quarta-feira, 2 de novembro de 2016

"Os que morrem por amor" - Crónica de Agustina Bessa Luís


Abbott Fuller Graves, Still Life with Roses, 1890


Os que morrem por amor


Os que morrem por amor continuam a pertencer à lenda. Os seus funerais arrastam uma multidão piedosa, tal como decerto aconteceu na cidade de Verona, há seiscentos anos. Ainda que nesse tempo os costumes fossem bastante fáceis, a prática erótica da juventude era muito mais modesta. Refletindo melhor, é de crer que a própria licença produzisse um tipo de pessoas orgulhosas da sua intimidade afetiva; o que, se não é virtude, algo se parece. Este orgulho da própria intimidade conduz a uma atitude hostil em relação a tudo o que pode burocratizar os sentimentos. Há um sociólogo inclinado a crer que existe muito de romantismo burocrático no amor moderno. É possível. E quando aparecem os contestatários dessa espécie de burocracia, como são os Romeus e Julietas do Candal, a cidade fica-lhes agradecida. No campo dos afetos trata-se da luta obstinada que resulta do choque entre a vida privada e o regime governativo; entre um corpo animado de impulsos e uma autoridade explicada por leis. Através de inquéritos feitos nos meios juvenis para inquirir das transformações que se efectuam no âmbito das relações afectivas, deparam-se declarações bastante confusas. Elas pairam entre uma sinceridade elementar que descura a experiência e teorias perfeitamente viciadas nos lugares-comuns do século. Entre outras coisas, afirmam que o amor é o último terreno não colonizado e, por isso, o único que oferece alguma possibilidade de salvação. Tudo isto não passa de rumor e timidez moral. Tem pouco conteúdo e pouca verdade. 

O amor está relacionado com a memória. Ama-se só o que nos recorda alguma coisa ou alguém. A memória é um estado de afeição. Em amor, a improvisação não existe. Ele é a pintura emocional duma pintura mental. Portanto, é o terreno mais colonizado que existe. Mas também é certo que o amor se encontra cada vez mais ligado ao processo de humanização. A sensibilidade é uma criação do homem; e o amor é uma ocupação da sensibilidade. Nas sociedades primitivas havia instinto maternal e instinto de conservação. O amor resulta do equilíbrio dos dois. Em dados momentos históricos dá-se uma espécie de regresso e a violenta reacção contra a sensibilidade como invenção produtora de civilização. Procura-se o tom do entusiasmo na libertação do instinto. Mas o verdadeiro entusiasmo é sóbrio. As épocas aparentemente muito inovadoras são épocas que escondem a perturbação e o medo, atrás dum falso entusiasmo. As grandes ideias partem da energia eficaz, e não da agitação mais ou menos vegetal. 
De repente, um jovem mata-se por amor. E aquela turba, que estava entregue aos seus empregos e aos seus negócios, fica suspensa duma interrogação: «É possível que alguém se mate por amor numa sociedade já afastada dos traumatismos da repressão?» É possível. Até porque a extrema libertação dos costumes conduz à instabilidade quanto ao comportamento do outro. É um facto. Desejamos a nossa liberação, mas não a de quem nós amamos. 

Mas, sobretudo, morrer por amor é exemplo duma realidade sensível. Uma realidade sensível recebe a sua existência pelo que participa na natureza das coisas e das pessoas. Isto é o amor. E por isto mesmo havia um pouco de alegria discreta na multidão que enchia o jardim junto da morgue. O entusiasmo quebrava o luto e ardia até ao alto das frondosas árvores. 


Agustina Bessa-Luís, in 'Crónica da Manhã, Outubro 1978'




"Como fica forte uma pessoa quando está segura de ser amada!" 

in Letter from Sigmund Freud to Martha Bernays, June 27, 1882.


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