quarta-feira, 31 de maio de 2017

"O Ator" - Poema de Herberto Helder


George Grosz, The Eclipse of the Sun, 1926, Oil on canvas 207.3 x 182.6 cm



O Ator


O ator acende a boca. Depois os cabelos.
Finge as suas caras nas poças interiores.
O ator põe e tira a cabeça 
de búfalo, 
de veado, 
de rinoceronte.
Põe flores nos cornos.
Ninguém ama tão desalmadamente
como o ator.
O ator acende os pés e as mãos.
Fala devagar.
Parece que se difunde aos bocados.
Bocado estrela. 
Bocado janela para fora. 
Outro bocado gruta para dentro.
O ator toma as coisas para deitar fogo 
ao pequeno talento humano.
O ator estala como sal queimado.

O que rutila, o que arde destacadamente 
na noite, é o ator, com
uma voz pura, monotonamente batida 
pela solidão universal.
O espantoso ator que tira e coloca
e retira 
o adjetivo da coisa, a subtileza 
da forma 
e precipita a verdade.
De um lado extrai a maçã na sua 
divagação de maçã. 
Fabrica peixes mergulhados na própria
labareda de peixes.
Porque o ator está como a maçã.
O ator é um peixe.

Sorri assim o ator contra a face de Deus.
Ornamenta Deus com simplicidades silvestres.
O ator que subtrai Deus de Deus
e dá velocidade aos lugares aéreos.
Porque o ator é uma astronave que atravessa
a distância de Deus.
Embrulha. Desvela.
O ator diz uma palavra inaudível.
Reduz a humanidade e o calor da terra
à confusão dessa palavra.
Recita o livro. Amplifica o livro.
O ator acende o livro.
Levita pelos campos como a dura água do dia.
O ator é tremendo.
Ninguém ama tão rebarbativamentecomo o ator.
Como a unidade do ator.

O ator é um advérbio que ramificou
de um substantivo. E o substantivo retorna e gira,
e o ator é um adjectivo.
É um nome que provém ultimamente
do Nome.
Nome que se murmura em si, e agita,
e enlouquece.
O ator é o grande nome cheio de holofotes. 
O nome que cega.
Que sangra.
Que é o sangue.
Assim o ator levanta o corpo, 
enche o corpo com melodia,
corpo que treme de melodia.
Ninguém ama tão corporalmente como o ator.
Como o corpo do ator.

Porque o talento é a transformação.
O ator transforma a própria ação
da transformação.
Solidifica-se. Gasifica-se. Complica-se.
O ator cresce no seu ato.
Faz crescer o ato.
O ator atifica-se.
É enorme o ator com sua ossada de base,
com suas tantas janelas, 
as ruas.
O ator com a emotiva publicidade.
Ninguém ama tão publicamente como o ator,
como o secreto ator.

Em estado de graça. Em compacto
estado de pureza.
O ator ama em ação de estrela. 
Ação de mímica.
O ator é um tenebroso recolhimento
de onde brota a pantomima.
O ator vê aparecer a manhã sobre a cama.
Vê a cobra entre as pernas.
O ator vê fulminantemente
como é puro.
Ninguém ama o teatro essencial como o ator.
Como a essência do amor do ator.
O teatro geral

O ator em estado geral de graça.




George Grosz, The Pillars of Society, 1926


"De uma maneira geral, os seres humanos podem ser divididos em três classes: aqueles que se matam com trabalho, os que se matam com preocupações e aqueles que se matam de tédio." 




terça-feira, 30 de maio de 2017

"Todo o tempo é de poesia" - Poema de António Gedeão


Abbott Fuller Graves, Woman with Flower Basket



Todo o tempo é de poesia


Todo o tempo é de poesia

Desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.
Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia

Todo o tempo é de poesia

Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que em sangue soçobram.
Vidas que a amar se consagram.

Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.

Todo o tempo é de poesia.

Desde a arrumação ao caos
à confusão da harmonia.


in Movimento Perpétuo 


segunda-feira, 29 de maio de 2017

"Confissão" - Poema de Charles Baudelaire





Confissão


Uma vez, uma só, graciosa e doce amante,
Teu suave braço sobre o meu
Pousou (no fundo em trevas de minha alma, o instante
Que então vivemos não morreu);

Era bem tarde; qual efígie luminosa,
A lua cheia se exibia,
Enquanto a noite, como um rio, majestosa,
Sobre Paris em calma fluía.

E junto às casas, por debaixo dos portais,
Gatos furtivos se moviam,
O ouvido alerta, ou, como sombras fraternais,
A passo lento nos seguiam.

Súbito, em meio àquela intimidade franca
Nascida a luz ainda escassa,
De ti, rico instrumento ao qual nunca se arranca
Senão a mais vibrante graça,

De ti, alegre e clara como uma fanfarra
Imersa na manhã radiante,
Uma nota queixosa, uma nota bizarra
No ar oscilou toda hesitante

Qual menino franzino e macilento e imundo,
A quem os pais, por pejo ou medo,
Longo tempo escondessem aos olhos do mundo,
Como se esconde um vil segredo.

Anjo infeliz, ela trauteava a nota aguda:
“Aqui na Terra é tudo engano,
E mesmo que a si próprio alguém sempre se iluda,
Revela-se o egoísmo humano;

Ser bela é ofício cujo preço se conhece,
É o espetáculo banal
Da bailarina louca e fria que fenece
Com um sorriso maquinal;

Semear nos corações é sucumbir ao pranto;
Finda-se o amor, vem a saudade,
Até que o Esquecimento os arremesse a um canto
E os lance enfim à Eternidade!”

Muita vez evoquei esta lua encantada,
Este silêncio noite afora,
E esta medonha confidência sussurrada
Ao coração que a escuta agora.


in As flores do mal



domingo, 28 de maio de 2017

"Deus" - Poema de Casimiro de Abreu


Hans Dahl (Norwegian, 1849-1937),  Summer Day



Deus


Eu me lembro! eu me lembro! – Era pequeno 
E brincava na praia; o mar bramia 
E erguendo o dorso altivo, sacudia 
A branca escuma para o céu sereno 

E eu disse a minha mãe nesse momento: 
“Que dura orquestra! Que furor insano! 
“Que pode haver maior que o oceano, 
“Ou que seja mais forte do que o vento?!” – 

Minha mãe a sorrir olhou p’r’os céus 
E respondeu: – “Um Ser que nós não vemos 
“É maior do que o mar que nós tememos, 
“Mais forte que o tufão! Meu filho, é – Deus!” – 


In As Primaveras, 1859


sábado, 27 de maio de 2017

"Chama e Fumo" - Poema de Manuel Bandeira


Émile Eisman Semenowsky, Beauty in Pink (also known as Coquette), 1900



Chama e Fumo 


Amor – chama, e, depois, fumaça...
Medita no que vais fazer:
O fumo vem, a chama passa... 

Gozo cruel, ventura escassa,
Dono do meu e do teu ser,
Amor – chama, e, depois, fumaça... 

Tanto ele queima! – e, por desgraça,
Queimado o que melhor houver,
O fumo vem, a chama passa... 

Paixão puríssima ou devassa,
Triste ou feliz, pena ou prazer,
Amor – chama, e, depois, fumaça... 

A cada par que a aurora enlaça,
Como é pungente o entardecer!
O fumo vem, a chama passa... 

Antes, todo ele é gosto e graça.
Amor, fogueira linda a arder!
Amor – chama, e, depois, fumaça... 

Porquanto, mal se satisfaça,
(Como te poderei dizer?...)
O fumo vem, a chama passa... 

A chama queima. O fumo embaça.
Tão triste que é! Mas, tem de ser...
Amor?... – chama, e, depois, fumaça:
O fumo vem, a chama passa...




"A velhice pede desculpas" - Poema de Cecília Meireles



Abbott Fuller Graves, Yankee Peddler



A velhice pede desculpas


Tão velho estou como árvore no inverno, 
vulcão sufocado, pássaro sonolento. 
Tão velho estou, de pálpebras baixas, 
acostumado apenas ao som das músicas, 
à forma das letras. 

Fere-me a luz das lâmpadas, o grito frenético 
dos provisórios dias do mundo: 
Mas há um sol eterno, eterno e brando 
e uma voz que não me canso, muito longe, de ouvir. 

Desculpai-me esta face, que se fez resignada: 
já não é a minha, mas a do tempo, 
com seus muitos episódios. 

Desculpai-me não ser bem eu: 
mas um fantasma de tudo. 
Recebereis em mim muitos mil anos, é certo, 
com suas sombras, porém, suas intermináveis sombras. 

Desculpai-me viver ainda: 
que os destroços, mesmo os da maior glória, 
são na verdade só destroços, destroços. 


in 'Poemas (1958)'


sexta-feira, 26 de maio de 2017

"Roteiro" - Poema de Sidónio Muralha


Autorretrato de Louis-Michel van Loo


Roteiro


Parar. Parar não paro.
Esquecer. Esquecer não esqueço.
Se caráter custa caro
pago o preço.

Pago embora seja raro.
Mas homem não tem avesso
e o peso da pedra eu comparo
à força do arremesso.

Um rio, só se for claro.
Correr, sim, mas sem tropeço.
Mas se tropeçar não paro
- não paro nem mereço.

E que ninguém me dê amparo
nem me pergunte se padeço.
Não sou nem serei avaro
- se carácter custa caro
pago o preço.


"Poemas" Editorial Inova, Porto


"Não há tempo" - Poema de Fernando Lemos


Charles Demuth (1883–1935), Aucassin and Nicolette, 1921



Não há tempo 


Não há tempo 
há horas 
Não há um relógio 
há 
hábitos que 
me habitam 

O poema dói 
o ponteiro corta 
a hora que queima 
a morte simula 

respira 
para não me distrair 


in 'A única real tradição viva 
- antologia da poesia surrealista portuguesa' 



quinta-feira, 25 de maio de 2017

"O lugar das coisas" - Poema de Nuno Júdice


Maria Helena Vieira da Silva, Composition, 1936



O lugar das coisas


Gosto das palavras exatas, as que acertam
com o centro das coisas, e quando as encontro
é como se as coisas saíssem de dentro delas. 

Essas palavras são duras como os objetos
que designam, pedra, tronco, ferro, o vidro
de espelhos quebrados com o calor da tarde. 

Tento incendiá-las quando escrevo, como se
o fogo saísse de dentro da frase, e se espalhasse
pelo campo da página numa devastação de sílabas. 

Então, atiro sobre as palavras outras palavras,
água, pó, terra, o ar seco do verão, para que a voz 
não fique queimada nesta paisagem negra. 

Recolho os restos, os adjetivos, os advérbios,
artigos, preposições, para que só as palavras que indicam 
as coisas fiquem no lugar que já tinham. 

Pouco importa que as frases percam o sentido. O
que fica são os nomes das coisas, para que as coisas saiam 
de dentro deles e as possamos ver nos seus lugares.



quarta-feira, 24 de maio de 2017

"Pastoral" - Poema de António Gedeão


Émile Eisman Semenowsky (1859-1911), An Oriental Flower Girl



Pastoral


Não há, não,
duas folhas iguais em toda a criação.

Ou nervura a menos, ou célula a mais,
não há, de certeza, duas folhas iguais.

Limbo todas têm,
que é próprio das folhas;
pecíolo algumas;
baínha nem todas.
Umas são fendidas,
crenadas, lobadas,
inteiras, partidas,
singelas, dobradas.

Outras acerosas,
redondas, agudas,
macias, viscosas,
fibrosas, carnudas.

Nas formas presentes,
nos atos distantes,
mesmo semelhantes
são sempre diferentes.

Umas vão e caem no charco cinzento,
e lançam apelos nas ondas que fazem;
outras vão e jazem
sem mais movimento.

Mas outras não jazem,
nem caem, nem gritam,
apenas volitam
nas dobras do vento.

É dessas que eu sou.


Poesias Completas



Émile Eisman Semenowsky (1859-1911), Autumn



Outono


Uma borboleta amarela?
Ou uma folha seca
Que se desprendeu e não quis pousar?


terça-feira, 23 de maio de 2017

"Quarenta Anos" - Poema de Jayro José Xavier


Retrato de Ivan Shishkin  por Ivan Kramskoi, 1873



Quarenta Anos


Blocos de ouro branco na boca 
fios de prata na barba 
Ó tempo 
me torno valioso 
e não me valho 

Diz que amor é urgente mas não corro 
diz que a vida é agora mas não ardo 
não tenho pressa 
diante de mim, no 
espelho 

Ostento, claro, uma testa mais larga 
porém quem disse 
que me tornei mais 
sábio? 


in 'Enquanto Vivemos'


segunda-feira, 22 de maio de 2017

"O Sonho" - Poema de Lêdo Ivo





O Sonho


O universo é o sonho de Deus 
e Deus é o sonho dos homens. 
Em nossa vigília suprema sonhamos a realidade 
de um Deus que cria o sol e as estrelas. 

Este é o nosso drama. Jamais saberemos 
se sonhamos ou estamos acordados. 
A noite habita o dia. No sonho sou um peixe 
que apodrece na praia. 


 in 'A Noite Misteriosa'



domingo, 21 de maio de 2017

"Olimpíadas" - por Álvaro de Campos





Olimpíadas


      
       O sport é a inteligência inútil manifestada nos movimentos do corpo. O que o paradoxo alegra no contágio das almas, o sport aligeira na demonstração dos bonecos delas. A beleza existe, verdadeiramente, só nos altos pensamentos, nas grandes emoções, nas vontades conseguidas. No sport - ludo, jogo, brincadeira - o que existe é supérfluo, como o que o gato faz antes de comer o rato que lhe há de escapar. Ninguém pensa a sério no resultado, e, enquanto dura o que desaparece, existe o que não dura. Há uma certa beleza nisso, como no dominó, e, quando o acaso proporciona o jogo acertado, a maravilha entesoura o corpo encostado do vencedor. Fica, no fim, e sempre virado para o inútil, o inconseguido do jogo. Pueri ludunt, como no primário do latim... 
       Ao sol brilham, no seu breve movimento de glória espúria, os corpos juvenis que envelhecerão, os trajetos que, com o existirem, deixaram já de existir. Entardece no que vemos, como no que vimos. A Grécia antiga não nos afaga senão intelectualmente. Ditosos os que naufragam no sacrifício da posse. São comuns e verdadeiros. O sol das arenas faz suar os gestos dos outros. Os poetas cantam-nos antes que desça todo o sol. São todos peixes num aquário cuidado de além do vidro pela inteligência que lhes não toca. E a beleza deles, como a de tudo, é isto um movimento por detrás de um vidro, um brilho de corpo dogmatizado por uma clausura. 


(Heterónimo de Fernando Pessoa)
in 'Espólio de Fernando Pessoa'



"Voz Interior" - Poema de Antero de Quental


Lyonel Feininger, "Jesuítas III", 1915, óleo sobre tela



Voz Interior
(A João de Deus) 


Embebido num sonho doloroso, 
Que atravessam fantásticos clarões, 
Tropeçando num povo de visões, 
Se agita meu pensar tumultuoso... 

Com um bramir de mar tempestuoso 
Que até aos céus arroja os seus cachões, 
Através duma luz de exalações, 
Rodeia-me o Universo monstruoso... 

Um ai sem termo, um trágico gemido 
Ecoa sem cessar ao meu ouvido, 
Com horrível, monótono vaivém... 

Só no meu coração, que sondo e meço, 
Não sei que voz, que eu mesmo desconheço, 
Em segredo protesta e afirma o Bem!


Antero de Quental,
in "Sonetos"


sábado, 20 de maio de 2017

"Incubadora" - Poema de Jorge de Sousa Braga


Hugues Merle (french, 1823-1881),  Mother and child, 1869



 Incubadora


Era tão pequena a mão
que nem o seu dedo mendinho
conseguia agarrar.

Pesava quinhentos gramas
e respirava sem ajuda do ventilador

O coração da sua mãe quase que não batia
com receio de que ele sufocasse
sob o peso do seu amor.


A Ferida Aberta, 2001



Léon Bazille Perrault (french, 1832-1908)



"À medida que os filhos crescem, a mãe deve diminuir de tamanho. Mas a tendência da gente é continuar a ser enorme."




William-Adolphe Bouguereau (1825-1905), Maternal Admiration, 1869



"Mães, sois vós que tendes nas mãos a salvação do mundo." 

quinta-feira, 18 de maio de 2017

"No entardecer dos dias de verão" - Poema de Alberto Caeiro


Fátima Bacharel, Crepuscúlo de um dia de verão



No entardecer dos dias de verão


No entardecer dos dias de verão, às vezes, 
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece 
Que passa, um momento, uma leve brisa... 
Mas as árvores permanecem imóveis 
Em todas as folhas das suas folhas 
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão, 
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...

Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem! 
Fôssemos nós como devíamos ser 
E não haveria em nós necessidade de ilusão... 
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida 
E nem repararmos para que há sentidos...

Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo 
Porque a imperfeição é uma coisa, 
E haver gente que erra é original, 
E haver gente doente torna o Mundo engraçado. 
Se não houvesse imperfeição, havia uma coisa a menos, 
E deve haver muita coisa 
Para termos muito que ver e ouvir...

7-5-1914

Alberto Caeiro,
Heterónimo de Fernando Pessoa
in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLI"

quarta-feira, 17 de maio de 2017

"Na ampla praça há apenas plátanos" - Poema de Eduardo Guerra Carneiro


H. A. Brendekilde (Danish, 1857–1942), Fishing Boy, 1890



Na ampla praça há apenas plátanos


Na ampla praça há apenas plátanos. 
Nem crianças a correm de tão fria, 
nem estátuas a comovem bronzeadas. 
Das margens secas, com ilhas e outras casas, 
janelas, se as há, são quase setas. 
O frio perfurou tábuas e latas. 
Um vento seco corta junto aos olhos. 

O espaço é recomposto agora mesmo: na praça 
estou na sombra dos plátanos 
e tudo vejo com vontade e amor. 
Mas não chega a presença ou a vontade. 
Outros não chegam, ou aparecem apressados. 
Nomes se referem. Desenha-se um olhar. 
Apenas gesto, memória, sombra rara. 

Envolvo-me na praça. Os plátanos cobrem-me. 
Das margens sempre vem algum calor. 
Renascem os olhos. Os plátanos movem-se. 
As casas iluminam-se. Um grito 
cobre a sombra e assim anima 
a ampla solidão de todos nós. 


in 'Algumas Palavras'



Eduardo Guerra Carneiro


Jornalista e escritor português, Eduardo Guerra Carneiro nasceu em 1942, em Chaves (norte de Portugal). Frequentou a Faculdade de Letras do Porto e de Lisboa, sem embora terminar a licenciatura. 
Como jornalista, exerceu, desde o final dos anos 60, a sua profissão em vários órgãos de informação, como o Primeiro de Janeiro, Diário Popular, O Século, República e a revista TV Guia. Foi distinguido, duas vezes, com o prémio Júlio César Machado que prestigia os melhores textos sobre Lisboa, na imprensa diária. 
Enquanto escritor, Guerra Carneiro escreveu o seu primeiro livro de poesia em 1961, O Perfil da Estátua, seguindo-se muitos outros livros de poesia e de crónicas, tais como É assim que se Faz a História (1973), Damas de Copas (1981), Contra a Corrente (1988), Profissão de Fé (1990), Lixo (1993), Outras Fitas, (1999) e A Noiva das Astúrias (2001). A sua produção literária manifesta-se, inicialmente, no surrealismo e, mais tarde, num lirismo neorromântico. 
Guerra Carneiro morava sozinho, no Bairro Alto, no mesmo prédio onde também viveu o mestre Agostinho da Silva. A 3 de janeiro de 2004, Guerra Carneiro foi encontrado sem vida. (Daqui)


terça-feira, 16 de maio de 2017

"Poema do afinal" - de António Gedeão


Cecily Brown, Shadow Burn, 2005–06



Poema do afinal


No mesmo instante em que eu, aqui e agora,
Limpo o suor e fujo ao Sol ardente,
Outros, outros como eu, além e agora,
Estremecem de frio e em roupas se agasalham.

Enquanto o Sol assoma, aqui, no horizonte,
E as aves cantam e as flores em cores se exaltam,
Além, no mesmo instante, o mesmo Sol se esconde,
As aves emudecem e as flores cerram as pétalas.
Enquanto eu me levanto e aqui começo o dia,
Outros, no mesmo instante, exatamente o acabam.
Eu trabalho, eles dormem; eu durmo, eles trabalham.
Sempre no mesmo instante.

Aqui é Primavera. Além é Verão.
Mais além é Outono. Além, Inverno.
E nos relógios igualmente certos,
Aqui e agora,
O meu marca meio-dia e o de além meia-noite.

Olho o céu e contemplo as estrelas que fulgem.
Busco as constelações, balbucio os seus nomes.
Nasci a olhá-las, conheço-as uma a uma.
São sempre as mesmas, aqui, agora e sempre.

Mas além, mais além, o céu é outro,
Outras são as estrelas, reunidas
Noutras constelações.

Eu nunca vi as deles;
Eles,
Nunca viram as minhas.

A Natureza separa-nos.
E as naturezas.
A cor da pele, a altura, a envergadura,
As mãos, os pés, as bocas, os narizes,
A maneira de olhar, o modo de sorrir,
Os tiques, as manias, as línguas, as certezas.

Tudo.

Afinal
Que haverá de comum entre nós?

Um ponto, no infinito.


Poemas Escolhidos
Lisboa, Sá da Costa, 2001


domingo, 14 de maio de 2017

"O Amor" - Poema de Nuno Júdice


Tom Lovell (American, 1909-1997), Illustration for “Back Come The Bride,”
Ladies Home Journal,  February, 1944



O Amor 


Deus — talvez esteja aqui, neste
pedaço de mim e de ti, ou naquilo que,
de ti, em mim ficou. Está nos teus
lábios, na tua voz, nos teus olhos,
e talvez ande por entre os teus cabelos,
ou nesses fios abstratos que desfolho,
com os dedos da memória, quando os
evoco. 

Existe: é o que sei quando
me lembro de ti. Uma relação pode durar
o que se quiser; será, no entanto, essa
impressão divina que faz a sua permanência? Ou
impõe-se devagar, como as coisas a que o
tempo nos habitua, sem se dar por isso, com
a pressão subtil da vida? 

Um deus não precisa do tempo para
existir: nós, sim. E o tempo corre por entre
estas ausências, mete-se no próprio
instante em que estamos juntos, foge
por entre as palavras que trocamos, eu
e tu, para que um e outro as levemos
connosco, e com elas o que somos,
a ânsia efémera dos corpos, o
mais fundo desejo das almas. 

Aqui, um deus não vive sozinho,
quando o amor nos junta. Desce dos confins
da eternidade, abandona o mais remoto dos
infinitos, e senta-se aos pés da cama, como
um cão, ouvindo a música da noite. Um
deus só existe enquanto o dia não chega; por
isso adiamos a madrugada, para que não
nos abandone, como se um deus
não pudesse existir para lá do amor, ou
o amor não se pudesse fazer sem um deus. 


De Cartografia de Emoções (2001)


sábado, 13 de maio de 2017

"O caçador de borboletas" - Poema de Álvaro Magalhães


Pintura de Jim Daly



O caçador de borboletas


Sorridente, ao nascer do dia,
ele sai de casa com a sua rede.
Vai caçar borboletas, mas fica preso
à frescura do rio que lhe mata a sede
ou ao encanto das flores do prado.
Vê tanta beleza à sua volta
que esquece a rede em qualquer lado
e antes de caçar já foi caçado.

À noite, regressa a casa cansado
e estranhamente feliz
porque a sua caixa está vazia,
mas diz sempre, suspirando:
Que grande caçada e que belo dia!

Antes de entrar, limpa as botas
num tapete de compridos pêlos
e sacode, distraído,
as muitas borboletas de mil cores
que lhe pousaram nos ombros, nos cabelos.


in 'O reino perdido, 2000



Pintura de Jim Daly


"A casa da infância é como um rosto de mãe: contemplamo-lo como se já existisse antes de haver o Tempo." 

Mia CoutoO outro pé da sereia 


sexta-feira, 12 de maio de 2017

"O Caracol e a Lesma" - Poema de Francisco Joaquim Bingre


Ilustração de H. Morindiversos moluscos pulmonados,1893 

Uma versão artística, mas cientificamente incorreta de vários caracóis terrestres europeus e lesmas (uma espécie aqui não é um pulmonata), suas plantas de alimentos e fungos, e um besouro  que come moluscos (parte inferior direita). (Daqui)



O Caracol e a Lesma
(Fábula)


Um caracol retorcido
Com a lesma era casado:
Que negra vida com ela
Não padecia o coitado!

Ele dormia na casca,
Ela pegada à parede;
Um aranhão lhe chupava
A reima, se tinha sede.

Nestes encontros noturnos
Gozavam prazeres mornos:
Ao enroscado marido
Nasceram dois lindos cornos.

Ele escondia-os no búzio,
Envergonhado do sol.
Quantos não conheço eu,
Com frontes de caracol?!


in Obras, volume V, poema 711, 
edição de Vanda Anastácio, Lello Editores, 2003.



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