quinta-feira, 17 de agosto de 2017

"Qualquer coisa de paz" - Poema de Fernando Echevarría


Frédéric BazilleVue de village (1868), huile sur toile (130 × 89 cm),



Qualquer coisa de paz


Qualquer coisa de paz. Talvez somente 
a maneira de a luz a concentrar 
no volume, que a deixa, inteira, assente 
na gravidade interior de estar. 

Qualquer coisa de paz. Ou, simplesmente, 
uma ausência de si, quase lunar, 
que iluminasse o peso. E a corrente 
de estar por dentro do peso a gravitar. 

Ou planalto de vento. Milenária 
semeadura de meditação 
expondo à intempérie a sua área 

de esquecimento. Aonde a solidão, 
a pesar sobre si, quase que arruína 
a luz da fronte onde a atenção domina. 


Fernando Echevarría, in "Figuras"


quarta-feira, 16 de agosto de 2017

"Vida Sempre" - Poema de Casimiro de Brito


Vincent van Gogh, Velho Triste (No Portão da Eternidade), 1890



Vida Sempre


Entre a vida e a morte há apenas 
o simples fenómeno 
de uma subtil transformação. A morte 
não é morte da vida. 
A morte não é inação, inutilidade. 
A morte é apenas a face obscura, 
mínima, em gestação 
de uma viagem que não cessa de ser. Aventura 
prolongada 
desde o porão do tempo. Projetando-se 
nas naves inconcebíveis do futuro. 

A morte não é morte da vida: apenas 
novas formas de vida. Nova 
utilidade. Outro papel a desempenhar 
no palco velocíssimo do mundo. Novo ser-se (comércio 
do pó) e não se pertencer. 
Nova claridade, respiração, naufrágio 
na máquina incomparável do universo. 


Casimiro de Brito, in "Solidão Imperfeita"



terça-feira, 15 de agosto de 2017

"Tempo" - Poema de Maria Teresa Horta



Joseph Wopfner (Áustria, 1843-1927), Heuernte



Tempo


Num atropelo 
foram passando os anos

Simulando vagares de eternidade 
a burilar os sonhos 
que sonhamos e a acrescentar 
saudades à saudade

Num sobressalto 
fomos tomando o gosto

Às infiéis constelações 
das nossas rimas 
no rasto de anjos e paixões 
feitas de fulgores e neblinas

Num alvoroço 
foi-se ganhando o tempo

Tecendo o poeta verso a verso 
o corpo da poesia acalentada 
no excesso e no gosto do colher 
sedento a seduzir cada palavra

Num tumulto 
fomos iludindo o nada

Na partilha astuciosa do prazer 
numa grande vontade adivinhada 
escrever com a língua portuguesa 
dizendo do país poema e asa




segunda-feira, 14 de agosto de 2017

"Quando o meu amor vem ter comigo" - Poema de Edward Estlin Cummings


Charles Courtney Curran (1861-1942), Lady with a Bouquet (Snowballs), 1890



Quando o meu amor vem ter comigo


Quando o meu amor vem ter comigo é 
um pouco como música, um 
pouco mais como uma cor curvando-se (por exemplo 
laranja) 

contra o silêncio, ou a escuridão...

a vinda do meu amor emite 
um maravilhoso odor no meu pensamento, 

devias ver quando a encontro 
como a minha menor pulsação se torna menos. 
E então toda a beleza dela é um torno 

cujos quietos lábios me assassinam subitamente, 

mas do meu cadáver a ferramenta o sorriso dela faz algo 
subitamente luminoso e preciso 

— e então somos Eu e Ela... 

o que é isso que o realejo toca 


E. E. Cummings, in "livrodepoemas" 
Tradução de Cecília Rego Pinheiro


sábado, 12 de agosto de 2017

Martha Graham - A Dança Moderna





"A dança é a linguagem escondida da alma."




Martha Graham (11 de maio de 1894, Condado de Allegheny, Pensilvânia – 1 de abril de 1991, Nova Iorque) foi uma dançarina e coreógrafa estadunidense que revolucionou a história da Dança Moderna.
O impacto que a dança de Martha Graham causou nos palcos é frequentemente comparado à influência que Picasso teve para a pintura em seu tempo, ou Stravinsky na música, ou Frank Lloyd Wright na arquitetura. As suas contribuições transformaram essa forma de arte, revitalizando e difundindo a dança ao redor do mundo.
Na sua busca por uma forma de expressar-se mais honesta e livremente, ela fundou a Martha Graham Dance Company, uma das mais conceituadas e antigas companhias de dança nos Estados Unidos.
Como professora, Graham treinou e inspirou gerações de grandes bailarinos e coreógrafos. Entre seus discípulos estão Alvin Ailey, Twyla Tharp, Paul Taylor, Merce Cunningham e incontáveis outros atores e dançarinos.
Ela colaborou com alguns dos mais conceituados artistas de seu tempo, como o compositor Aaron Copland e o escultor Isamu Noguchi. Ela inventou uma nova linguagem de movimento, usada para revelar a paixão, a raiva e o êxtase comuns à experiência humana. Ela dançou e coreografou por mais de 70 anos, e durante esse tempo foi a primeira dançarina a se apresentar na Casa Branca, viajar para o estrangeiro como embaixadora cultural, e receber o maior prémio civil do EUA: a Medalha Presidencial da Liberdade.
Em sua vida, ela recebeu homenagens que vão desde a Chave da Cidade de Paris até a Ordem da Coroa Preciosa do Império Japonês. Ela disse: "Passei toda a minha vida com a dança e sendo uma bailarina. É a vida que permite usá-la de uma forma muito intensa. Às vezes não é agradável. Às vezes é terrível. Mas, apesar disso, é inevitável." (Daqui)





"A Dança é, na minha opinião, muito mais do que um exercício, um divertimento, um ornamento, um passatempo social; na verdade, é uma coisa até séria e, sob certo aspeto, mesmo, uma coisa sagrada. Cada era que compreendeu a importância do corpo humano, ou que, pelo menos, teve a noção sensorial de sua estrutura, de seus requisitos, de suas limitações e da combinação de genialidade que lhe são inerentes, cultivou, venerou a Dança." 



A Tribute to Martha Graham


"Prova Documental" - Poema de Francisco Carvalho


James Tissot, Gentleman in a railway carriage, 1872



Prova Documental


Já assumi a solidão dos outros 
já provei do enigma insolúvel 
já calcei as botas do morto 
já tive segredo e foi de água abaixo. 

Já fugi ao encontro marcado 
já fui banido, já disse adeus 
já fui soldado, já fui rapsodo 
já tive inocência e foi de água abaixo. 

Já fui esperto, já fui afoito 
já puxei faca, já toquei pífaro 
já fui vaiado depois da briga 
já tive saudade e foi de água abaixo. 

Já fui árcade, já fui arcaico 
já fui pateta, já fui patético 
já perdi no jogo e na vida 
já tive amor e foi de água abaixo. 

Já tive pressa, já sentei praça 
já tive ouro, já tive prata 
já tive lenda, já tive fazenda 
já tive paz e foi de água abaixo. 

Já tive herdade, já fui deserdado 
já tive episódio, já tive epitáfio 
já levei o andor de Nosso Senhor 
já tive esperança e foi de água abaixo. 

Já tive mando, já corri mundo 
já fui a Roma e não quis ver o Papa 
já fui pra cama com Ana Bolena 
já tive infância e foi de água abaixo. 

Já fui Arlequim, já fui Pierrot 
já tive herança, já tive prosápia 
já tive estrela, já fui primogénito 
já tive cabelo e foi de água abaixo. 

Já fui feliz, já tive almofariz 
já fui a Belém, já comi vatapá 
já andei a cavalo no arco-íris 
já tive paisagem e foi de água abaixo. 

Já pesquei hipocampo de anzol 
já fui de trem ver o quebrar da barra 
já tive odalisca, já tive andaluza 
já tive memória e foi de água abaixo. 


Francisco Carvalho, in 'As Verdes Léguas'


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

"Nunca, por mais que viaje, por mais que conheça" - Poema de Álvaro de Campos


Émile Bernard (1868-1941), Boats at Pont-Aven, 1890, Private collection



Nunca, por mais que viaje, por mais que conheça 


Nunca, por mais que viaje, por mais que conheça
O sair de um lugar, o chegar a um lugar, conhecido ou desconhecido,
Perco, ao partir, ao chegar, e na linha móbil que os une,
A sensação de arrepio, o medo do novo, a náusea —
Aquela náusea que é o sentimento que sabe que o corpo tem a alma, 
Trinta dias de viagem, três dias de viagem, três horas de viagem — 
Sempre a opressão se infiltra no fundo do meu coração.


Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa



Émile Bernard, Breton Landscape, 1890-1891, Private collection 


"Descobri como é bom chegar quando se tem paciência. E para se chegar, onde quer que seja, aprendi que não é preciso dominar a força, mas a razão. É preciso, antes de mais nada, querer.

Amyr Klink in "Cem dias entre céu e mar‎" - Página 6, Publicado por Companhia das Letras, 1985 



Émile Bernard, The Harbor at Saint-Briac, 1887


"Hoje entendo bem meu pai. Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livro ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar do calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece, para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como imaginamos e não simplesmente como ele é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver... Il faut aller voir - é preciso ir ver! É preciso questionar o que se aprendeu. É preciso ir tocá-lo". (Daqui)

Amyr Klink, in "Mar sem fim: 360̊ ao redor da Antártica‎", Publicado por Companhia das Letras, 2000 



Émile BernardThe Cliffs of Pouldu, 1887, Private collection 


quinta-feira, 10 de agosto de 2017

"Na arca aberta o justo peca" - Poema de António Serrão de Castro


John Beaufain Irving (1825-1877), The Gossips, 1873



Na arca aberta o justo peca


Na arca aberta o justo peca, 
não em canastra fechada; 
mas vós da minha coitada 
fechada a fazeis caneca: 
vindes lá de seca e meca 
com tal pressa e furor tal, 
que fazeis, para meu mal, 
com mau termo e ruim modo, 
do meu queijo lama e lodo, 
e do meu pão cinza e sal. 

Quando as peras me levais, 
então para peras levo, 
pois vos pago o que não devo, 
e vós rindo vos ficais: 
se pera flamenga achais 
a comeis em português, 
e me fazeis d'essa vez, 
com estrondo e com arenga, 
os narizes à  flamenga 
muito mal em que me pez. 

Não vos escapam por pés 
minhas cerejas bicais, 
nem as ginjas garrafais, 
se as tenho alguma vez: 
porque mal, em que me pez, 
como cerejas se vão 
pelos pés à vossa mão 
e da vossa mão à minha, 
a cereja é marouvinha 
as ginjas galegas são. 

Passa hoje por lebre o gato, 
por perdiz passa o francelho 
por capão o galo velho, 
passa a gaivota por pato: 
por arraia passa o rato, 
mas é coisa que me encanta, 
que passando coisa tanta 
com mentira e com trapaça 
só a passa não me passa 
para baixo da garganta. 


António Serrão de Crasto, 
in 'Os ratos da Inquisição'

António Serrão de Crasto  nasceu em 1610 e faleceu em 1684. Poeta cristão-novo, foi acusado pela Inquisição e preso durante dez anos. Escreveu na prisão a obra 'Os ratos da Inquisição', publicada por Camilo Castelo Branco em 1883.


John Beaufain Irving (1825-1877), The Latest News, 1873



"Do fanatismo à barbárie não há mais que um passo."



quarta-feira, 9 de agosto de 2017

"Poema de Amor" - de Edmundo Bettencourt


François Batet (Espanha, 1921-2015)



Poema de Amor


A noite é cheia de vales e baías. 
E do meu peito aberto um rio largo de sangue... 
Águas densas, de correntes lentas, 
serpentes mortas a arrastarem-se. 
Águas? 
Águas negras, pastosas, alcatrão rolante. 
Mas águas puras, verde-claras, atraindo 
a margem donde os crocodilos fogem mastigando. 
Águas em transparências lucilantes, para cima, 
e as estrelas do mar, um polvo e um mefistófeles 
ficam no ar sobre ilhéus e lodosos calhaus 
que se descobrem. 
Plantas brancas e extáticas... 
Lágrimas... nuvens... e a cabeça, o perfil, 
os olhos, todo o corpo da mulher amada, a prostituta 
antes de virgem, que é bela e feia, velha e nova, 
e não conhece os filhos! 

O fogo envolve essa mulher amada 
e é um guindaste erguendo-a e atirando-a, 
enquanto dispersas pelo chão brilham mandíbulas 
naturalmente à espera... 


Edmundo Bettencourt, in 'Poemas Surdos'





"Por pior que seja a noite, amanhã é outro dia.."



terça-feira, 8 de agosto de 2017

"Por mostrar o poder da formosura" - Soneto de Bernardo de Brito


Axel Ender (1853 – 1920, Norwegian), Woman at lookout



Por mostrar o poder da formosura


Por mostrar o poder da formosura, 
que cativo me fez o peito isento, 
desenastrava Sílvia ao fresco vento 
os cabelos sobre uma fonte pura: 

E vendo ao natural sua figura 
tão bela no cristal húmido e lento 
sentiu grande paixão no pensamento, 
não vendo nele arder nova quentura. 

E largando a mão resplandecente, 
inquietou as águas sossegadas 
dizendo não sereis mais tão ditosas, 

Que pois com minha vista morre a gente, 
se com me ver não sois chamas tornadas 
é porque tendes frio de invejosas. 


Bernardo de Brito, in 'Sílvia de Lisardo'



Axel EnderGirl with flower bouquet



"A Juventude é a época de se estudar a sabedoria; a velhice é a época de a praticar."

(Jean Jacques Rousseau)



Axel Ender, The Shepherdess


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

"O Verão" - Poema de José Agostinho Baptista


Pintura de Alexander Averin



O Verão


Estás no verão,
num fio de repousada água, nos espelhos perdidos sobre
a duna.
Estás em mim,
nas obscuras algas do meu nome e à beira do nome
pensas:
teria sido fogo, teria sido ouro e todavia é pó,
sepultada rosa do desejo, um homem entre as mágoas.
És o esplendor do dia,
os metais incandescentes de cada dia.
Deitas-te no azul onde te contemplo e deitada reconheces
o ardor das maçãs,
as claras noções do pecado.
Ouve a canção dos jovens amantes nas altas colinas dos
meus anos.
Quando me deixas, o sol encerra as suas pérolas, os
rituais que previ.
Uma colmeia explode no sonho, as palmeiras estão em
ti e inclinam-se.
Bebo, na clausura das tuas fontes, uma sede antiquíssima.
Doce e cruel é setembro.
Dolorosamente cego, fechado sobre a tua boca.


Paixão e Cinzas (1992)
In Biografia
Lisboa, Assírio & Alvim, 2000



Pintura de Alexander Averin



"A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida."

(Vinicius de Moraes)


domingo, 6 de agosto de 2017

"Aquele Mar" - Poema de João de Barros


Consuelo Hernández, Praia da Figueira da Foz, 1990, Óleo em madeira, 103x68


Aquele Mar


Aquele mar da minha infância,
bom camarada e meu irmão
a sua voz, o seu olor, sua fragrância
tanto os ouvi e respirei
que trago em mim o seu largo ritmo,
seu ritmo forte,
como se as praias onde espuma
quase me fossem
praias sem fim dentro de mim
ocultas praias, largas praias
do tumultuoso coração…

Aquele mar
meu confidente de horas idas
tudo escutava e adivinhava
do meu pueril e ingénuo anseio.
Nada sonhei que o não dissesse
– frémito de alma, grito ou prece –,
às madrugadas e aos poentes,
ao sol, às nuvens, ao luar,
ora nascendo, ora morrendo
nos longos, longos horizontes
em que se perdia o meu olhar…

Aquele mar
na calma azul, no temporal,
nunca mentia: era um só beijo,
hálito puro, largo harpejo
que me entendia e respondia
no seu inquieto marulhar…
Moço e menino, solitário,
rochas, falésias, areais
eu coroava-os de alegria
nos meus passeios matinais.
Ou nalgum barco pescador,
velas abrindo a todo o pano,
do oceano então era senhor,
largava a escota, navegava,
no vão desejo de aventuras,
que não chegava a realizar…

Mas era meu, e eu pertencia-lhe,
àquele mar,
era seu filho, escravo e dono,
sorria à sua Primavera,
amava a luz do seu Outono,
o vivo lume dos estios
a violência dos Invernos
longos clamores de temporais.
Aflito voo das gaivotas
junto das negras penedias,
também como ele me perdias,
nas tardes tristes e sombrias,
na bruma gélida das noites…
E a eternidade então ouvia
humano sonho sempre esquecido
na eterna voz que fala o mar.


João de Barros


João de Barros


João de Barros, escritor, pedagogo e político português nasceu a 4 de fevereiro de 1881, na Figueira da Foz.
Concluiu, em 1904, o curso de Direito pela Universidade de Coimbra e exerceu docência no Liceu Central de Coimbra, no Liceu do Carmo, em Lisboa, e no Liceu Alexandre Herculano, no Porto. Em 1907, recebeu uma bolsa de estudo, para realizar uma missão oficial de estudos, visitando vários estabelecimentos de ensino de diversos países da Europa, o que lhe permitiu adquirir conhecimentos sobre a Educação Nova e os recentes métodos de pedagogia moderna.

Em 1909, durante o 2.º Congresso Pedagógico, defendeu a importância da Cartilha Maternal (1876) para a reestruturação do sistema educativo e proferiu diversas conferências sobre literatura portuguesa, na Université Nouvelle, em Bruxelas, que foram publicadas, em 1910, sob o título La Littérature Portugaise. Nesse ano, integrou-se na Loja Maçónica Solidariedade, em Lisboa, sob o nome João de Deus. 

A partir de 1913, tornou-se membro da Academia das Ciências de Lisboa e, desde 1920, sócio da Academia Brasileira de Letras. Em 1915, juntamente com o escritor brasileiro Paulo Barreto, fundou a revista Atlântida. 

Como escritor, publicou obras importantes, como Versos (1897), Algas (1898), A Escola e o Futuro (1908), Terra Florida (1909), A Reforma da Instrução Pública (1911), A República e a Escola (1914), Presenças Eternas (1943) e muitos outros títulos. 

Para além disso, fez várias adaptações dos clássicos da literatura para crianças e para o povo, tais como Os Lusíadas Contados às Crianças e Lembrados ao Povo (1930), Viriato Trágico (1940), A Eneida de Virgílio (1947) e Viagens de Gulliver (1957). As suas principais preocupações foram combater o analfabetismo, promover uma educação nacionalista e preparar os indivíduos para o futuro e para a integração na sociedade. 

Enquanto político, ocupou o cargo de secretário-geral e diretor-geral da Instrução Pública do Ministério do Interior. Foi deputado pelo Partido Democrático e ministro dos Negócios Estrangeiros. 

Recebeu várias distinções das quais se destacam: a Ordem Leopoldo II do governo belga, em 1920; a Grã-Cruz da Ordem de Cristo do Presidente da República português, em 1923; a Grã-Cruz da Ordem El Sol del Peru doPresidente da República peruano, em 1925; a Grã-Cruz da Ordem do Cruzeiro do Sul, em 1944, do Presidente da República do Brasil, que lhe atribuiu ainda várias outras medalhas. 
João de Barros faleceu a 25 de outubro de 1960, em Lisboa. (Daqui)



Pintura de Consuelo Hernández



“O mar não é um obstáculo: é um caminho.”



"Bicicleta" - Poema de Herberto Helder


Lyonel Feininger (1871-1956), A Corrida de Bicicleta



Bicicleta


Lá vai a bicicleta do poeta em direção
ao símbolo, por um dia de verão
exemplar. De pulmões às costas e bico
no ar, o poeta pernalta dá à pata
nos pedais. Uma grande memória, os sinais
dos dias sobrenaturais e a história
secreta da bicicleta. O símbolo é simples.
Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais –
lá vai o poeta em direção aos seus
sinais. Dá à pata
como os outros animais.

O sol é branco, as flores legítimas, o amor
confuso. A vida é para sempre tenebrosa.
Entre as rimas e o suor, aparece e desaparece
uma rosa. No dia de verão,
violenta, a fantasia esquece. Entre
o nascimento e a morte, o movimento da rosa floresce
sabiamente. E a bicicleta ultrapassa
o milagre. O poeta aperta o volante e derrapa
no instante da graça.

De pulmões às costas, a vida é para sempre
tenebrosa. A pata do poeta
mal ousa pedalar. No meio do ar
distrai-se a flor perdida. A vida é curta.
Puta de vida subdesenvolvida.

O bico do poeta corre os pontos cardeais.
O sol é branco, o campo plano, a morte
certa. Não há sombra de sinais.
E o poeta dá à pata como os outros animais.

Se a noite cai agora sobre a rosa passada,
e o dia de verão se recolhe
ao seu nada, e a única direção é a própria noite
achada? De pulmões às costas, a vida
é tenebrosa. Morte é transfiguração,
pela imagem de uma rosa. E o poeta pernalta
de rosa interior dá à pata nos pedais
da confusão do amor.
Pela noite secreta dos caminhos iguais,
O poeta dá à pata como os outros animais.

Se o sul é para trás e o norte é para o lado,
é para sempre a morte.
Agarrado ao volante e pulmões às costas
como um pneu furado,
o poeta pedala o coração transfigurado.
Na memória mais antiga a direção da morte
é a mesma do amor. E o poeta,
afinal mais mortal do que os outros animais,
dá à pata nos pedais para um verão interior.




sexta-feira, 4 de agosto de 2017

"As palavras têm rosto: ou de silêncio ou de sangue" - Poema de António Ramos Rosa



Giorgio de Chirico, Two horses by a lake, 1950



As palavras têm rosto: ou de silêncio ou de sangue


As palavras têm rosto: ou de silêncio ou de sangue. 
O cavalo que nos domina é uma sombra apenas. 
Sem sílabas de água, avança até ao outono. 
Uma árvore estende os ramos. As nuvens subsistem. 

O cavalo é uma hipótese, uma paixão constante 
Na rede das suas veias corre um sangue de tempo, 
uma árvore se desloca com a alegria das folhas. 
Árvore e cavalo transformam-se num só ente real.

Eu que acaricio a árvore sinto a força tenaz 
da testa do cavalo, a eternidade férrea, 
o ser em explosão e eu tão leve folha 

na sombra deste ser animal vegetal 
busco a razão perfeita, a humildade estática, 
a força vertical de ser quem sou e o ar.


"Círculo Aberto ", Lisboa, Ed. Caminho


quarta-feira, 2 de agosto de 2017

"Não me mostres nenhum norte" - Poema de A. M. Pires Cabral


James Tissot (1836-1902), The Gallery of HMS Calcutta (Portsmouth), 1876



Não me mostres nenhum norte


Não me mostres nenhum norte
nem estradas para lá:
são tudo embustes.

Mostra-me antes pedras, folhas mortas
de outono atapetando o chão das matas,
voos de libelinha rasando o sol poente,
cândidas risadas infantis.

Quero eu dizer: mostra-me coisas
daquelas que se corrompem sem pressa.




segunda-feira, 31 de julho de 2017

"Branco" - Poema de Rosa Maria Martelo


Charles Courtney Curran (Pintor norte-americano, 1861-1942), "Sombras"



Branco


Interessa-me o inconcreto branquejar
da roupa no estendal (o branco, não)

mais do que o peso da água, ver
que o nada não se vê na água a evaporar

na luz do tecido em contraluz interessa-me
o vazio suspenso do vazio
quando a roupa enforma ao vento e sobe
no arame, interessa o risco que sustém a louca nave,
os voos desabitados e a pequena hora de ninguém.




domingo, 30 de julho de 2017

"S/ Título" - Poema de Alberto Pimenta


George Grosz, The lovesick man, 1916



Poema


ao que parece
parece que
os poetas
dizem o que dizem
diz um poeta

segue-se
ao que parece
segundo o mesmo poeta
que os poetas
dizem o que dizem
mas o que dizem
não quer dizer
o que dizem

os especialistas
uns dizem
que alguns poetas
querem dizer o que dizem
e outros
não

ora
quem sou eu
para discordar
de facto
também me parece
que muitos poetas
não querem dizer
o que dizem
quando dizem
o que querem

outros sim
quer dizer
pelo contrário
não dizem
o que querem
mas querem dizer
o que dizem

por exemplo
quando
le nouveau bec
d'assurancetourix
diz
que mais vale
uma ordem injusta
que a desordem
eu sei tu sabes ele sabe
que é isso
que le mec quer dizer


Resumo: a poesia em 2012, Documenta/Fnac, pp. 23-24. 


sexta-feira, 28 de julho de 2017

"Fotografia" - Poema de Nuno Júdice


Eugène Atget (Francês, 1857-1927), s/t, 1925



Fotografia


Naquilo a que o jornal chama um nu sulfuroso de
atget (1925) a mulher está de gatas em cima da cama,
e olha para trás, de esguelha, como se quisesse
mostrar-se ao fotógrafo, por um lado, e esconder-se
de nós, por outro. Mas quando a olhamos, adivinha-se
um sorriso que, não se sabe porquê, se esbate com
essa espécie de névoa com que o tempo envolve
as fotografias antigas, a sépia, em que não é
possível disfarçar a certeza que temos de que aquela
mulher, hoje, não passa de cinza nalgum canto
de cemitério de província. Porém, a sua nudez
desafia a morte; e quase lhe podíamos pedir
que esqueça o fotógrafo, e regresse à realidade
onde ele a foi descobrir, para que a sua vida
retome o curso habitual, e não nos perturbe com
esse sentimento de que a vida é breve, e já foi.



Eugène Atget, Eclipse, 1912



"A vida é fascinante: só é preciso olhá-la através das lentes corretas."



segunda-feira, 24 de julho de 2017

"Parto-me desses olhos graciosos" - Soneto de Bernardo de Brito


Gabriel von Max, Blonde young girl wiyth a veil



Parto-me desses olhos graciosos


Bem pode, Sílvia minha, qualquer serra 
tirar a estes meus olhos sua glória, 
qualquer monte terá de mim vitória, 
qualquer pequeno espaço, enfim, de terra. 

Mas contra um pensamento fazem guerra, 
que traz em si pintada vossa história, 
e quanto mais contrastes, mais memória 
conserva um coração que vos encerra. 

Parto-me desses olhos graciosos, 
mas por eles vos juro, que mudança 
se não veja nos meus eternamente, 

Que a mágoa de os ver ficar chorosos 
estímulo será para a lembrança 
de quem se vê de vós viver ausente. 


Bernardo de Brito, in 'Sílvia de Lisardo' 


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