domingo, 31 de julho de 2016

"Saudade" - Poema de Judith Teixeira


Charles West Cope, Home Dreams, 1869



Saudade 


Segue-me noite e dia o teu desejo!... 
Oiço a tua voz rúbida e cantante 
Suplicar-me a carícia do meu beijo, 
numa teima exigente e perturbante! 


E o meu corpo vencido, dominado, 
vai tombar doloroso, inconsciente, 
sobre a lembrança morna do passado 
- e fica-se a sonhar... perdidamente! 


Judith Teixeira, in 'Antologia Poética' 



quinta-feira, 28 de julho de 2016

"Lembra-te" - Poema de Mário Cesariny


Salvador Dalí, Mirage, 1946



Lembra-te


Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos


Mário Cesariny,
 in "Pena Capital"


sexta-feira, 22 de julho de 2016

"Edital" - Poema de Joaquim Namorado


Thomas Benjamin Kennington (1856 – 1916, English), The pinch of povertyArt Gallery of South Australia




Edital


Foi afixado 
nos locais do costume 
que É PROIBIDO MENDIGAR. 


Logo mão que se descobre 
escreveu a tinta por baixo 
MAS NÃO É PROIBIDO SER POBRE. 



in "A Poesia Necessária" 


domingo, 17 de julho de 2016

"O Anel de Vidro" - Poema de Manuel Bandeira


Jane Peterson  (1876-1965), Reading at a Cafe (ca.1920) 



O Anel de Vidro


Aquele pequenino anel que tu me deste,
– Ai de mim – era vidro e logo se quebrou…
Assim também o eterno amor que prometeste,
- Eterno! era bem pouco e cedo se acabou.


Frágil penhor que foi do amor que me tiveste,
Símbolo da afeição que o tempo aniquilou, –
Aquele pequenino anel que tu me deste,
– Ai de mim – era vidro e logo se quebrou…


Não me turbou, porém, o despeito que investe
Gritando maldições contra aquilo que amou.
De ti conservo no peito a saudade celeste…
Como também guardei o pó que me ficou
Daquele pequenino anel que tu me deste…





segunda-feira, 4 de julho de 2016

"Persistência da memória" - Pintura de Salvador Dalí


Salvador Dalí, A Persistência da Memória, 1931



Persistência da memória 
(pintura)


Em 1934, Salvador Dali, pintor catalão radicado em Paris e uma das figuras líderes do grupo surrealista, expõe numa galeria de Nova Iorque, o quadro "A persistência da memória", o que se tornaria num dos momentos fundamentais da sua carreira artística, responsável pelo incremento da sua notoriedade pública. De facto, os relógios moles - designação muitas vezes atribuída a este quadro - transformaram-se de imediato num dos ícones mais fortes e característicos da sua obra.
Na tela encontram-se representados três relógios que marcam diferentes horas tendo como fundo a paisagem de Porto Lligat, localizado no norte de Espanha, (memória de infância de Dali). Segundo o próprio autor, a solução formal dos relógios derivam de um queijo camembert que Dali se encontrava a observar enquanto pintava. As suas formas sensuais têm uma evidente conotação sexual, nomeadamente o que se encontra no centro do quadro, estendido sobre uma pedra que simula o retrato do artista.
Dali via os relógios como instrumentos normalizados e exatos que traduziam de forma objetiva a passagem do tempo. O facto de os dotar de formas orgânicas remete-os para o universo de prazer, recordando a dimensão fugidia do tempo e o sentido de ambiguidade que a evolução temporal introduz pelo cruzamento da perceção da realidade com a casualidade e inexplicabilidade da memória.
Esta pintura traduz o interesse do pintor pelas conquistas da ciência moderna, cruzando teorias mais abstratas de física, nomeadamente a relatividade de Einstein, que colocou em causa a ideia de espaço e tempo fixos, com as pesquisas de Freud relativamente ao inconsciente e à importância dos fenómenos dos sonhos. A duplicidade de sentido das imagens e as inúmeras interpretações que promovem assim como a tendência para a criação de cenas absurdas repletas de signos indecifráveis, levaram a Dali a designar esta forma de arte de crítica paranoica, em tudo oposta a uma visão racional do mundo. 
De um ponto de vista técnico, esta pintura, assim como grande parte das criações de Dali, perseguem um enorme virtuosismo e meticulosidade no desenho das formas e na representação dos pormenores, com objetivo de obter atmosferas dotadas de grande realismo, daí o frequente alinhamento desta fase criativa com o grupo dos surrealistas ilusionistas ou veristas. 
Contém uma grande quantidade de referências de carácter historicista, particularmente as referentes à pintura maneirista ou à enigmática e fantástica obra do flamengo Jerónimo Bosch. 
O quadro Persistência da Memória (também conhecida por Relógios Moles), foi pintado a óleo, aplicado sobre tela com 24,1 por 33 cm. Encontra-se exposto no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque.

Persistência da memória (pintura) in Artigos de apoio, Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2016.



domingo, 3 de julho de 2016

"Louvor do Aprender" - Poema de Bertolt Brecht


William Kay Blacklock (1872-1924), Sunlight and Shadow, c. 1900



Louvor do Aprender


Aprende o mais simples! Para aqueles 
Cujo tempo chegou 
Nunca é tarde de mais! 
Aprende o abc, não chega, mas 
Aprende-o! E não te enfades! 
Começa! Tens de saber tudo! 
Tens de tomar a chefia! 

Aprende, homem do asilo! 
Aprende, homem na prisão! 
Aprende, mulher na cozinha! 
Aprende, sexagenária! 
Tens de tomar a chefia! 

Frequenta a escola, homem sem casa! 
Arranja saber, homem com frio! 
Faminto, pega no livro: é uma arma. 
Tens de tomar a chefia. 

Não te acanhes de perguntar, companheiro! 
Não deixes que te metam patranhas na cabeça: 
Vê com os teus próprios olhos! 
O que tu mesmo não sabes 
Não o sabes. 
Verifica a conta: 
És tu que a pagas. 
Põe o dedo em cada parcela, 
Pergunta: Como aparece isto aqui? 
Tens de tomar a chefia. 


Bertolt Brecht,
in 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas' 
Tradução de Paulo Quintela



William Kay Blacklock, Summertime, 1914


"O homem implora a misericórdia de Deus mas não tem piedade dos animais, para os quais ele é um deus. Os animais que sacrificais já vos deram o doce tributo de seu leite, a maciez de sua lã e depositaram confiança nas mãos criminosas que os degolam. Ninguém purifica seu espírito com sangue. Na inocente cabeça do animal não é possível colocar o peso de um fio de cabelo das maldades e erros pelos quais cada um terá de responder."

Sidartha Gautama (Buda)


Siddhartha Gautama (Buda), o iluminado, foi um filósofo, professor e líder espiritual, fundador do Budismo. Terá nascido na Índia há cerca de dois mil e quinhentos anos (entre 520 e 480 a. C.), embora alguns eruditos situem esse acontecimento em tempos mais recuados. Pertencia a uma família real da tribo dos Shakya. A sua vinda foi anunciada à sua mãe, a rainha Maya, através de sonhos auspiciosos e, após o seu nascimento, o asceta Devala veio saudá-lo e nele reconheceu os sinais do futuro Buda. Para o prender à vida mundana, o pai de Siddharta Gautama proporcionava-lhe uma vida de luxo e de alegria, protegendo-o da visão da infelicidade humana. O encontro inesperado com a dor, sob a forma da doença, da velhice e da morte, iria contudo conduzi-lo a uma intensa demanda espiritual, abandonando família, mulher e filho. Esta procura assumiu a forma de um rigoroso ascetismo, que implicava jejuns e sofrimentos físicos. Todavia, ao constatar que toda essa mortificação não lhe trazia nenhuma resposta e que, pelo contrário, a debilidade física em que se encontrava o impediria de prosseguir, compreendeu que o verdadeiro caminho se encontrava algures no meio termo entre uma vida de ascetismo extremo e uma busca contínua de prazeres.

Siddharta teria finalmente atingido a Iluminação sentado em meditação debaixo de uma figueira, após o que permaneceu em silêncio durante quarenta e nove dias. Pronunciou o ensinamento que "pôs em movimento a roda do Dharma" (a Lei) diante dos primeiros cinco discípulos, no parque das Corças, em Sarnath. Nesse discurso, proferiu o princípio das Quatro Nobres Verdades: a verdade do sofrimento, a verdade da origem do sofrimento, a verdade do cessar do sofrimento e a verdade do caminho que conduz a esse cessar. Esse ensinamento está na base de todo o pensamento e prática budistas. De acordo com esta conceção, a infelicidade não surge como um fenómeno isolado, fruto do acaso ou do azar, integra-se sim num sistema de causa-efeito. E ao apreender a natureza interdependente de todos os fenómenos, o ser humano é induzido a uma prática não violenta e não nociva. Para quebrar a cadeia infinda de atos negativos que geram infelicidade e originam ainda mais atos negativos, é necessário dissipar os véus da ignorância, que obscurecem a visão da natureza última da realidade.

O método de libertação apresentado pelo Buda é chamado Veículo do Buda (Buddhayana) e compreende fundamentalmente dois sistemas ou duas vias: o Veículo Individual ou Hinayana (ou Theravada) e o Veículo Universal ou Mahayana. A principal diferença entre estes dois Veículos está na forma de interpretar o princípio budista do "desinteresse por si próprio" e na aplicação desse princípio. Para os praticantes do Hinayana, a renúncia assume um papel fundamental. Muitos assumem votos e obedecem a regras monásticas. A sua finalidade é a libertação pessoal. O Mahayana fundamenta-se no cultivar de um atitude altruísta, de volição de libertação universal, ou bodhicitta. 
O Veículo Tântrico, ou Vajrayana, de tradição tibetana, inclui-se no contexto do Mahayana, acentuando a coordenação subtil entre a mente e o corpo humanos e acelerando esse processo de "desobscurecimento". Cada um destes sistemas é visto como um caminho, um método que conduz à libertação final do sofrimento e não como um fim em si mesmo.

O Buda viveu até à idade de oitenta anos. O seu ensinamento, que consiste num método de descoberta da realidade para além das aparências e de libertação da cadeia de renascimentos sucessivos, está na base do Budismo, e foi coligido em escrituras que compreendem três domínios: os sermões (sutra), a disciplina monástica (vinaya) e os ensinamentos mais profundos (abhidharma).
O budismo possui entre 300 a 400 milhões de adeptos em todo o mundo.

Sidartha Gautama (Buda). In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora



William Kay Blacklock (1872-1924), A Dutch Idyll, 1914


sábado, 2 de julho de 2016

"O Verão estala por todos os poros" - Poema de João José Cochofel


Émile Munier, Girl with Basket of Cherries, 1877



O Verão estala por todos os poros


O Verão estala por todos os poros
da casca das árvores,
da língua dos cães,
das asas das cigarras,
do bico do peito das mulheres
tão acerado
que rasga o céu de calor
com um golpe preciso
de lanceta. 


Quatro Andamentos (1964)
In Obra Poética
Lisboa, Caminho, 1988






«Não posso ver, hoje, a fome crescente e a chacina entre nações sem comoção. 
E a emoção pelos seres, pelos outros, pela natureza, pelo Cosmos, gera o poema.»




sexta-feira, 1 de julho de 2016

"Elogio da Amada" - Poema de Ruy Belo


Frida Kahlo (1907-1954), Tree of Hope, Remain strong, 1946
(Autora de tantas obras fantásticas, quase tão fantásticas como a história da sua vida.
Uma vida cheia de paixão, tragédia, amor, ódio, dor e felicidade.)



Elogio da Amada


Ei-la que vem ubérrima numerosa escolhida 
secreta cheia de pensamentos isenta de cuidados 
Vem sentada na nova primavera 
cercada de sorrisos no regaço lírios 
olhos feitos de sombra de vento e de momento 
alheia a estes dias que eu nunca consigo 
Morde-lhe o tempo na face as raízes do riso 
começa para além dela a ser longe 
A amada é bem a infância que vem ter comigo 
Há pássaros antigos nos límpidos caminhos 
e mortes como antes nunca mais 
Ei-la já que se estende ampla como uma pátria 
no limiar da nossa indiferença 
Os nossos átrios são para os seus pés solitários 
Já todos nós esquecemos a casa dos pais 
ela enche de dias as nossas mãos vazias 
A dor é nela até que deus começa 
eu bem lhe sinto o calcanhar do amor 
Que importa sermos de uma só manhã e não haver em volta 
árvore mais açoitada pelos diversos ventos? 
Que importa partirmos num desmoronar de poentes? 
Mais triste mesmo a vida onde outros passarão 
multiplicando-lhe a ausência que importa 
se onde pomos os pés é primavera? 


Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates"


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