segunda-feira, 22 de setembro de 2014

"Para os meus alunos"... Poema de Vítor Matos e Sá



"A walk on the beach" by Christian Schloe



Para os meus alunos


Após tantos anos a ver-vos chegar
e a deixar-vos partir
alheios ou inquietos quanto
ao parentesco das ideias e dos atos
o direito às perguntas e a fonte
das perguntas,
gostaria de chamar-vos, um a um,
pelo vosso nome,
saber se estive, perto ou longe,
em vossas dúvidas. É sempre
uma questão mútua de ser.
Uma presença e não
um resultado.

Mas nem sempre soubestes que crescíamos
entre ódios, fanatismos, cobardias,
com olhos vendados pelo conforto
e o medo, com ter-se ou não ter-se
vantagens, aplausos, soluções privadas.
E como foi possível ter razão
sem ter as circunstâncias.

Agora os vossos rostos passam, firmes,
entre visão e facto, entre o amor
e a chegada de todos ao amor.
Mas também morro mais depressa agora.

Por isso gostaria de chamar-vos, um a um,
pelo vosso nome. E agradecer-vos a herança
da alegria. E dizer uma vez mais que é sempre
uma questão mútua de ser. Uma presença
e não um resultado.

E os vossos rostos todos
hão de ajudar-me a envelhecer
sem angústia ou vergonha
e a estar convosco na verdade
e a buscá-la juntos e a cumpri-la.


Vítor Matos e Sá




Vítor Matos e Sá
 

Vítor Matos e Sá, nascido a 20 de dezembro de 1927, em Lourenço Marques (atual Maputo, Moçambique), e falecido em 1975, foi um poeta português. 
Licenciado e doutorado em Filosofia, foi docente na Universidade de Coimbra. Colaborou em Árvore, Cadernos do Meio-Dia, Távola Redonda e Eros. A sua produção integra um modelo de poesia nascida de uma preocupação especulativa e filosofante e moldada sobre a experiência existencial. 
Vítor Matos e Sá é o  pseudónimo de Vítor Raul da Costa Matos.

Vítor Matos e Sá. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-09-22].



Caetano Veloso - Livros 


Livros


Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.

Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura.

Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor tátil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou ­ o que é muito pior ­ por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:

Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas.



domingo, 21 de setembro de 2014

"Arte Poética"... Poema de Rosa Alice Branco



Portrait of Rosamund Hussey by James Jebusa Shannon, 
painted shortly after 1900.



Arte Poética


Gostaria de começar com uma pergunta
ou então com o simples facto
das rosas que daqui se vêem
entrarem no poema.
O que é então o poema?
um tecido de orifícios por onde entra o corpo
sentado à mesa e o modo
como as rosas me espreitam da janela?


Lá fora um jardineiro trabalha,
uma criança corre, uma gota de orvalho
acaba de evaporar-se e a humidade do ar
não entra no poema.


Amanhã estará murcha aquela rosa:
poderá escolher o epitáfio, a mão que a sepulte
e depois entrar num canteiro do poema,
enquanto um botão abre em verso livre
lá fora onde pulsa o rumor do dia.


O que são as rosas dentro e fora
do poema? Onde estou eu no verso em que 
a criança se atirou ao chão cansada de correr?
E são horas do almoço do jardineiro!
Como se fosse indiferente a gota de orvalho
ter ou não entrado no poema!


Rosa Alice Branco
Soletrar o Dia. Obra Poética
Vila Nova de Famalicão, Quasi Edições, 2002



Leonard Cohen - First We Take Manhattan

"O Pecado da Gula"... Poema de Rosa Alice Branco






O Pecado da Gula


Ontem à tarde saí. 
Queria passear as lembranças 
que um dia de chuva faz crescer em nós. 
Há dias que o vento rondava a casa 
cheio de segredos incompletos 
a roçar-me a orelha. E eu não resisto 
ao sabor do vento 
e a uma boa história para enganar o frio. 


É fácil perdermo-nos nas ruas. 
Nunca se regressa pelos mesmos caminhos 
mas todos parecem iguais 
com o cheiro da chuva a deixar o alcatrão 
e a subir na memória 
de outras ruas. 
Mas há só um caminho que trilhamos. O corpo 
é uma bússola fiel que segue pela estrada 
enquanto o pó se levanta 
muito para além dos nossos passos. 


Rosa Alice Branco, in 'Animal Volátil'





Rosa Alice Branco, mestre em Filosofia do Conhecimento pela Universidade Nova de Lisboa, com uma tese sobre a perceção visual em Berkeley, nasceu em 1950. Ensina psicologia da perceção na Escola Superior de Artes e Design. Participou no Grupo de Estudos de Semiótica e Poética do Porto, tendo sido um dos responsáveis pela revista Figuras e pertence à direção da revista Limiar. A sua poesia, refletindo sobre paradoxos filosóficos e linguísticos, ocupa um lugar único na poesia portuguesa contemporânea mais recente.

Rosa Alice Branco. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014.

Bibliografia: 

  • Animais da Terra, Limiar (1988)
  • O Desenvolvimento da Filosofia do Sugerir: a Percepção como Operação Interpretativa, tese de -mestrado (1990)
  • Monadologia Breve, Limiar (1991)
  • O Que falta ao Mundo para ser Quadro, Limiar (1993)
  • A Mão Feliz. Poemas D(e)ícticos, Limiar (1994)
  • O Único Traço de Pincel, Limiar (1997)
  • Da Alma e dos Espíritos Animais, Campo das Letras (2001)
  • Soletrar o Dia, Quasi Edições (2002)
  • Animal Volátil, Edições Afrontamento (2005) - juntamente com Casimiro de Brito
  • O Mundo Não Acaba no Frio dos Teus Ossos, Quasi Edições (2009)
  • Gado do Senhor, & Etc. (2011)



Leonard Cohen - Almost Like the Blues


O músico e escritor canadiano Leonard Cohen (Montreal, 21 de setembro de 1934) cumpre hoje 80 anos, nas vésperas de editar o álbum «Popular Problems», que aborda preocupações e dilemas do mundo atual. 

Considerado um dos maiores escritores de canções da segunda metade do século XX, Leonard Cohen celebra os 80 anos de vida, e mais de quarenta de música, com um álbum que fala de guerras, religião, amor e morte. 

«Popular Problems», 13º disco de carreira, «reflete o mundo em que vivemos», afirmou Leonard Cohen esta semana em Londres, num encontro com jornalistas, explicando que o álbum reúne «uma ampla paleta de géneros», como gospel, country e blues. 

Apesar da idade, o músico tem estado mais ativo desde 2008, ano em que encetou uma nova digressão internacional, depois de uma ausência de 15 anos, e editou o álbum «Old Ideas» (2012). 

Sobre o novo álbum, marcado por uma característica voz cavernosa e grave, Leonard Cohen afirmou que é atravessado por um sentimento que é identificável por todos: «Toda a gente sofre e toda a gente luta por ser alguém, por ser reconhecido. É preciso perceber que a luta de um é igual à luta de qualquer outro; e o sofrimento também. Creio que nunca se chegará a uma solução política se não se perceber esta ideia». 

«Popular Problems» inclui temas como «Almost like the blues», «Born in chains», que admitiu ter demorado décadas a concluir, e «A Street», escrito logo após os atentados de 11 de setembro de 2011 em Nova Iorque, mas só agora revelado. 

Há ainda o tema «Nevermind», que conta com uma voz feminina a cantar em árabe, representando «os oprimidos» e as vítimas anónimas dos conflitos armados. 

Questionado se uma canção pode oferecer soluções para problemas políticos, Leonard Cohen respondeu: «Eu penso que a canção é, ela mesma, uma espécie de solução». 

Leonard Cohen publicou o primeiro álbum, «Songs of Leonard Cohen», em 1967, já depois de ter feito trinta anos e de ter revelado a faceta literária, em particular com o livro de poesia «Let us compare mythologies» (1956) e o romance «O Jogo preferido» (1963). (Daqui) 

"Dizer Não" - de Vergílio Ferreira





Dizer Não


Diz NÃO à liberdade que te oferecem, se ela é só a liberdade dos que ta querem oferecer. Porque a liberdade que é tua não passa pelo decreto arbitrário dos outros. 

Diz NÃO à ordem das ruas, se ela é só a ordem do terror. Porque ela tem de nascer de ti, da paz da tua consciência, e não há ordem mais perfeita do que a ordem dos cemitérios. 

Diz NÃO à cultura com que queiram promover-te, se a cultura for apenas um prolongamento da polícia. Porque a cultura não tem que ver com a ordem policial mas com a inteira liberdade de ti, não é um modo de se descer mas de se subir, não é um luxo de «elitismo», mas um modo de seres humano em toda a tua plenitude. 

Diz NÃO até ao pão com que pretendem alimentar-te, se tiveres de pagá-lo com a renúncia de ti mesmo. Porque não há uma só forma de to negarem negando-to, mas infligindo-te como preço a tua humilhação. 

Diz NÃO à justiça com que queiram redimir-te, se ela é apenas um modo de se redimir o redentor. Porque ela não passa nunca por um código, antes de passar pela certeza do que tu sabes ser justo. 

Diz NÃO à verdade que te pregam, se ela é a mentira com que te ilude o pregador. Porque a verdade tem a face do Sol e não há noite nenhuma que prevaleça enfim contra ela. 

Diz NÃO à unidade que te impõem, se ela é apenas essa imposição. Porque a unidade é apenas a necessidade irreprimível de nos reconhecermos irmãos. 

Diz NÃO a todo o partido que te queiram pregar, se ele é apenas a promoção de uma ordem de rebanho. Porque sermos todos irmãos não é ordenanmo-nos em gado sob o comando de um pastor. 

Diz NÃO ao ódio e à violência com que te queiram legitimar uma luta fratricida. Porque a justiça há de nascer de uma consciência iluminada para a verdade e o amor, e o que se semeia no ódio é ódio até ao fim e só dá frutos de sangue. 

Diz NÃO mesmo à igualdade, se ela é apenas um modo de te nivelarem pelo mais baixo e não pelo mais alto que existe também em ti. Porque ser igual na miséria e em toda a espécie de degradação não é ser promovido a homem mas despromovido a animal. 

E é do NÃO ao que te limita e degrada que tu hás-de construir o SIM da tua dignidade. 



Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1'






"É mais importante escrever um livro do que governar um império... e mais difícil também."


(Robert de Musil)



Robert de Musil


Robert Musil (Klagenfurt, 6 de novembro de 1880 — Genebra, 15 de abril de 1942) foi um escritor austríaco, um dos mais importantes romancistas modernos.
Ao lado de Franz Kafka, Marcel Proust e James Joyce forma o grupo dos grandes prosadores do século XX
Da sua obra destaca-se o monumental O Homem sem Qualidades, um anti-romance ou um não-romance que é acima de tudo uma grande reflexão sobre a época de Musil. Seu livro de estreia, o romance de formação O Jovem Törless, publicado em 1906, também é popular na atualidade.

Principais obras:
O Homem sem Qualidades, 1930, 1933, 1943, publicado em dois volumes.
O Jovem Törless, 1906.


"Saudade" - Poema de António Franco Alexandre


James Jebusa Shannon, White Lilies



Saudade 


Tal como és, assim te quero, e sempre
diverso cada dia do que foste;
cada imperfeito gesto que inventares
me fará desejar-te em outro verso.

Da arte do soneto feito mestre
no concurso sem regra da floresta,
na mais pequena folha te descubro
e no caule do vento é que te perco.

Da turva luz já retirei o emblema
que me sirva de rosto permanente
e venha o cabeçalho do poema;

e pedirei à noite que me empreste
um farrapo do manto incandescente
de que se veste, agora, para ter-te.


António Franco Alexandre





James Jabusa Shannon, Springtime, 1896


"O amor é de todas as paixões a mais forte, pois ataca simultaneamente a cabeça, o coração e os sentidos."

 (Voltaire)



James Jabusa Shannon, Reverie 


"Quem ama extremamente, deixa de viver em si e vive no que ama." 

(Platão)



Self-portrait of James Jebusa Shannon (American Painter, 1862-1923)


sábado, 20 de setembro de 2014

"Amar é arriscar. Tudo."... de José Luís Nunes Martins



Ilustração de Carlos Ribeiro



Amar é arriscar. Tudo.


O amor é algo extraordinário e muito raro. Ao contrário do que se pensa não é universal, não está ao alcance de todos, muito poucos o mantêm aqui. Chama-se amor a muita coisa, desde todos os seus fingimentos até ao seu contrário: o egoísmo.

A banalidade do gosto de ti porque gostas de mim é uma aberração intelectual e um sentimento mesquinho. Negócio estranho de contabilidade organizada. Amar na verdade, amar, é algo que poucos aguentam, prefere-se mudar o conceito de amor a trocar as voltas à vida quando esta parece tão confortável.

Amar é dar a vida a um outro. A sua. A única. Arriscar tudo. Tudo. A magnífica beleza do amor reside na total ausência de planos de contingência. Quando se ama, entrega-se a vida toda, ali, desprotegido, correndo o tremendo risco de ficar completamente só, assumindo-o com coragem e dando um passo adiante. Por isso a morte pode tão pouco diante do amor. Quase nada. Ama-se por cima da morte, porquanto o fim não é o momento em que as coisas se separam, mas o ponto em que acabam.

Não é por respirar que estamos vivos, mas é por não amar que estamos mortos.

De pouco vale viver uma vida inteira se não sentirmos que o mais valioso que temos, o que somos, não é para nós, serve precisamente para oferecermos. Sim, sem porquê nem para quê. Sim, de mãos abertas. Sim... porque, ainda além de tudo o que aqui existe, há um mundo onde vivem para sempre todos os que ousaram amar...


José Luís Nunes Martins, in 'Filosofias - 79 Reflexões'



Justin Timberlake - Mirrors


quinta-feira, 18 de setembro de 2014

"Viver Tranquilamente"... de José Luís Nunes Martins



Ilustração de Carlos Ribeiro

 
Viver Tranquilamente


Ter a morte por perto assusta, mas permitir que esse medo seja tão incapacitante que só a própria morte lhe possa pôr fim é algo tremendamente absurdo.

Aquilo de que verdadeiramente a maior parte das pessoas tem medo é de viver uma vida sem sentido. Passar o seu tempo, o único tempo que tem, a fazer escolhas erradas. A verdade da vida parece bem mais evidente perante a consciência do seu/nosso fim iminente.

Saibamos escutar os conselhos tranquilos e sábios dos mais velhos, sem cair na tentação de os confrontar com a sua própria vida; talvez tenha sido precisamente por terem escolhido mal para si que, agora, nos podem ajudar a não fazermos o mesmo.

Aprender a procurar a tranquilidade e a vivê-la é algo extremamente simples e valioso. Trata-se de aceitar com um sorriso o que a vida nos dá, apreciar o pouco que seja, em vez de andarmos alienados a sonhar com coisas tontas. A nossa ansiedade, raiva e frustração são sinais de que algo de essencial está errado entre nós e o mundo, e talvez não seja o mundo.

Nada na vida é garantido e isso torna-a ainda mais bela. Um dom.

Devíamos deixar que a paz nos guiasse por entre os nossos dias e noites. Afinal, a felicidade não está nos sonhos, mas sim na capacidade que temos de aceitar e admirar calmamente o fragmento de vida que nos anima.

Quem assim sabe viver talvez possa encarar a morte como apenas mais um momento mau entre duas tranquilidades.


José Luís Nunes Martins, in 'Filosofias - 79 Reflexões'



José Luís Nunes Martins (2013). Filosofias. 79 reflexões.
Lisboa: Paulus Editora, 248 páginas.
Ilustração de Carlos Ribeiro

José Luís Nunes Martins escreve todas as semanas no jornal i. Este livro condensa as suas melhores crónicas semanais. É uma verdadeira reunião de "filosofias", com reflexões, sempre belas e profundas, sobre temas variados como o amor e o ódio, a vida e a morte, a alegria e a tristeza, a sociedade e a esperança. Todas as crónicas são ilustradas.

Algumas das reflexões podem ser encontradas na página correspondente no Facebook: FILOSOFIAS. 79 Reflexões.


José Luís Nunes Martins
Portugal
n. 1971
Filósofo



David Bowie - Absolute Beginners 

"A Leitora"... Poema de António Ramos Rosa


Sir James Jebusa Shannon (1862 - 1923), Anglo-American artist,
Mother and Child (also known as Lady Shannon and Kitty), 1900


A Leitora


A leitora abre o espaço num sopro subtil.
Lê na violência e no espanto da brancura.
Principia apaixonada, de surpresa em surpresa.
Ilumina e inunda e dissemina de arco em arco.
Ela fala com as pedras do livro, com as sílabas da sombra.

Ela adere à matéria porosa, à madeira do vento.
Desce pelos bosques como uma menina descalça.
Aproxima-se das praias onde o corpo se eleva
em chama de água. Na imaculada superfície
ou na espessura latejante, despe-se das formas,

branca no ar. É um torvelinho harmonioso,
um pássaro suspenso. A terra ergue-se inteira
na sede obscura de palavras verticais.
A água move-se até ao seu princípio puro.
O poema é um arbusto que não cessa de tremer.


 António Ramos Rosa, in "Volante Verde"


Galeria de James Jebusa Shannon

Self-portrait of James Jebusa Shannon, circa 1919


 St. Michael of Belgium (1914), by James Jebusa Shannon



James Jebusa Shannon, Young Woman In Blue


James Jebusa Shannon, Flora



James Jebusa Shannon, The Flower Girl
 
 
 
James Jebusa Shannon, The Doll (also known as Kitty in Fancy Dress), 1895 
 
 
 
  James Jebusa Shannon,Lady Barber Seated with Yorkshire 
 
 

 James Jebusa Shannon,The Bathers, Date unknown
 
 
 
James Jebusa Shannon, Contes de la Jungle (also known as Jungle Tales), 1895
 


 James Jebusa Shannon, On the Dunes 
 
 
 
Pensamento




"Escrevendo ou lendo nos unimos para além do tempo e do espaço, e os limitados braços se põem a abraçar o mundo; a riqueza de outros nos enriquece a nós. Leia." 

 


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

"Já estou a ficar velho" - Poema de António Franco Alexandre


Steven Kenny (n. 1962, Peekskill, Nova Iorque), 
Man with Blinders, 2012, oil on panel, 12.75 x 14 inches



Já estou a ficar velho


Já estou a ficar velho, ainda que tenha 
esta figura fixa sem idade, 
e me mantenha em forma o aparelho 
a que todos aqui somos sujeitos: 
a correria cega, a suspensão elástica, 
o salto em trave e trampolim de folhas, 
e outras altas artes de ginástica. 
Mas eu bem sei sentir além da aparência, 
e já me aconteceu, ao visitar o canto 
onde o mundo se acaba em chão de areia, 
ali ver o meu fim anunciado. 
Quando em tranquilo pouso assim medito, 
peso, e calculo tudo aquilo 
que não fiz, e não tive, e não alcanço 
com o rosto extravagante que me deram, 
já tudo bem pensado considero 
se não devo encontrar algum consolo 
na ciência que conduz o feiticeiro, 
e acreditar também, como me diz, 
que é, esta vida, emaranhada teia 
de mal fiado, mal dobado fio, 
e a morte tão somente um singular casulo 
de onde sairei transfigurado. 
Mas não sei de que valha imaginar 
um outro ser incólume e perfeito 
que da minha substância seja feito 
e tome, noutro mundo, o meu lugar; 
se me não lembra, como serei eu? 
Se for quem sou, ainda que mude a capa, 
há de voltar aqui, onde hoje estou, 
viver o mesmo instante, e ver 
escapar-lhe das mãos o que me escapa; 
veloz embora, e exímio no salto, 
o que hoje perco, há de então perdê-lo, 
e faltar-lhe outra vez o que me falta.


António Franco Alexandre, in 'Aracne'

(António Franco Alexandre (Viseu, 1944) é um matemático, filósofo e poeta português.)



Steven Kenny, The Lantern, oil on linen 30 x 24 in.




Steven Kenny, The Crux III (Doves)


"My paintings most often focus on the human figure paired with elements found in nature. These surreal, symbolic juxtapositions are intended to work on at least two levels.

The first alludes to the fact that we are an integral part of the natural world and subject to its laws. This seems like an obvious statement until we step back and objectively assess our symbiotic relationship with each other and the Earth. Depending on your perspective, these relationships fall somewhere on the scale between harmonious and dysfunctional.

The second turns the lens around to look inward upon the stewardship of our own emotional, intellectual and psychological landscapes. The same pictorial subject matter allows me to make references to our individual journeys of self-exploration and discovery. Again, depending on who is holding the compass, we are either lost or on the right path.

At the very least, I desire to create images of beauty and mystery that allow the viewer to find their own personal significance in them."


Steven Kenny





Steven Kenny, The Shadow, 2010, oil on canvas, 30 x 30 inches



Steven Kenny, Tethered Fulcrum, 2010, oil on linen, 16 x 40 inches
(www.stevenkenny.com)



Coldplay - Magic (Official video) 

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

"Primeiro Amor" - Poema de Adília Lopes


Pintura de Oliveira Tavares



Primeiro Amor

Gostava muito dele
mas nunca lhe disse isso
porque a minha criada tinha-me avisado
se gostar de um rapaz
nunca lhe diga que gosta dele
se diz
ele faz pouco de si para sempre
os rapazes são maus
eu não era bela
nem sabia quem tinha pintado Os pestíferos de Jaffa
resolvi assim escrever-lhe cartas anónimas
escrevia o rascunho num caderno pautado
não sei hoje o que escrevia
mas sei que nunca escrevi
gosto muito de ti
e depois pedia a uma rapariga muito bonita
que passasse as cartas a limpo
eu acreditava que quem tinha uns cabelos
assim loiros e a pele assim fina
devia ter uma letra muito melhor do que a minha
agora que conto isto
vejo que deixo muitas coisas de fora
por exemplo que o meu primeiro amor
não foi este mas o Paulo
o irmão da rapariga bonita


Adília Lopes



Adília Lopes


Adília Lopes, pseudónimo literário de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira, (Lisboa, 20 de Abril de 1960) é uma poetisa, cronista e tradutora portuguesa.


"Adília Lopes e Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira são uma e a mesma pessoa. São eu. Como uma papoila é poppy. E muitos outros nomes que eu não sei. A Adília Lopes é água no estado gasoso, a Maria José é a mesma água no estado sólido. Eu sou uma mulher, sou portuguesa, sou lisboeta, sou poetisa, sou linguista (todos somos), sou física, sou bibliotecária, sou documentalista, sou míope, nasci a 20 de Abril de 1960, sou solteira, não tenho filhos, sou católica, tenho os olhos castanhos, meço 1,56 m, neste momento peso 80 Kg, uso o cabelo curto desde 1981, o cabelo é castanho escuro com muitos cabelos brancos.(…) É claro que o poeta é sempre o idiota da família, o maluquinho."

Adilia Lopes (Daqui)



Galeria de Oliveira Tavares
Oliveira Tavares


Oliveira Tavares


Oliveira Tavares


Oliveira Tavares


Oliveira Tavares


Oliveira Tavares


Oliveira Tavares





"Quero tornar-me aquilo que sou: uma criança feita de luz."


(Katherine Mansfield)



Katherine Mansfield em 1912


Katherine Mansfield, pseudónimo de Kathleen Mansfield Beauchamp (Wellington, Nova Zelândia; 14 de outubro de 1888 - Fontainebleau, França, 9 de janeirode 1923) foi uma proeminente escritora neozelandesa de histórias curtas.


domingo, 14 de setembro de 2014

"Algumas horas outras" - Poema de António Franco Alexandre



Ellen Jantzen, Encounter




Algumas horas outras


algumas horas outras invadiram as sedas, os perfumes 
ácidos da louça, não serão recordadas, ou quanto mais 
as recordarmos, mais a ignorância deitará 
os corpos no tapume de vidros, para que em torno 
se conciliem as vontades singulares, as 
particularidades de um impetuoso alarme. 
ou seja: deixarão as esplanadas baças, os garfos 
encolhidos, para que um amplo destino os atravesse. 
considerem, por exemplo, o paquete que ao meio-dia 
igere as minuciosas palmeiras sobre a 
alta insensatez dos aquedutos. ou ainda 
a ilusão dos alicates ao lado da água, e o seu reflexo 
do outro lado das vidraças: azul, não é? 
assim estas algumas outras horas: como esquecê-las? 


e ainda o sossego das interrogações não se deixa 
facilmente esborratar, ou a qualidade 
das tintas, assim no meio do lençol, 
o impediu até agora. algumas 
são as horas do vasto almofadão translúcido 
onde as janelas germinaram, e são 
as solenes sardinheiras ardidas 
na boca do início. soçobrando a música 
produzimos os locais inamovíveis, as persianas 
corridas sobre o papel meticuloso das suas 
amenas enseadas. não olhes, 
outras algumas horas que a madeira se parte 
e os carinhosos garfos se encolhem na gengiva. 


quem nelas arde mastigando o musgo 
fluvial, ou as longas cortinas inundadas, 
dificilmente evitará outras incertas mesas 
onde dorme. observem como estão cobertas 
pela (metáfora da) nuvem sobre o fundo 
de actos responsáveis, gracejos gratuitos, animais de 
pequeno porte. eles mesmos 
se esquecerão, no solene rebordo das horas, 
de quem foram, de quem teriam sido 
as campânulas inamovíveis, e essas feridas 
precocemente supuradas. então outros se cobrem 
com (a metáfora das) sedas mais cruéis, 
algumas outras horas que adivinham em garfos 
naufragados, o silêncio, a secura. 


observem como rapidamente esquecem, mudando de cor 
a cada rotação das ventoinhas. e ainda 
imagem é pouco fiel, dada a distância 
e o sucessivo afastamento das delicadas 
membranas, observem como 
se dividem, no instante anterior à queda. 
não se encontra explicado o sombrio abcesso 
de cólera, ou de timidez, quando as nódoas estalam 
ao frio pouco vulgar nesta estação do mês. 
ou será isto, e nada mais, o que esquecemos? 



António Franco Alexandre, in 'Os Objectos Principais'



António Franco Alexandre


António Franco Alexandre, poeta português, nasceu no ano de 1944, em Viseu. Em 1962, foi para Toulouse, onde fez os estudos na área da Matemática. Em 1969, os bons resultados obtidos permitiram-lhe a obtenção de uma bolsa para continuar os estudos em Harvard, nos EUA. Contudo, em 1971, voltou de novo para França, agora para Paris, onde se doutorou em Matemática. Quatro anos mais tarde, o apelo do seu país "obriga-o" a regressar e, em 1975, é convidado para professor de Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. 
Embora só nos anos 70, a sua obra se veja projetada no mundo literário, António Franco Alexandre publicou o seu primeiro livro intitulado A Distância, em 1969. 
De postura discreta, contrariando os "assédios" para grandes manifestações públicas, não mais deixou estagnar a sua criação literária. 
Acreditando que "se a poesia deve algo à música, não é composição, mas a arte do improviso", deu corpo e alma a diversos títulos, que permitem, hoje, considerá-lo um dos expoentes da poesia portuguesa contemporânea, sendo considerado por Óscar Lopes a melhor revelação poética dos anos oitenta (cf. Cifras do Tempo, Lisboa, 1990, p. 325). 
Em 1999, foi-lhe atribuído o prémio de poesia da Associação Portuguesa de Escritores (APE), com a publicação do livro Quatro Caprichos (Prémio Luís Miguel Nava). 
Autor de uma vasta obra, reflexo de um manifesto interesse pelas áreas da Filosofia, Ética e Estética da Literatura e da Música, assina os títulos seguintes: A Distância (1969), Visitação (1974), Dos Jogos de inverno (1974), Sem Palavras (1974), Nem Coisas (1974), Os Objetos Principais (1979), A Pequena Face (1983), As Moradas 1 e 2 (1987), Oásis (1992), Poemas (1996), Quatro Caprichos (1999), Uma Fábula (2001) e Duende (2002), vencedor do Prémio D. Dinis para poesia em 2003 e do Prémio Correntes d'Escrita em 2005.

António Franco Alexandre. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. 




Galeria de Ellen Jantzen

Ellen Jantzen, Path of Plenty, 2012





In “Disturbing the Spirits” 

«I am using imagery to convey my feelings about the state of nature, the nature of trees, and how to express their connection to past, present and future. By obscuring a portion of the image through a veil, I strive to heighten the remaining reality through discovery and reflection.»


Ellen Jantzen



Ellen Jantzen, Convergence



In “Transplanting Reality; Transforming Nature”

«The natural world can be experienced on many levels, from the reality of a mountain to the ethereal essence of living beings. Trees, specifically, have always played a major role in my appreciation of nature. Trees produce the oxygen needed for our breath; we provide carbon dioxide for the trees…. a lovely symbiosis.»

Ellen Jantzen



Ellen Jantzen, Extravagance



«Forests and trees have also played a prominent role in many folktales and legends and have been given deep and sacred meanings. They are seen as powerful symbols of growth, decay and resurrection. But, with the depletion of forests and the resulting impact on humankind, how we respond will determine our future.»

Ellen Jantzen



Ellen Jantzen, Imagination


«In this series I am addressing my concerns by transplanting replica trees into the natural world. These trees take the form of a constructed likeness or of a ghostly apparition. One is artificial, the other a spirit form; both represent the transformation of nature.»

Ellen Jantzen



Ellen Jantzen, Attaining Shadow, 2012



Jantzen Ellen, Taking Precautions, 2012



Jantzen Ellen, Safeguarding Poppies, 2012



Jantzen Ellen, In the Field of Gold, 2012



Jantzen Ellen, Losing the Way, 2012



Ellen Jantzen, Incarnation, 2012



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