sexta-feira, 30 de setembro de 2016

"Casa Abandonada" - Poema de Francisco Bugalho





Casa Abandonada


Minha saudade não larga 
Certa casa abandonada. 
E sinto, na boca, amarga, 
Essa lágrima chorada 
Quando a deixei... 

Caía, de leve, a tarde... 
E, olhando para trás, vi 
Aquela porta fechada. 

Nesse momento, senti 
Pesar-me a fatalidade 
De toda a Vida passada. 

Arde 
Ainda, nos meus olhos, 
A luz do sol que brilhava 
Na janela. 
Era uma luz amarela; 
Uma luz de fim da tarde 
Que ainda trago nos olhos... 

Ficava ali, 
Por detrás da porta verde, 
Tudo o que a vida nos perde, 
Enquanto nos vai gastando... 

E triste e só me parti; 
Quem sabe que outros Destinos, 
Dolorosos ou divinos, 
Procurando... 


in "Margens"


quinta-feira, 29 de setembro de 2016

"Fímbria de Melancolia" - Poema de Vergílio Ferreira


Petrus van Schendel (1806-1870), By the Candlelight



Fímbria de Melancolia


Fímbria de melancolia, 
memória incerta da dor, 
ouço-a no gravador, 
no fado que não se ouvia 
quando ouvia o seu clamor. 

Porque era já no passado 
o presente dessa hora 
e que me ressoa agora 
a um outro mais alongado. 

Assim a dor que se sente 
no outro obscuro de nós 
nunca fala a nossa voz 
mas de quem de nós ausente, 
só a nós próprios consente 
quando não estamos nós 
mas mais sós do que ao estar sós. 

Onde então estamos nós?


Vergílio Ferreira,
in 'Conta-Corrente 1'


quarta-feira, 28 de setembro de 2016

"Sonetos do Regresso" - de Carlos de Oliveira


Henry Mosler, The Lost Cause, 1869



Sonetos do Regresso

I

Volto contigo à terra da ilusão, 
mas o lar de meus pais levou-o o vento 
e se levou a pedra dos umbrais 
o resto é esquecimento: 
procurar o amor neste deserto 
onde tudo me ensina a viver só 
e a água do teu nome se desfaz 
em sílabas de pó 
é procurar a morte apenas, 
o perfume daquelas 
longínquas açucenas 
abertas sobre o mundo como estrelas: 
despenhar no meu sono de criança 
inutilmente a chuva da lembrança. 

II 

Acordar, acender 
o rápido lampejo 
na água escusa onde rola submersa 
como o lodo no Tejo 
a vida informe, peso dúbio 
desse cardume denso ou leve 
que nasce em mim para morrer 
no mar da noite breve; 
dormir o pobre sono 
dos barbitúricos piedosos 
e acordar, acender 
os tojos caudalosos 
nesta areia lunar 
ou, charcos, nunca mais voltar.


in 'Cantata'



Ana Moura - Tens os olhos de Deus


terça-feira, 27 de setembro de 2016

"Mãe" - Poema de António Correia de Oliveira


Camille Pissarro, Entrée du village de Voisins (1872)



Mãe


Olha, meu filho! quando, à aragem fria 
De algum torvo crepúsculo, encontrares 
Uma árvore velhinha, em modo e em ares 
De abandono e outonal melancolia, 

Não passes junto dela nesse dia 
E nessa hora de bênçãos, sem parares; 
Não vás, sem longamente a contemplares: 
Vida cansada, trémula e sombria! 

Já foi nova e floriu entre esplendores: 
Talvez em derredor, dos seus amores 
Inda haja filhos que lhe queiram bem... 

Ama-a, respeita-a, ampara-a na velhice; 
Sorri-lhe com bondade e com meiguice: 
— Lembre-te, ao vê-la, a tua própria Mãe! 


in 'Antologia Poética'




"Humilde é a pessoa que não afasta de si a crença do Infinito, a realidade das suas pequenas pegadas na vida - e não aquela que se desmerece, que insulta o seu corpo e a sua alma, que se enfurece contra si mesma. Aceitar a sua humilhação é consentir na humilhação do seu próprio Deus."



segunda-feira, 26 de setembro de 2016

"Chamar a si todo o céu com um sorriso" - Poema de E. E. Cummings




Chamar a si todo o céu com um sorriso


que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas 
aves que são os segredos da vida 
o que quer que cantem é melhor do que conhecer 
e se os homens não as ouvem estão velhos 

que o meu pensamento caminhe pelo faminto 
e destemido e sedento e servil 
e mesmo que seja domingo que eu me engane 
pois sempre que os homens têm razão não são jovens 

e que eu não faça nada de útil 
e te ame muito mais do que verdadeiramente 
nunca houve ninguém tão louco que não conseguisse 
chamar a si todo o céu com um sorriso 


in "livro de poemas" 
Tradução de Cecília Rego Pinheiro


domingo, 25 de setembro de 2016

"Não Voltarás" - Poema de José Manuel Mendes


Mota Urgeiro, Pôr do sol no rio



Não Voltarás


não voltarás 
olhando as ruas 
na vidraça nua os zimbros 
da terra ocre 

moras secreta nestes barros 
tua flauta canta nas montanhas 
pedras e trepadeiras se enroscam 
perto do teu rosto 
e são de 
água 

sabes plantar o odor 
dos frutos 
tangerina limão 
pássaras orvalho 
a nervura das manhãs 
e o lume dos poemas 
quente metalurgia 
das palavras 

como ontem (tu eras morta) 
prolonga-te nestas mãos 
no maio das rotas 
de abril 
tecidas 


 in 'Rosto Descontínuo'



Mota Urgeiro, Outono na Cova da Beira



"Duas folhas na sandália 
o outono
também quer andar"


(Haikai)


sábado, 24 de setembro de 2016

"Ante a Paisagem" - Poema de Alfredo Guisado


Jesus Guido, Outono no Ribatejo



Ante a Paisagem


Eu fujo da Paisagem. Tenho medo. 
Os pinheirais são em marfim bordados. 
Sou paisagem-cetim num olhar quedo, 
Oiro louco sonhando cortinados. 

Fujo de mim porque já sou Paisagem. 
Procura-me Satã no meu chorar... 
Seus passos, o ruído da folhagem. 
Cimos de lírios velhos de luar. 

As tuas mãos fechadas e desertas, 
Janelas para o jardim, jamais abertas, 
Fiam de mármore um correr de rios... 

E os teus olhos cansados de saudades. 
Eunucos possuindo divindades... 
Hora-luar a de teus olhos frios... 


in 'Elogio da Paisagem'


"É Noite, Mãe" - Poema de António Salvado


Johan Krouthén, 1858-1932



É Noite, Mãe


As folhas já começam a cobrir 
o bosque, mãe, do teu outono puro... 
São tantas as palavras deste amor 
que presas os meus lábios retiveram 
pra colocar na tua face, mãe!... 

Continuamente o bosque se define 
em lividez de pântanos agora, 
e aviva sempre mais as desprendidas 
folhas que tornam minha dor maior. 
No chão do sangue que me deste, humilde 
e triste, as beijo. Um dia para contigo 
terei sido cruel: a minha boca, 
em cada latejar do vento pelos ramos, 
procura, seca, o teu perdão imenso... 

É noite, mãe: aguardo, olhos fechados, 
que uma qualquer manhã me ressuscite!... 



in "Difícil Passagem"


sexta-feira, 23 de setembro de 2016

"As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões" - Poema de Daniel Faria



As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões


As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões 
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo, 
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados 
Ao peso dos pássaros que se abrigam. 

É à janela dos filhos que as mulheres respiram 
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas 
Transformam-se em escadas 

Muitas mulheres transformam-se em paisagens 
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram 
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem 
Cheias de rebentos 

As mulheres aspiram para dentro 
E geram continuamente. Transformam-se em pomares. 
Elas arrumam a casa 
Elas põem a mesa 
Ao redor do coração. 



 Homens Que São Como Lugares Mal Situados (1998)


quinta-feira, 22 de setembro de 2016

"Sofro, Lídia, do medo do destino" - Poema de Ricardo Reis


Henry Mosler (American artist, 1841-1920),  Just Moved



Sofro, Lídia, do medo do destino


Sofro, Lídia, do medo do destino. 
A leve pedra que um momento ergue 
As lisas rodas do meu carro, aterra 
Meu coração. 

Tudo quanto me ameace de mudar-me 
Para melhor que seja, odeio e fujo. 
Deixem-me os deuses minha vida sempre 
Sem renovar 

Meus dias, mas que um passe e outro passe 
Ficando eu sempre quase o mesmo, indo 
Para a velhice como um dia entra 
No anoitecer. 


Ricardo Reis, in "Odes" 
Heterónimo de Fernando Pessoa



Pintura de Henry Mosler



A Perfeita Liberdade de Espírito


Um espírito que toma consciência da discordância que sempre existe entre o que afirma e o que é verdadeiramente não pode mais desfazer-se de uma espécie de dúvida filosófica. Somos livres na medida em que conservamos um pensamento de fundo. Em todos os casos, a perfeita liberdade de espírito consiste num ato pelo qual ele compreende a absoluta impossibilidade em que está de encontrar a certeza na experiência. 


Jules Lagneau, in 'Curso Sobre o Juízo'


quarta-feira, 21 de setembro de 2016

"Humildade" - Poema de Francisco Bugalho


Wright Barker  (British, 1864-1941)



Humildade 


As águas beijei, 
As nuvens olhei, 
Às árvores cantei, 
Na sua beleza. 

Os bichos amei, 
Na sua bruteza, 
Na sua pureza, 
De forças sem lei. 

E porque os amei 
E os acompanhei, 
Não me senti rei 
Na Mãe-Natureza. 


in "Paisagem"



Wright Barker (British, 1864-1941), Dignity and Impudence



"Se falar com os animais eles falarão consigo e vocês vão conhecer-se um ao outro. Se não falar com eles, não os conhecerá, e o que não se conhece… teme-se!" 
E aquilo que tememos… destruímos!!! 


terça-feira, 20 de setembro de 2016

"Poemas da Infância" - de Manuel da Fonseca


Malthe EngelstedHos inspektøren, 1885



Poemas da Infância 
Segundo


Quando foi que demorei os olhos 
sobre os seios nascendo debaixo das blusas, 
das raparigas que vinham, à tarde, brincar comigo?... 
... Como nasci poeta 
devia ter sido muito antes que as mães se apercebessem disso 
e fizessem mais largas as blusas para as suas meninas. 
Quando, não sei ao certo. 

Mas a história dos peitos, debaixo das blusas, 
foi um grande mistério. 
Tão grande 
que eu corria até ao cansaço. 
E jogava pedradas a coisas impossíveis de tocar, 
como sejam os pássaros quando passam voando. 

E desafiava, 
sem razão aparente, 
rapazes muito mais velhos e fortes! 
E uma vez, 
de cima de um telhado, 
joguei uma pedrada tão certeira 
que levou o chapéu do Senhor Administrador! 
Em toda a vila 
se falou logo num caso de política; 
o Senhor Administrador 
mandou vir da cidade uma pistola, 
que mostrava, nos cafés, a quem a queria ver; 
e os do partido contrário 
deixaram crescer o musgo nos telhados 
com medo daquela raiva de tiros para o céu... 

Tal era o mistério dos seios nascendo debaixo das blusas! 


in 'Antologia Poética'


segunda-feira, 19 de setembro de 2016

"O perfume" - Poema de António Correia de Oliveira


Anna Palm de Rosa (Swedish, 1859–1924), A game of L'hombre in Brøndum's Hotel



O Perfume


O que sou eu? – O Perfume, 
Dizem os homens. – Serei. 
Mas o que sou nem eu sei... 
Sou uma sombra de lume!

Rasgo a aragem como um gume 
De espada: Subi. Voei.
Onde passava, deixei
A essência que me resume.

Liberdade, eu me cativo: 
Numa renda, um nada, eu vivo 
Vida de Sonho e Verdade!

Passam os dias, e em vão! 
– Eu sou a Recordação; 
Sou mais, ainda: a Saudade.


In Cem Poemas Portugueses do Adeus e da Saudade
Org. de José Fanha e José Jorge Letria
Lisboa, Terramar, 2002



Anna Palm de Rosa, "Kastellholmen, Stockholm" (The Citadel islet, Stockholm)



"As criaturas que habitam esta terra em que vivemos, sejam elas seres humanos ou animais, estão aqui para contribuir, cada uma com sua maneira peculiar, para a beleza e a prosperidade do mundo."



"Roteiro" - Poema de João Rui de Sousa


Pintura de Gleb Goloubetski



Roteiro


Meu jeito visionário — meu astrolábio.
Meu ser mirabolante — um alcatruz.
De variadas coisas fiz a minha esperança
e sempre em várias coisas vi a minha cruz.

Aos padrões que em vários pontos encontrei
na rota íntima de vestes tropicais
eu dei as mãos, serenas e intactas,
as minhas dores mais certas e reais.

Nos vários sítios que — abismos —
toldaram minha voz por um olhar,
eu evitei o perigo e os prejuízos
à voz feita de calma, meu cantar.

Aos rasgos que, de outrora, evocados
foram sempre pelo seu valor,
eu dei a minha tez de dúvida e de espanto,
o meu silêncio amargo, o meu calor,

E aos pontos cardeais que em volta, vacilantes,
desalentavam já meu ser cativo,
parei o gesto, roubei o pólo sul da esperança
como lembrança para um dia altivo.


Pintura de Gleb Goloubetski



"Só numa situação concreta sabemos o que realmente somos."




domingo, 18 de setembro de 2016

"Há uma mulher a morrer sentada" - Poema de Daniel Faria


Alfred Chantrey Corbould (British, 1852 – 1920), A Girl Reading in a Sailing Boat, 1869 



Há uma mulher a morrer sentada


Há uma mulher a morrer sentada 
Uma planta depois de muito tempo 
Dorme sossegadamente 
Como cisne que se prepara 
Para cantar 

Ela está sentada à janela. Sei que nunca 
Mais se levantará para abri-la 
Porque está sentada do lado de fora 
E nenhum de nós pode trazê-la para dentro 

Ela é tão bonita ao relento 
Inesgotável 

É tão leve como um cisne em pensamento 
E está sobre as águas 
É um nenúfar, é um fluir já anterior 
Ao tempo 

Sei que não posso chamá-la das margens 


in "Dos Líquidos"


sábado, 17 de setembro de 2016

"Sociedade" - Poema de Carlos Drummond de Andrade


Malthe Odin Engelstedt (Danish, 1852–1930), The Game of Bridge 



Sociedade


O homem disse para o amigo: 
— Breve irei a tua casa 
e levarei minha mulher. 

O amigo enfeitou a casa 
e quando o homem chegou com a mulher, 
soltou uma dúzia de foguetes. 

O homem comeu e bebeu. 
A mulher bebeu e cantou. 
Os dois dançaram. 
O amigo estava muito satisfeito. 

Quando foi hora de sair, 
o amigo disse para o homem: 
— Breve irei a tua casa. 
E apertou a mão dos dois. 

No caminho o homem resmunga: 
— Ora essa, era o que faltava. 
E a mulher ajunta: — Que idiota. 

— A casa é um ninho de pulgas. 
— Reparaste o bife queimado? 
O piano ruim e a comida pouca. 

E todas as quintas-feiras 
eles voltam à casa do amigo 
que ainda não pôde retribuir a visita. 


in 'Alguma Poesia'


sexta-feira, 16 de setembro de 2016

"Sextina" - Poema de Manuel Alegre


Francis Picabia, The Dance at the Spring, 1912, oil on canvas, Philadelphia Museum of Art



Sextina


Tanto de amor se disse que não sei 
Como dizer que amor é outra coisa 
Que nem só o teu corpo me fez rei 
Nem tua alma só me deu a rosa 
Tanto se disse menos o dizer 
Esta paixão que é de todo o ser 

E ao fim do ser ainda a outra coisa 
Mais do que corpo e alma e ser não ser 
Como entre vida e morte e sexo e rosa 
Um morrer e um nascer. Como dizer 
Este reino em que sou o servo e o rei 
Como dizer se tanto e ainda não sei 

Como dizer este Elsenor sem rei 
Se tanto disse menos o dizer 
Esta paixão que sabe o que não sei 
Em Elsenor de ser e de não ser 
Senão que amor ainda é outra coisa 
Como entre o corpo e a morte o anjo e a rosa 

Como dizer do sexo a alma e a rosa 
Se amor é mais que ter e mais que ser 
Um morrer ou nascer ou outra coisa 
Entre a vida e a morte e um não dizer 
Senão que disse tanto e ainda não sei 
Como dizer de amor se servo ou rei 

Se disse tanto menos o dizer 
Esta paixão da alma que não sei 
Se é o sexo ou seu anjo ou só o ser 
Entre a vida e a morte o breve rei 
Deste reino que fica à beira-rosa 
Do teu corpo onde amor é outra coisa 

Como dizer de amor ser e não ser 
Se amor mais do que amor é outra coisa 
Mais do que ser e ter mais que dizer 
Um morrer e nascer entre anjo e rosa 
Ou entre o corpo e a alma o servo e o rei 
Como dizer se tanto e ainda não sei 



in "Chegar Aqui" (1984)


quinta-feira, 15 de setembro de 2016

"Onde o Homem não Chega" - Poema de Fernanda de Castro


Ilustração de Arthur Sarnoff



Onde o Homem não Chega


Onde o Homem não chega tudo é puro, 
dessa pureza da primeira infância. 
Tudo é medida, ritmo, concordância, 
tudo é claro e auroral: a noite, o escuro. 

E nem o vendaval é dissonância 
mas promessa de sol e de futuro. 
Quem levantou esse primeiro Muro 
que do perto fez longe, ergueu distância? 

Foi o Homem, com suas mãos de barro, 
com suas mãos perjuras, fel e sarro 
de inútil sofrimento e vil prazer. 

Não é tarde, porém: sacode a lama, 
ergue o facho, levanta a Deus a chama 
e recomeça: acabas de nascer. 


in "Ronda das Horas Lentas"




Ilustração de Arthur Sarnoff



"A primeira adoração dos ídolos foi sem dúvida o medo das coisas, mas também, relacionado com este, o medo da necessidade das coisas e, relacionado com isso, o medo da responsabilidade por elas. Essa responsabilidade parecia tão gigantesca, que nem mesmo se ousou impô-la a um único ser humano, pois, pela mera mediação de um ser, a responsabilidade humana não teria sido aliviada o suficiente, o convívio com um ser apenas teria sido contaminado de uma maneira mais profunda ainda pela responsabilidade; por isso, deu-se a cada coisa a responsabilidade por si mesma, mais: deu-se a essas coisas, também, uma medida da responsabilidade para o ser humano." 


Franz Kafka, in 'Os Aforismos de Zurau ou Reflexões no Pecado, Esperança, Sofrimento, e o Caminho da Verdade' 




Ilustração de Arthur Sarnoff


"Crueldade é algo que está presente em famílias humanas por incontáveis eras. É quase impossível alguém que é cruel com os animais ser generoso com as crianças. Se se permite às crianças a crueldade contra seus animais de estimação ou outros que cruzem seus caminhos, elas aprenderão facilmente a ter o mesmo prazer com a miséria de seus semelhantes. Essas tendências podem facilmente levá-las ao crime."


Frederic McGrand, in "The extended circle: a dictionary of humane thought"




Ilustração de Arthur Sarnoff


"Os animais selvagens nunca matam por diversão. O homem é a única criatura para quem a tortura e a morte de seus semelhantes são divertidas."



quarta-feira, 14 de setembro de 2016

"Vivemos de Matar" - por Rafael Chirbes


Charles Spencelayh (1865-1958), The Crab




Vivemos de Matar



Os vivos alimentam-se e engordam às custas dos mortos. É a essência da natureza. Basta ver os documentários sobre a vida selvagem na televisão, aves corpulentas arrancando com o bico as tripas das vítimas, disputando-as entre si; a leoa de focinho enterrado na carne ensanguentada da zebra. Mas nem é preciso ir tão longe: as prateleiras dos supermercados são deprimentes cemitérios: paletes de cordeiro morto, ossos e costeletas de boi esfaqueado, vísceras de vaca sacrificada, lombo de porco eletrocutado, tudo isso em embalagens fabricadas com restos de árvores abatidas. Vivemos do que matamos. Vivemos de matar, ou do que nos é servido morto: os herdeiros consomem os despojos do predecessor, e isso nutre-os, fortalece-os no momento de levantar voo. Quanto maior a quantidade de carne consumida, mais alto e majestoso o voo. E mais elegante, claro. Nada que seja alheio às regras da natureza. 


Rafael Chirbes, in "Na Margem"







"Podemos muito bem perguntar-nos: o que seria do homem sem os animais? Mas não o contrário: o que seria dos animais sem o homem?" 




segunda-feira, 12 de setembro de 2016

"Canção Grata" - Poema de Carlos Queirós Ribeiro


Paul-Élie Ranson , Pommier aux fruits rouges, 1902, huile sur toile, 85,1 x118,7cm




Canção Grata 


Por tudo o que me deste: 
— Inquietação, cuidado, 
(Um pouco de ternura? É certo, mas tão pouco!) 
Noites de insónia, pelas ruas, como um louco... 
— Obrigado, obrigado! 

Por aquela tão doce e tão breve ilusão. 
(Embora nunca mais, depois que a vi desfeita, 
Eu volte a ser quem fui), sem ironia: aceita 
A minha gratidão! 

Que bem me faz, agora, o mal que me fizeste! 
— Mais forte, mais sereno, e livre, e descuidado... 
Sem ironia, amor: — Obrigado, obrigado 
Por tudo o que me deste! 



in 'Obra Poética'


domingo, 11 de setembro de 2016

"Do Fim dos Segredos" - Poema de Júlio Pomar


Paweł Kuczynski (2014), Confession



Do Fim dos Segredos


Quando se conta a outrem um segredo este 
desmaia: a palavra 
torna-se pele 
sem leão lá dentro. 

Não é mais segredo e não o sendo 
finge ser lembrança 
de fabrico imperfeito: 
um cliqueti no silêncio escancara 

a dantes inamovível porta 
e virada a página acha-se apenas 
uma moeda 
que não corre já. 


in "TRATAdoDITOeFEITO"




«Não me importa nada que me critiquem. Exatamente como não me importa nada quando me elogiam. Tanto me faz que uma pessoa me elogie como me censure - eu considero aquilo como uma opinião pessoal e não comparo com coisa nenhuma porque eu próprio não tenho opinião pessoal a meu respeito. Não me sinto nem herói, nem criminoso, sinto que vivo, sinto que sou.» 



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