sábado, 30 de maio de 2015

"Nós Trazemos na Alma uma Bomba" - Vergílio Ferreira





Nós Trazemos na Alma uma Bomba


A causa depois do efeito. A minha tese é esta, minha querida – nós trazemos na alma uma bomba e o problema está em alguém fazer lume para a rebentar. Nós escolhemos ser santos ou heróis ou traidores ou cobardes e assim. O problema está em vir a haver ou não uma oportunidade para isso se manifestar. Nós fizemos uma escolha na eternidade. Mas quantos sabem o que escolheram? Alguns têm a sorte ou a desgraça de alguém fazer lume para rebentarem o que são, ver-se o que estava por baixo do que estava por cima. Mas outros vão para a cova na ignorância. Às vezes fazem ensaios porque a pressão interior é muito forte. Ou passam a vida à espera de um sinal, um indício elucidativo. Ou passam-na sem saberem que trazem a bomba na alma que às vezes ainda rebenta, mesmo já no cemitério. Ou quem diz bomba diz por exemplo uma flor para pormos num sorriso. Ou um penso para pormos num lanho. Mas não sabem. Agora pergunto – se escolheram a maldição e alguém faz lume, quem é culpado de ela rebentar? Como é que um tipo é culpado de trazer uma bomba na alma se foi outro que a fez explodir? E como é que é culpado o tipo que fez o lume, se a bomba não era dele? 


Vergílio Ferreira, in 'Em Nome da Terra'


sexta-feira, 29 de maio de 2015

"elegia"... poema de Alberto Pimenta


Giacomo Balla, Velocità Astratta e Rumore, 1913-1914, Oil on Board

Giacomo Balla (Turim, 18 de julho de 1871 — Roma, 1 de março de 1958) foi um pintor italiano, considerado um dos expoentes do movimento artístico e literário do futurismo na Itália. Utilizou as técnicas de pontilhado para forjar os principais temas do futurismo, a dinâmica e a velocidade.




elegia


já nada é o que era 
e provavelmente nunca mais o será 
e mesmo que o fosse 
algo me diz que já não seria o que era 
porque o que era 
era o que era por ser o que era 
do que eu me lembro muito bem 
embora eu então não fosse o que agora sou 
mas o que agora sou 
ou estou a ser 
é deixar de ser o que sou 
porque eu sou deixando de ser 
deixar de ser é a minha maneira de ser 
sou a cada instante 
o que já não sou 
e o mesmo se deve passar com tudo o que é 
motivo por que não admira que assim seja 
quer dizer 
que nada seja o que era 
e se assim é 
ou já não é 
seja ou não seja 



in 'Ascensão de Dez Gostos à Boca'



Alberto Pimenta 


Alberto Pimenta, poeta e ensaísta, formado em Germânicas pela Universidade de Coimbra, desenvolveu a atividade de docente na Universidade de Heidelberg, entre 1960 e 1976, e na Universidade Nova de Lisboa. Herdeiro da revolução surrealista e da poesia experimental, a poesia, para Alberto Pimenta, é um ato poético, "atual/atuante", que deve ser experimentado e que tem como essência o seu carácter fundamentalmente libertário, emancipado de qualquer retórica ou géneros preestabelecidos ou de qualquer literatura oficializada pela crítica. Inconformista e iconoclasta, a sua atividade (contra) cultural recobre diversos domínios, como as obras visuais, a poesia, atos poéticos e intervenções teatrais, a teoria, a prosa, a organização de antologias e a edição de obras raras. Revelada nos anos revolucionários de 70, a obra de Alberto Pimenta opera uma sistemática e satírica provocação aos agentes de uma cultura literária institucionalizada e, de modo lato, ao convencionalismo, ao kitsch, ao moralismo burguês capitalista, provocação, aliás, corroborada por alguns atos simbólicos de que apresenta testemunho em Obra Quase Incompleta (em 31 de julho de 1977, Alberto Pimenta encerrou-se numa jaula no Jardim Zoológico de Lisboa; em 25 de maio de1991, expôs-se para venda à porta da Igreja dos Mártires; no dia 10 de junho do mesmo ano queimou publicamente o seu ensaio O Silêncio dos Poetas, entre muitos outros). O seu projeto de rutura vanguardista ultrapassa, assim, a perspetiva de defesa de uma forma estética completa, que deve integrar a palavra dita, representada, visualizada ou lida, para conter em si a noção de que a palavra literária opera uma constante transgressão, não podendo ser controlada por qualquer forma de poder, inclusivamente o crítico. (daqui)

"Simplicidade"... Poema de Pedro Homem de Mello


Fotografia de Sergey Ivanov



Simplicidade


Queria, queria 
Ter a singeleza 
Das vidas sem alma 
E a lúcida calma 
Da matéria presa. 

Queria, queria 
Ser igual ao peixe 
Que livre nas águas 
Se mexe; 

Ser igual em som, 
Ser igual em graça 
Ao pássaro leve, 
Que esvoaça... 

Tudo isso eu queria! 
(Ser fraco é ser forte). 
Queria viver 
E depois morrer 
Sem nunca aprender 
A gostar da morte. 



Pedro Homem de Melo (1904-1984), in "Estrela Morta"

domingo, 24 de maio de 2015

"Nenhum Mortal no Mundo Satisfeito"... Poema de Francisco Joaquim Bingre


Gaspar van Wittel (1656-1736), Veduta of Castel Sant'Angelo from the South, 1690



Nenhum Mortal no Mundo Satisfeito

 
  Nenhum mortal no mundo satisfeito
Com sua Sorte está, nunca é contente,
Pois de mil desatinos enche a mente
Sem que possa gozar um bem perfeito.

O soldado deseja o canto estreito
Da cela do ermitão, com ânsia ardente:
Este, da guerra, o estrépito fremente
Deseja, sem razão, ao ócio afeito.

O rico, redobrados bens deseja;
O pobre, de quimeras se sustenta;
No coração humano reina a Inveja.

Pobre, rico, fidalgo se alimenta
De insaciáveis desejos que lhe peja
Sua Sorte fatal, que os não contenta.


Francisco Joaquim Bingre (1763-1856), in 'Sonetos'



Caspar Van Wittel, Piazza Navona, Roma, 1669


Pensamento


"A sorte de ter talento não basta; é preciso, também, ter talento para a sorte."

 
 
 
Berlioz :Symphonie fantastique
 
 
 

sexta-feira, 22 de maio de 2015

"Rua de Roma"... Poema de David Mourão-Ferreira


Centro histórico de RomaItália, Património Mundial pela UNESCO




Rua de Roma


Quero uma rua de Roma 
com seus rubros com seus ocres 
com essa igreja barroca 
essa fonte esse quiosque 
aquele pátio na sombra 
ao longe a luz de um zimbório 
mais o cimo dessa torre 
que não tem raiz no solo.
Em troca darei Moscovo 
Oslo Tóquio Banguecoque. 
Fugaz e secreta à força 
de se mostrar rumorosa 
só essa rua de Roma 
em cada nervo me toca. 
Por isso a quero assim toda 
opulenta de tão pobre 
com o voo desta pomba 
o ribombar desta moto 
com este bar de mau gosto 
em cuja esplanada tomo 
este espresso após o almoço 
à tarde um campari soda. 
Em troca darei Lisboa 
Londres Rio Nova Iorque 
toda a prata todo o ouro 
que não tenho em nenhum cofre 
só no cotão do meu bolso 
e no que a pátria me explora. 
Quero essa rua de Roma. 
Aqui onde estou sufoco. 
Aqui as manhãs irrompem 
de noites que nunca morrem. 
Quero esse musgo essa fonte 
essas folhas que se movem 
sob o sopro do siroco 
ora tépido ora tórrido 
frente à igreja barroca 
tão apagada por fora 
mas que do altar ao coro 
por dentro aparece enorme. 
Quero essa rua de Roma 
casta rugosa remota. 
Em troca darei as lobas 
que não aleitaram Rómulo 
mas me deixaram na boca 
o travo do transitório. 
Quero essa rua de Roma 
sem conhecer quem lá mora 
além da madonna loura 
misto de corça e de cobra 
que ao longo de tantas noites 
tanta insónia me provoca. 
Quanto às restantes pessoas 
inventarei como sofrem. 
Quero essa rua de Roma. 
Terá de ser sem demora. 
Sabemos lá quando rondam 
abutres à nossa roda. 
Mas não me lembro do nome 
da rua que assim evoco 
soberba se bem que tosca 
direita se bem que torta 
com um Sol que tanto a doura 
como a seguir a devora. 
Em troca darei o troco 
do que por nada se troca 
o florescer de uma bomba 
o deflagrar de uma rosa. 
Quero essa rua de Roma. 
Amanhã. Ontem. Agora. 
Que importa saber-lhe o nome 
se a trago dentro dos olhos. 
Há uma igual em Verona. 
Outra ainda mais a norte. 
Outra talvez nem tão longe 
num burgo que o mundo ignora. 
Outra que apenas se encontra 
onde a paixão a descobre. 
Mas rua sempre de Roma. 
Romana em todo o seu porte 
mistura de alma e de corpo 
aquém além do ilusório. 
Romana mesmo que em Roma 
não haja quem a recorde. 
Onde quer que o sexo a sonhe 
e o coração a coloque 
é lá que todo sou todo. 
Aqui não.
 Aqui não posso.


David Mourão-Ferreira, in 'Os Ramos Os Remos'






 Ettore Roesler Franz
Retrato de Ettore Roesler Franz (1845-1907) por Giacomo Balla (1871-1958),
 pintado em Villa d'Este, c. 1902, exposto na Bienal de Veneza de 1903


Ettore Roesler Franz (Roma, 11 de maio de 1845 - Roma, 26 de março de 1907) foi um pintor e fotógrafo italiano de origem alemã. Era especialista na técnica de aguarela. Seu trabalho mais famoso é uma série de 120 aguarelas chamada "Roma sparita", onde ele retratou com grande realismo partes da cidade que ele supunha que seriam destruídas no esforço de modernização. Muitas dessas aquarelas estão hoje no Museu de Roma em Trastevere.
Em 1902, ele foi retratado por Giacomo Balla numa famosa pintura exibida na Bienal de Veneza.




"Roma sparita" 
Aguarelas de Ettore Roesler Franz

Ponte Rotto em Roma



 Piazza Barberini



















 

Pensamento


"A humanidade que deveria ter seis mil anos de experiência, recai na infância a cada geração."




sábado, 9 de maio de 2015

"Seguro assento na coluna firme"... de Ricardo Reis





Seguro assento na coluna firme 
(1)


Seguro assento na coluna firme
Dos versos em que fico,
Nem temo o influxo inúmero futuro
Dos tempos e do olvido;
Que a mente, quando, fixa, em si contempla
Os reflexos do mundo,
Deles se plasma torna, e à arte o mundo
Cria, que não a mente.
Assim na placa o externo instante grava
 Seu ser, durando nela.



Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa
1ª publ. in Atena, nº 1. Lisboa: Out. 1924.



Palácio de Versalhes 
(Château de Versailles)

Lugar de residência privilegiado da monarquia francesa de Luís XIV a Luís XVI, o castelo de Versailles, a 16 Km a sudoeste de Paris, embelezado por várias gerações de arquitetos, escultores, ornamentistas e paisagistas, foi para a Europa durante mais de um século o modelo daquela que devia ser uma residência real.


Fachada do Palácio de Versalhes, França - Arquitetura Barroca Francesa


Palácio de Versalhes (Château de Versailles) é um castelo real localizado na cidade de Versalhes, uma aldeia rural à época de sua construção, mas atualmente um subúrbio de Paris. Desde 1682, quando Luís XIV se mudou de Paris, até a família Real ser forçada a voltar à capital em 1789, a Corte de Versalhes foi o centro do poder do Antigo Regime na França.
Em 1660, de acordo com os poderes reais dos conselheiros que governaram a França durante a menoridade de Luís XIV, foi procurado um local próximo de Paris mas suficientemente afastado dos tumultos e doenças da cidade apinhada. O monarca queria um local onde pudesse organizar e controlar completamente um Governo da França por um governante absoluto. Resolveu assentar no pavilhão de caça de Versalhes, e ao longo das décadas seguintes expandiu-o até torná-lo no maior palácio do mundo. 
Versalhes é famoso não só pelo edifício, mas como símbolo da Monarquia absoluta, a qual Luís XIV sustentou.


Luís XIV (1638-1715), o Rei-Sol, filho de Luís XIII e de Ana da Áustria


Considerado um dos maiores do mundo, o luxuoso Palácio de Versalhes, construído pelo rei Luís XIV, o "Rei Sol", a partir de 1664, foi por mais de um século modelo de residência real na Europa. Possui 2 153 janelas, 67 escadas, 352 chaminés, 700 quartos, 1 250 lareiras e 700 hectares de parque. 


Louis Le Vau, primeiro arquiteto de Versalhes.


Incumbido da tarefa de transformar o que era o pavilhão de caça de Luís XIII, no mais opulento palácio da Europa, o arquiteto Louis Le Vau reuniu centenas de trabalhadores e começou a construir um novo edifício ao lado do já existente. Foram assim realizadas sucessivas ampliações - apartamentos reais, cozinhas e estábulos - que formaram o Pátio Real. Le Vau, não conclui as obras. 



Jules Hardouin-Mansart (1646-1708), segundo arquiteto de Versalhes.


Após a morte do arquiteto Louis Le Vau, Jules Hardouin-Mansart tornou-se, em 1678, o arquiteto responsável por dar continuidade ao projeto de expansão do palácio.


Jules Hardouin-Mansart,  Grande Trianon, interior


Jules Hardouin-Mansart, Galerie des Glaces (Galeria dos Espelhos)


Jules Hardouin-Mansart foi quem construiu o Laranjal, o Grande Trianon, as alas Norte e Sul do Palácio, a Capela e a Galeria dos Espelhos (onde foi ratificado, em 1919, o Tratado de Versalhes). A última, trata-se de uma sala com 73m de comprimento, 12,30m de altura e iluminada por dezessete janelas que têm a sua frente, espelhos que refletem a vista dos jardins.


Charles Le Brun (1619-1690), retrato por Nicolas de Largilliere


Na segunda metade do século XVIICharles Le Brun  já se encontrava ao serviço de Luís XIV de França, a dirigir a Academia Real de Pintura e Escultura fundada por ele e na decoração do Palácio de Versalhes, para quem trabalhou até à data da sua morte.


André Le Nôtre (1613-1700), por Carlo Maratta


Em 1837 o castelo foi transformado em museu de história. O palácio está cercado por uma grande área de jardins, uma série de plataformas simétricas com canteiros, estátuas, vasos e fontes trabalhados, projetados por André Le Nôtre. Como o parque é grande, um trem envidraçado faz um passeio entre os monumentos. 
Classificados como património mundial da Humanidade pela Unesco em 1979, o palácio e o parque de Versailles representam uma das mais belas criações de arte francesa do Séc. XVII. (Daqui)

quinta-feira, 7 de maio de 2015

"O Que Há de Mais Belo na Nossa Vida" - Albert Einstein


O Que Há de Mais Belo na Nossa Vida 


O que há de mais belo na nossa vida é o sentimento do mistério. É este o sentimento fundamental que se detém junto ao berço da verdadeira arte e da ciência. Quem nunca o experimentou nem sabe já admirar-se ou espantar-se. Pode considerar-se como morto, sem luz, totalmente cego! A vivência do mistério — embora com laivos de temor — criou também a religião. A consciência da existência de tudo quanto para nós é impenetrável, de tudo quanto é manifestação da mais profunda razão e da mais deslumbrante beleza e, que só é acessível à nossa razão nas suas formas mais primitivas, essa consciência, esse sentimento, constituem a verdadeira religiosidade. Nesse sentido, e em mais nenhum, pertenço à classe dos homens profundamente religiosos. Não posso conceber um Deus que recompense e castigue os objectos da sua criação, ou que tenha vontade própria, de puro arbítrio no género da que nós sentimos dentro de nós. Nem tão-pouco consigo imaginar um indivíduo que sobreviva à sua morte corporal; as almas fracas que alimentem tais pensamentos fazem-no por medo ou por egoísmo ridículo. A mim basta-me o mistério da eternidade da vida, a consciência e o pressentimento da admirável elaboração do ser, assim como o humilde esforço para compreender uma partícula, por mais pequena que seja, da razão que se manifesta na natureza. 


Albert Einstein, in 'Como Vejo o Mundo'




Catedral de Santa Maria del Fiore. Desde o Renascimento, a harmonia, simetria 
e proporções corretas são consideras elementos essenciais da beleza universal.



Pensamento

"É durante a noite que é belo acreditar na luz."


(Jean Rostand)

Jean Rostand (30 de outubro de 1894 — 3 de setembro de 1977) foi um biólogo, filósofo moralista e historiador francês.



Esta breve animação, criada por Fernando Baptista e Matthew Twomblym e apresentada pelo National Geographic, oferece uma ideia de como pode ter sido construída a cúpula. 
Em 1419, o projeto de Filippo Brunelleschi foi o vencedor do concurso de arquitetura 
para a construção da cúpula da Santa Maria del Fiore, em Florença, Itália.


segunda-feira, 4 de maio de 2015

"Soneto 73" - William Shakespeare


Charles Spencelayh (1865-1958), His Old Wedding Hat




Soneto (73)


Esta estação do ano podes vê-la
em mim: folhas caindo ou já caídas;
ramos que o frémito do frio gela;
árvore em ruína, aves despedidas.
E podes ver em mim, crepuscular,
o dia que se extingue sobre o poente,
com a noite sem astros a anunciar
o repouso da morte, gradualmente.
Ou podes ver o lume extraordinário,
morrendo do que vive: a claridade,
deitado sobre o leito mortuário
que é a cinza da sua mocidade.
      Eis o que torna o amor mais forte:
      amar quem está tão próximo da morte.


William Shakespeare, in "Sonetos" 
Tradução de Carlos de Oliveira (1921-1981)

domingo, 3 de maio de 2015

"Ó Mãe"... Por Joaquim Pessoa


Vincenzo Irolli (1860 – 1949), The Kiss


Ó Mãe



Ó mãe, regressa a mim. Embala-me no tempo em que os teus lábios rebentavam de ternura. Ó mãe, ó minha mãe, ó rio de água pura, correndo pelas veias. Pelo vento.

Ó mãe, que és mãe de Deus, que és mãe de mim e mãe de Antero e de Camões, e mãe de quem lhe faltam as palavras como se faltasse o ar. E são assim uma espécie de filhos de ninguém. Abre o teu ventre, mãe. Acorda. Vem parir-me. E vem sofrer a minha dor uma vez mais. Morrer de amor por mim. Vem impedir-me o medo. Ensinar-me a amar a luz dos animais.

Ó mãe, ó minha mãe. Ó pátria. Ó minha pena. Que me pariste, assim, temperamental. Mãe de Ulisses, de Guevara e mãe de Helena. E mãe da minha dor universal.


Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum' 
 

"As Mães" - de Eugénio de Andrade


Dórdio Gomes (1890-1976), «Mulheres Alentejanas ou Mondadeiras», 1932Óleo s/ tela.
 Museu de José Malhoa. Caldas da Rainha (Daqui) 



As Mães


Quando voltar ao Alentejo as cigarras já terão morrido. Passaram o verão todo a transformar a luz em canto - não sei de destino mais glorioso. Quem lá encontraremos, pela certa, são aquelas mulheres envolvidas na sombra dos seus lutos, como se a terra lhes tivesse morrido e para todo o sempre se quedassem órfãs. Não as veremos apenas em Barrancos ou em Castro Laboreiro, elas estão em toda a parte onde nasça o sol: em Cória ou Catania, em Mistras ou Santa Clara del Cobre, em Varchats ou Beni Mellal, porque elas são as Mães. O olhar esperto ou sonolento, o corpo feito um espeto ou mal podendo com as carnes, elas são as Mães. A tua; a minha, se não tivera morrido tão cedo, sem tempo para que o rosto viesse a ser lavrado pelo vento. Provavelmente estão aí desde a primeira estrela. E como duram! Feitas de urze ressequida, parecem imortais. Se o não forem, são pelo menos incorruptíveis, como se participassem da natureza do fogo. Com mãos friáveis teceram a rede dos nossos sonhos, alimentaram-nos com a luz coada pela obscuridade dos seus lenços. Às vezes encostam-se à cal dos muros a ver passar os dias, roendo uma côdea ou fazendo uns carapins para o último dos netos, as entranhas abertas nas palavras que vão trocando entre si; outras vezes caminham por quelhas e quelhas de pedra solta, batem a um postigo, pedem lume, umas pedrinhas de sal, agradecem pela alma de quem lá têm, voltam ao calor animal da casa, aquecem um migalho de café, regam as sardinheiras, depois de varrerem o terreiro. Elas são as Mães, essas mulheres que Goethe pensa estarem fora do tempo e do espaço, anteriores ao Céu e ao Inferno, assim velhas, assim terrosas, os olhos perdidos e vazios, ou vivos como brasas assopradas. Solitárias ou inumeráveis, aí as tens na tua frente, graves, caladas, quase solenes na sua imobilidade, esquecidas de que foram o primeiro orvalho do homem, a primeira luz. Mas também as podes ver seguindo por lentas veredas de sombra, as pernas pouco ajudando a vontade, atrás de uma ou duas cabras, com restos de garbo na cabeça levantada, apesar das tetas mirradas. Como encontrarão descanso nos caminhos do mundo? Não há ninguém que as não tenha visto com umas contas nas mãos engelhadas rezando pelos seus defuntos, rogando pragas a uma vizinha que plantou à roda do curral mais três pés de couve do que ela, regressando da fonte amaldiçoando os anos que já não podem com o cântaro, ou debaixo de uma oliveira roubando alguma azeitona para retalhar. E cheiram a migas de alho, a ranço, a aguardente, mas também a poejos colhidos nas represas, a manjerico quando é pelo S. João. E aos domingos lavam a cara, e mudam de roupa, e vão buscar à arca um lenço de seda preta, que também põem nos enterros. E vede como, ao abrir, a arca cheira a alfazema! Algumas ainda cuidam das sécias que levam aos cemitérios ou vendem nas feiras, juntamente com um punhado de maçãs amadurecidas no aroma dos fenos. E conheço uma que passa as horas vigiando as traquinices de um garoto que tem na testa uma estrelinha de cabrito montês - e que só ela vê, só ela vê. 
Elas são as Mães, ignorantes da morte mas certas da sua ressurreição. 


Eugénio de Andrade , in 'Vertentes do Olhar' 

"Ser Mãe é Aceitar. Tudo." Por José Luís Nunes Martins




Ilustração de Carlos Ribeiro



Ser Mãe é Aceitar. Tudo.


Ser mãe é receber em si um outro que lhe vem de fora e acolhê-lo em vista de um futuro que pressente mas que, de maneira nenhuma, sabe explicar. Ser mãe é, antes de mais, aceitar. Tudo. Tudo.

É aceitar em si um outro para o qual ela se torna o mundo: gerando-o, alimentando-o, comendo, bebendo e respirando com ele... ele dentro de si, ela em volta dele.

É deixar esse outro ir embora e voltar a recebê-lo em cada dia, quando ele volta, quando ele se revolta e, também, quando ele não volta...

Ser mãe é acolher o que o outro lhe dá. Mas não como quem se alimenta do que lhe vem de fora, transformando-o em vida, que acolhe em si, e devolvendo ao mundo, já morto, aquilo que sobra. Ser é mãe é dar-se como alimento, transformando-se na vida daquele a quem se dá para depois... voltar depois ao mundo, gasta, apenas com o que lhe sobra. 
Ser mãe é dar-se. Aceitando sempre qualquer resultado e resposta.

Uma mãe, mais do que dar um filho ao mundo, deve dar um mundo ao filho. Um melhor que este, cheio de esperança e sonhos, com formas e forças para o concretizar. Dando-se. Abdicando de si. Amando da forma mais sublime e real, pura e concreta. Humana e divina. Acolhendo como sua esta obrigação absoluta de amar quem nem sempre se dá conta do seu valor.

É experimentar uma vida em que a alegria se conjuga com a tristeza, a graça com a desgraça, a esperança com o desespero. Como se as emoções tivessem uma amplitude gigantesca mas onde, ainda assim, importa garantir que todas as tempestades interiores não se veem do exterior... uma mãe dá a paz que tantas vezes não tem.

Talvez a família seja uma casa com paredes duplas. A mãe é a parede interior que inspira e orienta a interioridade. O pai é a parede exterior que protege e garante a sobrevivência... no entanto, perante a falta do outro, uma mãe é capaz de quase tudo; um pai, também.

Uma boa mãe é um mistério com três dons: a simplicidade, a presença e o silêncio.

Está sempre presente, quase sempre atenta e em silêncio, e é a partir daí que nos chegam as mais sábias perguntas e respostas. De forma simples: ama-nos.

Ser mãe já é ser perfeito. Nenhuma mãe tem em si todas as qualidades humanas e, menos ainda, vive sem erros, mas, apesar de tudo, abraça os filhos tal como são, por poucas qualidades que tenham, por maiores que sejam os seus erros... ser mãe, assim, é quanto basta para ser perfeito.

Uma mãe perdoa sempre. Ainda que de coração sacrificado, prefere pensar que a culpa é sua e não de quem assim a crucifica. Aceita tudo. Sem exigir nada. Afinal, uma mãe é Deus connosco.

Ensina-nos a ser mais fortes que os medos, não através de discursos inspirados, mas pela grandeza e humildade do seu exemplo. É capaz de nos oferecer o mar com um só sorriso e a vida inteira com uma só lágrima... que não será mais que uma gota do imenso mar do seu amor.

Longe da nossa mãe, não serão tanto as carícias e ternuras que nos fazem falta, mas a sua generosa e bondosa forma de nos aceitar assim, tal como somos...

Uma mãe vê-nos a alma só de nos admirar o olhar.

Há poucas mães. Muitas mulheres têm filhos mas não são mães, porque há poucas que sejam mais fortes que os egoísmos... há quem julgue que ser mãe é ter filhos. Mas ser mãe não é ter, é ser. Ser só. Ser-se quem se é nos filhos e pelos filhos. É viver em pleno entre dois corações. É ser mais... por ser menos.


José Luís Nunes Martins, in 'Amor, Silêncios e Tempestades'

"Comparar-te a um Dia de Verão?"... Soneto 18 de William Shakespeare




Comparar-te a um Dia de Verão?
(Versão de Carlos de Oliveira )


Comparar-te a um dia de verão? 
Há mais ternura em ti, ainda assim: 
um maio em flor às mãos do furacão, 
o foral do verão que chega ao fim. 
Por vezes brilha ardendo o olhar do céu; 
outras, desfaz-se a compleição doirada, 
perde beleza a beleza; e o que perdeu 
vai no acaso, na natureza, em nada. 
Mas juro-te que o teu humano verão 
será eterno; sempre crescerás 
indiferente ao tempo na canção; 
e, na canção sem morte, viverás: 
      Porque o mundo, que vê e que respira, 
      te verá respirar na minha lira. 


William Shakespeare, in "Sonetos" 
Tradução de Carlos de Oliveira (1921-1981)






Que és um dia de verão não sei se diga.
És mais suave e tens mais formosura:
vento agreste botões frágeis fustiga
em maio e um verão a prazo pouco dura.
O olho do céu vezes sem conta abrasa,
outras a tez dourada lhe escurece,
todo o belo do belo se desfasa,
por caso ou pelo curso a que obedece
da natureza; mas teu eterno verão
nem murcha, nem te tira teus pertences,
nem a morte te torna assombração
quando o tempo em eternas linhas vences:
      enquanto alguém respire ou possa ver
      e viva isto e a ti faça viver.


William Shakespeare, in "Sonetos" 
Tradução de Vasco Graça Moura (1942-2014)


                       Fac-símile da impressão original do Soneto 18.


Os Sonetos de Shakespeare perfazem um conjunto de 154 poemas publicados em 1609, embora as datas de composição sejam imprecisas. Eles tratam de assuntos como amor, beleza, política e mortalidade

Outras traduções: Soneto 18 (aqui)


Soneto

Soneto (do italiano sonetto, pequena canção ou, literalmente, pequeno som) é um poema de forma fixa, composto por catorze versos, de origem atribuída a poetas da Sicília ou da Provença.
Pode ser apresentado em três formas de distribuição dos versos:
  • Soneto italiano ou petrarquiano: apresenta duas estrofes de quatro versos (quartetos) e duas de três versos (tercetos);
  • Soneto inglês ou Shakespeariano: três quartetos e um dístico;
  • Soneto monostrófico: Apresenta uma única estrofe de 14 versos. (Daqui)

sexta-feira, 1 de maio de 2015

"Soneto da Chuva"... Poema de Carlos de Oliveira


Pintura de Leonid Afremov



Soneto da Chuva


Quantas vezes chorou no teu regaço 
a minha infância, terra que eu pisei: 
aqueles versos de água onde os direi, 
cansado como vou do teu cansaço? 

Virá abril de novo, até a tua 
memória se fartar das mesmas flores 
numa última órbita em que fores 
carregada de cinza como a lua. 

Porque bebes as dores que me são dadas, 
desfeito é já no vosso próprio frio 
meu coração, visões abandonadas. 

Deixem chover as lágrimas que eu crio: 
menos que chuva e lama nas estradas 
és tu, poesia, meu amargo rio. 


Carlos de Oliveira, in 'Terra de Harmonia'



Carlos de Oliveira


Carlos de Oliveira (Belém do Pará1921 — Lisboa1981), poeta e romancista, veio para Portugal com dois anos de idade. Até à sua partida para Coimbra, onde se licenciaria em Ciências Histórico-Filosóficas, a região da Gândara, terra árida e pobre, onde o pai exerceu clínica, marcou profundamente a sua formação, vindo a constituir o cenário privilegiado da sua produção romanesca e poética. 
A sua estreia literária, na poesia, com Turismo, em 1942, e, no romance, com A Casa na Duna, em 1943, editados, respetivamente, pelas coleções "Novo Cancioneiro" e "Novos Prosadores", coleções consideradas ambas marcos no processo de afirmação da estética neorrealista, inscreve-o numa tradição literária que, na senda de Afonso Duarte (o "Mestre") ou Miguel Torga, conjuga, temática e formalmente, elementos populares e rurais com uma postura de modernidade. Colaborou, entre outras publicações, com Vértice, Seara Nova, Altitude, Portucale ou Cadernos do Meio-Dia. 
Segundo Manuel Gusmão, gerada no neorrealismo, a poesia de Carlos de Oliveira evoluiu em conexão com as várias tendências que marcaram a poesia portuguesa desde os anos 50 e até aos movimentos afirmados após os anos 60, num processo que apontaria para uma expressão onde "a poesia vai assumindo explicitamente a consciência de si como um trabalho específico, vai desagregando o discursivismo anterior, vai encontrando, na fragmentação e na descontinuidade e, ao mesmo tempo, no construtivismo interno, o tempo histórico da nossa contemporaneidade poética" (GUSMÃO, Manuel - A Poesia de Carlos de Oliveira, Lisboa, Ed. Comunicação, 1981, p. 25). O mesmo crítico divide a produção poética de Carlos de Oliveira em duas fases distintas, embora caracterizadas por certa unidade. Num primeiro momento, que englobaria as obras publicadas até Terra da Harmonia e Ave Solar, a escrita de Carlos Oliveira é marcada pela relação com uma tradição literária, popular e culta, clássica e moderna, numa relação pautada, a nível formal, pelo recurso a formas técnicas firmadas nesta tradição, embora com preferência pelo longo poema narrativo; e, a nível enunciativo, pela correlação entre o sujeito poético e a entidade coletiva ("Acusam-me de mágoa e desalento, / como se toda a pena dos meus versos / não fosse carne vossa, homens dispersos, / e a minha dor a tua, pensamento." ("Colheita Perdida", in Poesias). Ao mesmo tempo, esse conjunto aponta já para a recorrência de elementos que integram o mundo inorgânico, mineral e cósmico, apresentando uma rede de imagens que se organiza "por uma série de tensões dialéticas entre a realidade e o sonho (o apelo) de uma nova realidade, entre a vida e a morte, entre a esperança e o desespero" (GUSMÃO, Manuel, op. cit., p. 66), numa tentativa ainda de perceber "o que no real é fator de imobilidade (e logo de prolongamento da miséria, da estagnação), fator de decadência" ou fator, raiz, esperança de movimento e de transformação (id. ibi., p. 67). A segunda fase da sua poesia é pautada por uma "procura intensificada da depuração e da concentração expressiva "(id. ibi., p. 68), tendência que se reflete no "rigor de construção", no estilo mais elíptico e substantivo, mais "minucioso na escolha e ordenação das palavras" (id., ibi., p. 69), sendo que "a menor e regular dimensão dos poemas ou dos seus fragmentos-unidades internas, no caso dos poemas 'compostos', facilitam e produzem uma mais intensa tensão rítmica e expressiva interna". Neste momento, marcado por certo pendor auto-reflexivo, "o poema agudiza a consciência de si como trabalho específico sobre materiais próprios e com instrumentos próprios" (id. ibi., p. 70), num privilégio da relação "poesia-escrita", em detrimento da relação "poesia-voz"; ao mesmo tempo que o sujeito poético, privilegiando as referências ao mundo mineral e mineralizado, integra um "processo de 'apagamento'" (id., ibi., p. 72): "Se o poema / analisasse / a própria oscilação / interior, / cristalizasse / um outro movimento / mais subtil, / o da estrutura / em que se geram / milénios depois / estas imaginárias / flores calcárias, / acharia / o seu micro-rigor" ('Estalactite', in Micropaisagem). 
Muitos destes traços de caracterização sobre a evolução da estética poética de Carlos de Oliveira transparecem também na escrita romanesca, estabelecendo também, sem pôr em causa o seu empenhamento, em romances como Uma Casa na Duna, Pequenos Burgueses ou Uma Abelha na Chuva, uma abertura relativamente a certos modelos técnico-narrativos que o neorrealismo inicial tinha postergado, como o uso do monólogo interior e da focalização interna, a individualização da personagem (sem recusar o seu carácter de tipo social), ou a intrusão do discurso do narrador. Sintetizando, no volume O Aprendiz de Feiticeiro, muitas das reflexões sobre a sua postura estética, enumera do seguinte modo os aspetos que o definem como escritor: "a) o meu ponto de partida, como romancista e poeta, é a realidade que me cerca; tenho de equacioná-la em função do passado, do presente e do futuro; e, noutro plano, em função das suas características nacionais ou locais; b) o processo para a transpor em termos literários está sujeito a um condicionamento semelhante ao dela e até ao condicionamento dela [...]; c) é essencial porém não esquecer estas duas coisas: a realidade cria em si mesma os germes da transformação; o processo consiste em [...] captá-los e desenvolvê-los num sentido autenticamente moderno; d) não concebo uma literatura intemporal, nem fora de certo espaço geográfico, social, linguístico; quer dizer, não a vejo inteiramente desligada das condições de tempo, de lugar [...] ; e) o processo, para ter alguma validez, necessita portanto de atender às circunstâncias de época e de país, precisa de ser atual e português; f) não pode ignorar [...] a tradição literária, culta e popular [...]; g) por outro lado, sempre se fez ao longo da história literária aquilo a que chamarei 'transfusão cultural', isto é, emigração de ideias, homens, formas, estéticas, de país para país" (O Aprendiz de Feiticeiro, Lisboa, Dom Quixote, 1971, pp. 93-94). 
Escritor que não desistiu de ligar todos os seus pensamentos "ao mundo comum, quotidiano: os objetos, a paisagem, os homens." (ibi., p. 35), e que sempre entendeu "mal a incompatibilidade entre uma ideia ou uma imagem e a busca das palavras que as tornam cintilantes." (ibi., p. 90), na sua obra avultam, em suma, dois traços maiores, o "trabalho oficinal, trabalho que consiste quase sempre em alcançar um texto muito despojado e deduzido de si mesmo, o que [...] obriga por vezes a transformá-lo numa meditação sobre o seu próprio desenvolvimento." (ibi., p. 268), o que conflui tendencialmente num sentido profundo da "brevidade"; e uma problemática unitária: a da "imagem", já que, "mais do que informarem o sentido vital da poesia e de toda a obra de Carlos de Oliveira, as imagens constituem o mais constante corpo teórico e temático da sua obra", seja pelo carácter simbólico ou exegético-divinatório assumido pela descrição, seja globalmente por um "processo total da inscrição imagem / palavra" segundo o "modelo da cifra" (cf. BRANDÃO, Fiama Hasse Pais, "Nexos sobre a obra de Carlos de Oliveira", in Colóquio /Letras, n.º 26, julho de 1975, p. 64). (Daqui)
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