terça-feira, 30 de junho de 2015

"Cena Familiar " - Poema de Affonso Romano de Sant’Anna


Judith Leyster (1609-1660), O Casal Feliz, 1630 
(Museu do Louvre)




Cena Familiar


Densa e doce paz na semiluz da sala. 
Na poltrona, enroscada e absorta, uma filha 
desenha patos e flores. 
Sobre o couro, no chão, a outra viaja silenciosa 
nas artimanhas do espião. 
Ao pé da lareira a mulher se ilumina numa gravura 
flamenga, desenhando, bordando pontos de paz. 
Da mesa as contemplo e anoto a felicidade 
que transborda da moldura do poema. 
A sopa fumegante sobre a mesa, vinhos e queijos, 
relembranças de viagens e a lareira acesa. 
Esta casa na neblina, ancorada entre pinheiros, 
é uma nave iluminada. 
Um oboé de Mozart torna densa a eternidade. 






Serenade por Judith Leyster, 1629 



"Paz e harmonia: eis a verdadeira riqueza de uma família." 





Woman playing a Virginal, de Jan Miense Molenaer
marido da pintora Judith Leyster



"A alegria é a pedra filosofal que tudo converte em ouro."





Jan Miense MolenaerHis Family portrait, 1635.



"Um bom exemplo é o melhor sermão."


(Benjamin Franklin)

"Liberdade" - Poema de Miguel Torga



Peter Paul Rubens, Venus at the Mirror, 1615




Liberdade


— Liberdade, que estais no céu... 
Rezava o padre-nosso que sabia, 
A pedir-te, humildemente, 
O pio de cada dia. 
Mas a tua bondade omnipotente 
Nem me ouvia. 

— Liberdade, que estais na terra... 
E a minha voz crescia 
De emoção. 
Mas um silêncio triste sepultava 
A fé que ressumava 
Da oração. 

Até que um dia, corajosamente, 
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado, 
Saborear, enfim, 
O pão da minha fome. 

— Liberdade, que estais em mim, 
Santificado seja o vosso nome. 


Miguel Torga, in 'Diário XII'




Peter Paul Rubens, The Three Graces, 1635, Prado

segunda-feira, 29 de junho de 2015

"Como de súbito na vida tudo cansa!" - Poema de Jorge de Sena



Henry Moore, Reclining Figure (1951), localizada no exterior do Museu  Fitzwilliam, Cambridge




Como de Súbito na Vida 


Como de súbito na vida tudo cansa! 
e cansa-nos a vida e nos cansamos dela, 
ou ela é quem se cansa de nós mesmos, 
na teima de existir e desejar? 
Porque, neste cansaço, não o que não tivemos, 
ou que perdemos, ou nos foi negado, 
o que de que se cansa, mas também 
o quanto temos, nos ama, se nos dá 
a até os simples gozos de estar vivo. 
Um dia é como se uma corda se quebrara, 
ou como se acabara de gastar-se, 
que nos prendia a tudo e tudo a nós. 
Não é que as coisas percam importância, 
as pessoas se afastem, se recusem, 
ou nós nos recusemos. Não. É mais 
ou menos que isto - se deseja igual 
ao como até há pouco desejávamos. 
É talvez mais. Mas sem valor algum. 
O dia é noite, a noite é dia, a luz 
se apaga ou se derrama sobre as coisas 
mas elas deixam de ter forma e cor, 
ou se sumir no espaço como forma oculta. 
E o que sentimos é pior que quanto 
dantes sentíamos nas horas ásperas 
da fúria de não ter ou de ter tido. 
Porque se sente o não sentir. Um tédio 
Não como o tédio antigo. Nem vazio. 
O não sentir. Que cansa como nada. 
Até dizê-lo cansa. É inútil. Cansa. 







Henry Spencer Moore (Castleford, Yorkshire, 1898Perry Green, Hertfordshire, 1986) foi um escultor e desenhista britânico que desenvolveu uma obra tridimensional predominantemente figurativa, com breves incursões pela abstração.
Filho de um engenheiro de minas, Moore se tornou conhecido por suas esculturas abstratas em grande escala, de bronze fundido e de mármore. Substancialmente sustentado pela instituição de arte britânica, Moore ajudou a introduzir uma forma especial de modernismo no Reino Unido.
Recebeu as condecorações Ordem de Mérito, Ordem dos Companheiros de Honra e fazia parte da Federação de Artistas Britânicos (Federation of British Artists).
Frequentou o Leeds College of Art e o Royal College of Art de Londres. Sua primeira exposição individual ocorreu em Londres, em 1928, onde apresentou 42 esculturas e 51 desenhos.
Foi influenciado sobretudo pela arte mexicana pré-colombiana, assim como pela arte arcaica e renascentista, pelo Surrealismo e pelo Construtivismo. A essa cultura visual vasta e multiforme do artista soma-se uma sensível capacidade de análise da natureza. (Daqui) 



Henry Moore in his studio in England (1975), by Allan Warren

domingo, 28 de junho de 2015

"O Corpo Exige" - Poema de Affonso Romano de Sant'Anna


António Neves Porto - Elétrico, Técnica Mista 



O Corpo Exige


Presto distraída atenção ao meu corpo. 
O que me pede, eu faço. 
Às vezes, não entendo logo suas ordens, mas 
cedo sempre. 
Me achego a ele e indago: 
-O que queres? Ah, é isso? Então, concedo. 
Sempre que eu resisti 
um de nós saiu-se mal. 

Nas 24 horas do dia, ele pede, 
e quando cala, fala 
num discurso de sonhos 
que me abala. 

Ele sabe. Eu sei que ele sabe, 
e sabe antes de mim, e nele 
eu sei dobrado, sou um-e-dois 
como os dois cortes de um sabre.





António Zambujo - "Pica do 7"
António Zambujo (Site Oficial) e  Sandra Barata Belo



Amor e Medo


Estou te amando e não percebo,
porque, certo, tenho medo.
Estou te amando, sim, concedo,
mas te amando tanto
que nem a mim mesmo
revelo este segredo.




"Maluda: A cidade e o silêncio" - Crónica de Fernando Pernes


Maluda, Porto I, Óleo sobre tela, 73x92cm, 1987, Colecção particular



Fernando Pernes 


O espetáculo urbano voltou à arte contemporânea, após as décadas de radicalismo abstrato, geométrico ou expressionista. Assim aconteceu desde o fenómeno «pop». Assim sucede nesta pintura de Maluda, diferentemente gerada num sistemático decantamento de experiências cezannianas que lentamente lhe determinaram específica originalidade. Figurativa, a pintura de Maluda absorveu da essencialidade geométrica, o primado da ordenação plástica. Do abstracionismo, reteve a exigência de um discurso anti descritivo. A essência construtiva, o ascetismo lírico, eis pois duas eloquentes constantes nos quadros de Maluda, organizados numa depuração do naturalismo e da efusão sentimental: uma busca da clareza formal a que se conjuga o culto da claridade cromática.

Nítidas e claras são pois as composições de Maluda, assumindo, entre ambos os vetores, uma óbvia relação arquitetural como sugestiva qualidade de luz solar que as torna paisagens reconhecíveis numa perspetiva de referência meridional. Nelas, há puros ritmos de formas urbanas a destacarem se na fixidez de cores frias. Cores que podem reproduzir o vermelho de telhados, o branco ou o cinzento de fachadas, o azul do firmamento ou de águas, feitos espelhos de certa densidade sensual atribuível ao «habitat» português. 
Mas aí, também nesses quadros de Maluda, a procura do essencial e do universal, tende a varrer o anedótico e o descritivo, qualquer ruído ou agitação perturbadora, até à anulação de trepidações atmosféricas. O resto, o que permanece além da pormenorização, é a visão universalizadora. E o que fica, para lá do narrativo, será então o silêncio.

Paisagens de silêncio, eis de facto como nos aparecem os quadros de Maluda, mundo do evidente e do espectral, desassombrado e insólito, significando se para melhor nos significar, a nós, habitantes possíveis destas ruas sem tráfego, destes blocos mudos e cegos que são as casas do homem pousadas entre faixas congeladas de luz evocativa do céu ou do mar. E que, anti naturalista, esta pintura de Maluda surge sobretudo poética de progressiva congelação da natureza. Daí talvez o seu eco de ressonância metafísica, tanto mais nos surpreendendo quanto ainda evidenciando a persistência de um próximo e familiar, conotável com os sítios referidos nos quadros. Com sítios que trazem memórias ou visões lisboetas, de terras alentejanas ou algarvias, simultaneamente reconhecíveis numa essencialidade cromática ou topográfica, quanto distanciados na permanência do mesmo olhar decantante do pormenor individualizador e agindo por exigências depuradoras.

De tal modo, com Maluda, a linguagem geométrica dos arquétipos plásticos surge processo de uma dramaticidade tensa, exigente da nudez na vida oculta de todos nós. Consigo, o empenho no despojamento formal redunda na desocultação de uma condição existencial progressivamente mostrando a cidade, o homem português num mundo tão cético como expresso numa intensão universalizante a repudiar o típico e o pitoresco.

Decerto a ambição do essencial e do universal foi a determinante máxima de um processo da arte moderna que Maluda soube absorver na receptividade ao que a rodeia, aos horizontes do seu quotidiano. Agora, tal sentido do próximo despoja-se de verosimilhanças tranquilizantes: abre-se para peregrinações ao invisível e ao alarme que o rigor estruturante adensa, transformando os locais vividos em espelhos de uma vivência de solidão onde nos reconhecemos. Aí, a pintura de Maluda encontra plena justificação de modernidade estética e de atualidade sociológica.

Retratos da terra que habitamos, os seus quadros retratam nos a nossa verdade que ocultamos. Aí, também as suas paisagens passam da representação à relação do mistério, subjacente no desnudar das aparências festivas. A nudez plástica das paisagens de Maluda é imagem desocultada de algo que as palavras não sabem e onde a sua pintura reencontra a sabedoria imemorial das autênticas realizações artísticas. O ser moderno é sempre a procura dessa antiquíssima eloquência. 


Fernando Pernes, in Catálogo da Exposição Individual na Galeria Dinastia, no Porto, em 1978



MaludaPorto II, Óleo sobre tela, 73x92cm, 1994, Colecção particular


“Vim do Oriente, onde nasce a luz; passei por África, onde aprendi a amar a vida; cheguei à Europa, onde estudei pintura na cidade das luzes; depois fixei-me em Lisboa. Gradualmente refiz o percurso labiríntico em direcção à luz. Cada passo revela, à sua maneira, esse jogo de sombras e de luz que é a vida e a morte, a sabedoria e a ignorância. Eu pinto. É uma aventura que não troco por nenhuma outra.”

Maluda, in Revista Galeria de Arte, nº 5, Julho/Agosto de 1996



MaludaPorto IV, Óleo sobre tela, 50x60cm, 1994, Colecção particular



"Os quadros de Maluda são um hino, um louvor à vida, ou seja à construção do abrigo humano". 




Maluda, Foto de Augusto Cabrita, Lisboa, 1973


Maria de Lourdes Ribeiro, conhecida por Maluda  (Goa, Goa Norte, Pangim, 15 de novembro de 1934 — Lisboa, 10 de fevereiro de 1999) foi uma pintora portuguesa.
Embora experimentando vários géneros, incluindo retratos, serigrafias, tapeçarias, cartazes, painéis murais, ilustrações e selos de correio, o cerne principal da pintura de Maluda está muito voltado para a síntese da paisagem urbana, no que a sua arte segue, conceptualmente, Paul Cézanne (1839-1906), o mestre do Impressionismo. Ou, como escreveu Fernando Pernes, a sua arte representa «um sistemático decantamento da experiência cezanniana».
Os quadros que pintava eram baseados principalmente nas cidades, nomeadamente na pintura de paisagens urbanas, janelas e vários outros elementos arquitetónicos. A notoriedade das suas obras pictóricas aparentemente mais simples (algumas utilizadas em selos oficiais por encomenda dos Correios portugueses), ao mesmo tempo que a promovia a uma das mais populares pintoras portuguesas das últimas décadas do século XX artístico português, também teve o efeito negativo de encobrir uma vasta obra de criação gráfica mais complexa. Na sua carreira, Maluda efetuou 24 exposições individuais e está representada em vários museus, entre os quais os da Fundação Calouste Gulbenkian e do Centro Cultural de Belém mas também em várias coleções particulares em Portugal e noutros países. (Daqui)

"A Lua de Londres" - Poema de João de Lemos


John Atkinson Grimshaw (British, 1836-1893), Reflexões sobre o rio Tâmisa, Westminster, 1880.



A Lua de Londres


É noite. O astro saudoso 
rompe a custo um plúmbeo céu, 
tolda-lhe o rosto formoso 
alvacento, húmido véu, 
traz perdida a cor de prata, 
nas águas não se retrata, 
não beija no campo a flor, 
não traz cortejo de estrelas, 
não fala de amor às belas, 
não fala aos homens de amor.

Meiga Lua! Os teus segredos 
onde os deixaste ficar? 
Deixaste-os nos arvoredos 
das praias de além do mar? 
Foi na terra tua amada, 
nessa terra tão banhada 
por teu límpido clarão? 
Foi na terra dos verdores, 
na pátria dos meus amores, 
pátria do meu coração!

Oh! que foi!... Deixaste o brilho 
nos montes de Portugal, 
lá onde nasce o tomilho, 
onde há fontes de cristal; 
lá onde viceja a rosa, 
onde a leve mariposa 
se espaneja à luz do Sol; 
lá onde Deus concedera 
que em noite de Primavera 
se escutasse o rouxinol.

Tu vens, ó Lua, tu deixas 
talvez há pouco o país 
onde do bosque as madeixas 
já têm um flóreo matiz; 
amaste do ar a doçura, 
do azul e formosura, 
das águas o suspirar. 
Como hás-de agora entre gelos 
dardejar teus raios belos, 
fumo e névoa aqui amar?

Quem viu as margens do Lima, 
do Mondego os salgueirais; 
quem andou por Tejo acima, 
por cima dos seus cristais; 
quem foi ao meu pátrio Douro 
sobre fina areia de ouro 
raios de prata esparzir 
não pode amar outra terra 
nem sob o céu de Inglaterra 
doces sorrisos sorrir.

Das cidades a princesa 
tens aqui; mas Deus igual 
não quis dar-lhe essa lindeza 
do teu e meu Portugal. 
Aqui, a indústria e as artes; 
além, de todas as partes, 
a natureza sem véu; 
aqui, ouro e pedrarias, 
ruas mil, mil arcarias; 
além, a terra e o céu!

Vastas serras de tijolo, 
estátuas, praças sem fim 
retalham, cobrem o solo, 
mas não me encantam a mim. 
Na minha pátria, uma aldeia, 
por noites de lua cheia, 
é tão bela e tão feliz!... 
Amo as casinhas da serra 
com a Lua da minha terra, 
nas terras do meu país.

Eu e tu, casta deidade, 
padecemos igual dor; 
temos a mesma saudade, 
sentimos o mesmo amor. 
Em Portugal, o teu rosto 
de riso e luz é composto; 
aqui, triste e sem clarão. 
Eu, lá, sinto-me contente; 
aqui, lembrança pungente 
faz-me negro o coração.

Eia, pois, ó astro amigo, 
voltemos aos puros céus. 
Leva-me, ó Lua, contigo, 
preso num raio dos teus. 
Voltemos ambos, voltemos, 
que nem eu nem tu podemos 
aqui ser quais Deus nos fez; 
terás brilho, eu terei vida, 
eu já livre e tu despida 
das nuvens do céu inglês. 


João de Lemos , em 'Impressões e Recordações " 



John Atkinson Grimshaw, London Bridge 



“O que seriam os desertos da vida sem as brilhantes miragens dos nossos pensamentos!”

sábado, 27 de junho de 2015

"Voltar ao Passado" - por Anatole France


Cromeleque dos Almendres, VI, V e III milénios a.C., Évora, Portugal.



Voltar ao Passado



«E se procurarem saber porque é que todas as imaginações humanas, frescas ou murchas, tristes ou alegres, se voltam para o passado, curiosas de nele penetrarem, acharão sem dúvida que o passado é o nosso único passeio e o único lugar onde possamos escapar dos nossos aborrecimentos quotidianos, das nossas misérias, de nós mesmos. O presente é turvo e árido, o futuro está oculto.»



Anatole France, in 'A Vida em Flor'



 Menir 64, com relevos de círculos e raquetas. 
O Cromeleque e o Menir dos Almendres (Ver)


"Guerra" - Poema de Cecília Meireles


El Aquelarre ou El Gran Cabrón ("O grande Bode") (1820-1823), pintura mural a óleo deslocada para tela, 
140 x 438 cm, Museu do Prado, uma das pinturas negras de Goya, visão fantástica e horripilante.




Guerra

Tanto é o sangue
que os rios desistem de seu ritmo,
e o oceano delira
e rejeita as espumas vermelhas.

Tanto é o sangue
que até a lua se levanta horrível,
e erra nos lugares serenos,
sonâmbula de auréolas rubras,
com o fogo do inferno em suas madeixas.

Tanta é a morte
que nem os rostos se conhecem, lado a lado,
e os pedaços de corpo estão por ali como tábuas sem uso.

Oh, os dedos com alianças perdidos na lama...
Os olhos que já não pestanejam com a poeira...
As bocas de recados perdidos...
O coração dado aos vermes, dentro dos densos uniformes...

Tanta é a morte
que só as almas formariam colunas,
as almas desprendidas... — e alcançariam as estrelas.

E as máquinas de entranhas abertas,
e os cadáveres ainda armados,
e a terra com suas flores ardendo,
e os rios espavoridos como tigres, com suas máculas,
e este mar desvairado de incêndios e náufragos,
e a lua alucinada de seu testemunho,
e nós e vós, imunes,
chorando, apenas, sobre fotografias,
— tudo é um natural armar e desarmar de andaimes
entre tempos vagarosos,
sonhando arquiteturas.


Cecília Meireles, in 'Mar Absoluto' 

quinta-feira, 25 de junho de 2015

"Carta a Meus Filhos: Os Fuzilamentos de Goya" - de Jorge de Sena


Francisco de Goya, "O  3 de Maio de 1808", 1814Óleo sobre tela, Museu do Prado, em Madrid



Carta a Meus Filhos

Sobre os Fuzilamentos de Goya



Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-1a.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Jorge de Sena



Francisco de Goya"O 2 de Maio de 1808", 1814, em Madrid (La Carga de los Mamelucos)
Museu do Prado, em Madrid



"Os fuzilamentos do 3 de Maio", de Francisco Goya
Análise da Obra

O quadro "O  3 de Maio de 1808" foi pintado por Francisco de Goya em 1814, seis anos depois da dramática situação que narra, um dos momentos mais simbólicos da resistência espanhola à invasão das tropas de Napoleão Bonaparte. A obra é também conhecida como, "Os fuzilamentos da montanha do Príncipe Pio" ou "Os fuzilamentos de três de Maio", nome pelo qual é habitualmente conhecido.
A este quadro liga-se um outro, "O 2 de Maio de 1808" (pintado igualmente em 1814), que relata o primeiro episódio deste acontecimento, ocorrido na véspera, e presumivelmente presenciado pelo pintor. Na manhã de 2 de maio, o tenente de Napoleão, o general Murat, seguido por uma coluna de cavalaria, foi atacado por um grupo de populares armados, enquanto atravessava a Porta do Sol em Madrid. Tendo rapidamente controlado a situação, os franceses, como represália pelo levantamento popular, ordenaram o fuzilamento de inúmeros civis. Estes massacres tiveram lugar durante do dia seguinte, em vários pontos da cidade, junto ao Convento de Jesus, no Bom Retiro, na Casa de Campo, em Santa Bárbara, na Porta de Segóvia e na montanha do Príncipe Pio, entre outros locais.
Anteriormente à ocupação francesa Goya mantinha alguma simpatia pelas ideias liberais, embora fosse pintor da corte. Para este artista a chegada do exército de Napoleão e a consequente queda da monarquia pareceu representar, num primeiro momento, a possibilidade de introdução do liberalismo no seu país. No entanto, o carácter destruidor que esta ocupação assumiu, associada a sangrentos massacres, frustraram qualquer esperança de libertação.
Os horrores e sofrimentos provocados pelos confrontos entre espanhóis e franceses durante a guerra, aos quais Goya teve oportunidade de assistir de forma direta, foram temas que o atormentaram e contribuíram para que, próximo do final da sua carreira, se tornasse pessimista e cínico relativamente à capacidade de destruição e ao ódio que a espécie humana era capaz de alimentar.
Antecedendo estas duas pinturas, a série de gravuras "Desastres de la Guerra" (desastres da guerra), realizada sem 1810, condensa uma abordagem ainda mais acutilante e emotiva relativamente a este momento de loucura da humanidade.
Após a expulsão dos invasores franceses e restaurada a monarquia, Goya conseguiu que o novo governo regente lhe atribuísse um subsídio financeiro para a realização das duas telas comemorativas dos brutais massacres.
O quadro "O 3 de Maio de 1808" apresenta dimensões (266 por 406 centímetros), temática e estilo que lhe imprimem um impacto impressionante. A técnica utilizada, de caráter marcadamente expressionista, caracteriza-se por pinceladas rápidas e espontâneas, pela liberdade e violência do cromatismo e pelos barroquizantes e dramáticos contrastes de luz e sombra. Anunciada por alguns quadros anteriores, esta linguagem expressiva marcaria o derradeiro período criativo do pintor, aquele que mais profundamente o liga ao movimento romântico, do qual constituiu um dos mais brilhantes representantes.
Representando uma cena noturna, a composição apresenta dois setores, a coluna de soldados franceses, imersos numa sombra acentuada pela frieza das cores, que contrasta com o grupo de condenados, inundados por uma intensa luz definidora de flamejantes amarelos e vermelhos. O ponto focal do quadro é precisamente a camisa branca de um dos condenados.
Os quadros "O 2 de Maio de 1808"O 3 de Maio de 1808", executados a óleo, sobre tela, encontram-se expostos no Museu do Prado, em Madrid.

O 3 de maio de 1808. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora


quarta-feira, 24 de junho de 2015

"Termo" - Poema de Miguel Torga






Termo


Pára, imaginação!
Não há mais aventura, nem poesia.
A hora é de finados,
Com versos apagados
Na lareira onde a fogueira ardia.

Pára, é a lei.
Agora é só cansaço desiludido
E memória teimosa que entristece
O nada que acontece
E o muito acontecido.

Pára, porque findou
O tempo intemporal
Do amor e da graça concedida
A quem nele, no seu barro original,
Modela a própria vida.



Coimbra, 3 de Novembro de 1993


terça-feira, 23 de junho de 2015

"Noite de S. João" - Poema de Alberto Caeiro


Cidade do PortoPortugal (daqui)



Noite de S. João


Noite de S. João para além do muro do meu quintal. 
Do lado de cá, eu sem noite de S. João. 
Porque há S. João onde o festejam. 
Para mim há uma sombra de luz de fogueiras na noite, 
Um ruído de gargalhadas, os baques dos saltos. 
E um grito casual de quem não sabe que eu existo. 



Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos" 
Heterónimo de Fernando Pessoa




São João Baptista




São João do Porto


São João do Porto é uma festa popular que tem lugar de 23 para 24 de Junho na cidade do Porto, em Portugal. Oficialmente, trata-se de uma festividade católica em que se celebra o nascimento de São João Batista, que se centra na missa e procissão de São João no dia 24 de Junho, mas a festa do S. João do Porto tem origem no solstício de Junho e inicialmente tratava-se de uma festa pagã. As pessoas festejavam a fertilidade, associada à alegria das colheitas e da abundância. Mais tarde, à semelhança do que sucedeu com o Entrudo, a Igreja cristianizou essa festa pagã e atribui-lhe o S. João como Padroeiro. 
Trata-se de uma festa cheia de tradições, das quais se destacam os alhos-porros, usados para bater nas cabeças das pessoas que passam, os ramos de cidreira (e de limonete), usados pelas mulheres para pôr na cara dos homens que passam, e o lançamento de balões de ar quente(Daqui)


domingo, 21 de junho de 2015

"As Rosas" - poema de Machado de Assis


Peder Severin Krøyer, Roses, 1893 (Marie Krøyer seated in the deckchair in the garden by Mrs Bendsen's house.)



As Rosas


Rosas que desabrochais, 
Como os primeiros amores, 
Aos suaves resplendores 
Matinais; 

Em vão ostentais, em vão, 
A vossa graça suprema; 
De pouco vale; é o diadema 
Da ilusão. 

Em vão encheis de aroma o ar da tarde; 
Em vão abris o seio húmido e fresco 
Do sol nascente aos beijos amorosos; 
Em vão ornais a fronte à meiga virgem; 
Em vão, como penhor de puro afeto, 
Como um elo das almas, 
Passais do seio amante ao seio amante; 
Lá bate a hora infausta 
Em que é força morrer; as folhas lindas 
Perdem o viço da manhã primeira, 
As graças e o perfume. 
Rosas que sois então? – Restos perdidos, 
Folhas mortas que o tempo esquece, e espalha 
Brisa do inverno ou mão indiferente. 

Tal é o vosso destino, 
Ó filhas da natureza; 
Em que vos pese à beleza, 
Pereceis; 
Mas, não... Se a mão de um poeta 
Vos cultiva agora, ó rosas, 
Mais vivas, mais jubilosas, 
Floresceis. 



Machado de Assis,  in 'Crisálidas'




Marie Krøyer: Self-portrait (1889)




"O maior pecado, depois do pecado, é a publicação do pecado."


in"Quincas Borba" (1891), capítulo XXXII


sábado, 20 de junho de 2015

"Viver o Hoje" - Clarice Lispector



Nikolai Zaitsev, City of clocks



Viver o Hoje 


Nunca a vida foi tão atual como hoje: por um triz é o futuro. Tempo para mim significa a desagregação da matéria. O apodrecimento do que é orgânico como se o tempo tivesse como um verme dentro de um fruto e fosse roubando a este fruto toda a sua polpa. O tempo não existe. O que chamamos de tempo é o movimento de evolução das coisas, mas o tempo em si não existe. Ou existe imutável e nele nos transladamos. O tempo passa depressa demais e a vida é tão curta. Então — para que eu não seja engolido pela voracidade das horas e pelas novidades que fazem o tempo passar depressa — eu cultivo um certo tédio. Degusto assim cada detestável minuto. E cultivo também o vazio silêncio da eternidade da espécie. Quero viver muitos minutos num só minuto. Quero me multiplicar para poder abranger até áreas desérticas que dão a ideia de imobilidade eterna. Na eternidade não existe o tempo. Noite e dia são contrários porque são o tempo e o tempo não se divide. De agora em diante o tempo vai ser sempre atual. Hoje é hoje. Espanto-me ao mesmo tempo desconfiado por tanto me ser dado. E amanhã eu vou ter de novo um hoje. Há algo de dor e pungência em viver o hoje. O paroxismo da mais fina e extrema nota de violino insistente. Mas há o hábito e o hábito anestesia. 




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