quinta-feira, 10 de agosto de 2017

"Na arca aberta o justo peca" - Poema de António Serrão de Castro


John Beaufain Irving (1825-1877), The Gossips, 1873



Na arca aberta o justo peca


Na arca aberta o justo peca, 
não em canastra fechada; 
mas vós da minha coitada 
fechada a fazeis caneca: 
vindes lá de seca e meca 
com tal pressa e furor tal, 
que fazeis, para meu mal, 
com mau termo e ruim modo, 
do meu queijo lama e lodo, 
e do meu pão cinza e sal. 

Quando as peras me levais, 
então para peras levo, 
pois vos pago o que não devo, 
e vós rindo vos ficais: 
se pera flamenga achais 
a comeis em português, 
e me fazeis d'essa vez, 
com estrondo e com arenga, 
os narizes à  flamenga 
muito mal em que me pez. 

Não vos escapam por pés 
minhas cerejas bicais, 
nem as ginjas garrafais, 
se as tenho alguma vez: 
porque mal, em que me pez, 
como cerejas se vão 
pelos pés à vossa mão 
e da vossa mão à minha, 
a cereja é marouvinha 
as ginjas galegas são. 

Passa hoje por lebre o gato, 
por perdiz passa o francelho 
por capão o galo velho, 
passa a gaivota por pato: 
por arraia passa o rato, 
mas é coisa que me encanta, 
que passando coisa tanta 
com mentira e com trapaça 
só a passa não me passa 
para baixo da garganta. 


António Serrão de Crasto, 
in 'Os ratos da Inquisição'

António Serrão de Crasto  nasceu em 1610 e faleceu em 1684. Poeta cristão-novo, foi acusado pela Inquisição e preso durante dez anos. Escreveu na prisão a obra 'Os ratos da Inquisição', publicada por Camilo Castelo Branco em 1883.


John Beaufain Irving (1825-1877), The Latest News, 1873



"Do fanatismo à barbárie não há mais que um passo."



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