O livro "Nua" foi anunciado pelo poema "A cor dos sons", publicado na revista "Contemporânea", n.º11. Em Junho, já com o livro à venda, sairia no jornal "Revolução Nacional", (jornal de propaganda da ditadura onde se insultavam os directores de quase todos os outros jornais), um texto onde era referido o livro "Nua" de Judith, como "uma das vergonhas sexuais e literárias" e apelidados os seus poemas de "versalhadas ignóbeis"
Em 1926 Marcello Caetano escreveria ainda, no jornal "Ordem Nova" (de que era fundador e redator), que tinham aparecido nas livrarias uns livros obscenos, apelidando Judith de "desavergonhada", e onde se vangloriava pela cremação dos livros dela, de Leal e de Botto, a que chamava de “papelada imunda, que empestava a cidade”. 
Judith Teixeira, depois de enxovalhada publicamente, ridicularizada, apelidada de lésbica e caricaturada em revistas, defendeu-se e contra atacou na conferência "De Mim", cujo texto se apressou a editar. Sete meses depois, publicou "Satânia", enfrentando tudo e todos. Em 1928 publicou o "Poemeto das Sombras" na revista "Terras de Portugal". Depois desta data, Judith assinou raras colaborações. Totalmente esmagada, pela moral vigente, viu-se em 1927, sentenciada de "morte artística" pela mão de José Régio, que diria:"Todos os livros de Judith Teixeira não valem uma canção escolhida de António Botto"
Depois disto, sabe-se que terá saído do país e que se terá calado para sempre uma voz tão incisivamente dedicada à agitação. 
Judith morreu a 17 de Maio de 1959, aos 79 anos, residindo então em Lisboa,  em Campo de Ourique. Segundo o assento de óbito, morreu viúva, sem deixar filhos nem bens e sem fazer testamento.
Quinze anos mais tarde, em 1977, António Manuel Couto Viana ressuscitava o nome de Judith Teixeira, "a única mulher no modernismo português", ao dedicar-lhe uma memória no volume "Coração Arquivista" onde se interrogava porque teriam sido as poesias de Judith votadas ao silêncio e à ignorância das mesmas. 
Judith Teixeira é ainda hoje praticamente desconhecida e continua a não estar representada em qualquer antologia. Fala-se ainda hoje da polémica da "literatura de sodoma" de Botto, Leal e Pessoa, e omite-se aquela que viu igualmente um livro seu em labareda e que foi a mais perseguida e enxovalhada dos poetas modernistas. Uma excepção para a Editora "&etc", que, em 1996 resolveu editar os poemas de Judith Teixeira, (com pesquisa, organização e bibliografia elaborada por Maria Jorge e Luis Manuel Gaspar), com o objectivo de reparar a injustiça de tal silêncio a que esta poetisa vanguardista dos anos 20 foi votada todos estes anos.

Obras:
  • Decadência. Poemas (1923)
  • Castelo de Sombras. Poemas (1923)
  • Nua. Poemas de Bizâncio (1926)
  • De Mim. Conferência (1926)
  • Satânia. Novelas (1927)
Fontes:
Wikipédia
Blogue "Europa", dedicado a Judith Teixeira
Biografia de Judith Teixeira


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